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Pais: Parem de educar seus filhos para serem campeões olímpicos

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OLYMPIC MEDAL
Andrew Rich via Getty Images
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Não me surpreende que o Brasil esteja ganhando menos medalhas do que o esperado nos Jogos Olímpicos Rio 2016. A meu ver, a expectativa era "fantasiosa". Ganhar uma competição olímpica depende de muito mais do que esforço individual: é resultado de todo um aparato econômico-histórico-cultural que confere poder, autoestima, apoio afetivo e financeiro ao atleta, desde bem antes de ele ter nascido.

Historicamente, faz bem pouco tempo que o governo brasileiro investe em políticas públicas no esporte, comparado com países ricos e desenvolvidos, que tradicionalmente se destacam como campeões. O resultado das Olimpíadas sempre foi reflexo da geopolítica mundial, com raras exceções. Em geral, são mais bem sucedidos os "filhos" de países hegemônicos no mundo. Um ou outro "guerreiro" escapa ileso deste jogo de poder simbólico.

Pelo mesmo motivo, não é surpresa o show que os times femininos estão dando em diversos esportes, e o fato de ter o maior número de atletas assumidamente LGBTT. Mais uma vez: as Olimpíadas são reflexo da nossa cultura.

O que mais tem me chamado a atenção nestes Jogos Olímpicos é a reação de alguns atletas ao perder uma competição. Um judoca brasileiro, ao ser desclassificado por um golpe proibido, se nega a sair do tatame, discute com o juiz e fica gritando em direção aos mesários. Depois de alguns minutos, decide deixar a área de luta e abandona o ginásio chorando. Ele alega ter sido roubado, acusa a arbitragem internacional de persegui-lo e sempre prejudicá-lo no circuito mundial.

Em outro episódio, o treinador do atleta francês que fica atrás do brasileiro no salto de vara diz que o Brasil é um país bizarro. Um outro francês, desta vez na modalidade vôlei, justifica sua derrota acusando os colegas de doping.

Apesar de aparentemente inusitadas para um adulto, tais reações "exageradas" diante de uma frustração tampouco deveriam nos surpreender. Aliás, elas poderiam ser até mais comuns, considerando o mundo hipercompetitivo em que vivemos, onde não há espaço para perdedores. Um mundo onde as frustrações afetivas, desde a mais tenra idade, são tamponadas pelo consumismo, por recompensas materiais de pais que estão no mercado de trabalho ocupados demais tentando "vencer na vida", sem tempo para dar amor e companhia para seus filhos.

Antes mesmo de o bebê sair da barriga, os pais planejam tudo para que ele seja um "vencedor".

Estamos colocando nossos filhos no curso de inglês, no judô, na natação, no Kumon, no mandarim, na aula de música aos 2 anos de idade pra que ele seja bastante estimulado e consiga competir no mercado de trabalho. E pouco importa se já tem maturidade emocional para dar conta de uma agenda tão cheia.

Assim vamos educando crianças que nunca tiveram a oportunidade de brincar. Desde que nascem, jogar é obrigação, é treino, é competição.

Começamos na mais tenra idade a "treinar" nossos filhos para sobreviver neste mundo por meio de uma educação baseada em "punições e recompensas". Reforçamos comportamentos positivos com "medalhas afetivas" ou materiais, e punimos na mesma moeda quando eles não são bem-sucedidos em comportamentos que julgamos "incorretos" ou aquém do esperado.

Simbolicamente, estamos o tempo todo dizendo para nossas crianças que elas só terão valor e só serão amadas se forem "campeãs" e atingirem as metas e objetivos que nós estipulamos.

O sistema escolar segue a mesma linha: avalia todos os alunos por meio de notas padronizadas e jamais dá retornos individuais considerando as singularidades do aprendizado e autenticidade das respostas de cada aluno.

Somos todos tratados como números. E queremos todos ser o número 10. E, quem não quer, é considerado um loser, ainda que seja um poeta ou gente finíssima.

O especialista em educação americano Alfie Kohn, em seu livro Unconditional Parenting (Paternidade e Maternidade Incondicionais, em tradução livre), critica esse modelo amplamente utilizado mundo afora de educação baseada no castigo e recompensa. Diz que os pais deveriam se perguntar menos "como fazer meu filho agir como quero?" e se questionar mais "do que meu filho precisa e como posso dar a ele o que ele precisa?".

Segundo Kohn, é equivocada a visão de que somos pais permissivos e vivemos numa sociedade centrada na criança. "Não é verdade. As crianças vivem frustradas, porque seus pontos de vista não são levados a sério. Muitos pais tratam os filhos como irritantes desconhecidos. Os pais não precisam ser mais rígidos com os filhos, mas, sim, passar mais tempo com eles, para dar a eles mais orientação e tratá-los com mais respeito."

Kohn defende uma educação menos voltada a estratégias que façam as crianças agirem conforme queremos no curto prazo. "Se você não comer tudo, não ganha sobremesa." "Se você passar no vestibular, te dou um carro", "se você correr na escada, vai ficar de castigo". Às vezes, até renegando amor: o filho fica de recuperação e o pai fecha a cara e dá um gelo nele.

Vira e mexe me vejo fazendo este tipo de coisa com o meu filho de 4 anos. Às vezes até estimulo descaradamente a competitividade. Para fazê-lo ir logo escovar os dentes antes de sairmos para a escola, proponho: "vamos ver quem chega primeiro no banheiro?".

Mas ando mais atenta às mensagens que estou transmitindo e que crianças registram para a vida toda: "competir é legal", "só me amam quando faço exatamente o que o outro quer", "para conseguir o que se quer, ameace e coloque medo".

Segundo Kohn, quanto mais usamos a punição como conduta, mais criamos pessoas que pensam em como as consequências de suas ações afetarão elas próprias e não os outros... Crianças autocentradas.

Kohn argumenta que a punição impede a reflexão moral. Além disso, estimular a competitividade leva a criança a ver cada colega como potencial obstáculo para o seu sucesso. Os resultados previsíveis são: alienação, agressividade, inveja.

O escritor americano afirma que quando o seu senso de competência depende de triunfar sobre os outros, você irá, na melhor das hipóteses, se sentir seguro só de vez em quando, porque nem todos podem ganhar.

A competitividade torna a autoestima condicionada e precária e tem efeito sobre campeões e perdedores. Ele conclui: evite posicionar seu filho no mundo como superior aos outros. E aconselha: seja mais acolhedor e apoiador do que controlador; evite atrelar sua própria identidade às conquistas do seu filho.

Nada contra ser orgulhoso das conquistas dele, mas quando contar vantagem sobre o filho é algo que se faz com frequência e muito entusiasmo, é possível que se esteja confundindo sua identidade com a dele.

Lá em casa, faço questão de não deixar o meu filho de 4 anos ganhar todas as vezes em um jogo ou brincadeira. E nem fazer elogios do tipo "nossa, como você está bonito, vai ser o menino mais bonito da festa" ou "você é o melhor jogador de futebol do mundo".

Durante muito tempo, ao não acertar no gol ou ao sair perdendo no dominó, meu pequeno agia de forma bem parecida àquele judoca brasileiro: dava piti, se jogava no chão, dizia que não tinha valido.

Aos poucos, eu tenho contado pra ele que o legal é jogar pra se divertir, não para ganhar. E divertido é quando cada hora um ganha. Se ele sempre ganhar, o outro sempre vai perder, o que, além de ser sem graça, não é justo que só um fique feliz e outro sempre triste. E digo que o amo quando ele perde ou ganha. Quero que ele se sinta amado só por existir.

O Brasil não está precisando de mais campeões olímpicos. O que o Brasil e o resto do mundo precisam é de bons perdedores.

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