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Uma carta para Patrícia Abravanel e seu preconceito

Publicado: Atualizado:
PATRICIA ABRAVANEL
FotoArena via Getty Images
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Patrícia,

tudo bem? Eu espero que sim.

Antes de te falar as coisas que eu desejo, acho melhor eu me apresentar. Meu nome é Beatriz Sanz, eu tenho 22 anos e sou estudante de jornalismo. Gostaria de ressaltar que sou bolsista e cotista, acho importante dizer que não tive um pai com condições financeiras de pagar meus estudos em boas escolas ou boas faculdades e o governo cumpriu o seu dever constitucional de financiar minha educação.

Eu sou negra. Isso também é importante porque a minha mãe foi empregada doméstica, passadeira e trabalhadora rural durante toda sua vida. Por muito tempo eu pensei que desempenharia o mesmo tipo de trabalho que ela. Até hoje, eu não sei muito sobre as minhas raízes e honestamente já perdi as contas de quantas vezes eu disse "chuta que é macumba", porque me foi negado o direito de saber o tipo de religião que meus ancestrais professavam.

Eu também sou bissexual. Descobri minha sexualidade na adolescência e foi complicado, porque eu acreditava que a minha família não me aceitaria e eu tinha medo. Hoje eu namoro uma mulher maravilhosa, que aliás, você deveria conhecer e a minha família teve a melhor reação, uma que eu nem poderia sonhar. Eu sou muito feliz.

Agora eu queria te contar um fato que aconteceu comigo. Neste fim de semana, eu estava com a minha namorada e sua priminha de seis anos, uma criança muito esperta e encantadora. Nós estávamos assistindo filmes de princesa da Disney. Escolhemos "Valente" e "A Princesa e o Sapo", porque eu acho que são histórias de mulheres fortes e me reconheço nelas. Gostaria que a menina também entendesse que ela pode ser forte.

Em um momento, eu falei que iria me casar com a minha namorada e perguntei pra ela o que ela pensaria do nosso casamento. A resposta foi "viadas". Questionei a garotinha porque ela tinha dito aquilo e ela disse "eu vi na TV que mulher com mulher não pode casar".

Eu fiquei chocada com as respostas dela. Chamamos ela para conversar e explicamos rapidamente que o nosso amor é igual a qualquer amor onde haja respeito e carinho. Ela pareceu entender e nos disse "tudo bem, quando vocês tiverem filhos, eu cuido deles para vocês trabalharem".
Mas aquele momento me consumiu por dias e me consome agora quando te escrevo, depois de ter desabafado com amigos e conversado a respeito com a minha namorada.

Eu estudo para ser comunicadora, me orgulho de ter algumas matéria publicadas e de já trabalhar na área, mas eu sempre me pego pensando no papel que a comunicação exerce na vida diária das pessoas.

É por isso que quando você diz que "não é normal" que eu namore uma mulher ou que se deve ensinar que "homem é homem, mulher é mulher", você me agride. É por isso que quando você diz que a África é atrasada e esquece que aquele continente foi saqueado e as pessoas de lá sequestradas, você me agride.

Você tem um papel social na nossa comunidade. Existem pessoas que te ouvem e que reproduzem aquilo que você diz, enquanto vão trabalhar no metrô lotado. "Você viu o que a filha só Silvio Santos falou?"...

Como estudante de jornalismo, eu aprendi a respeitar a opinião e a liberdade de expressão de todas as pessoas. Mas a sua liberdade de expressão não te dá o direito de me agredir.

Espero que você me ouça e me entenda. Eu só quero ter meus direitos e minha identidade de mulher negra bissexual respeitada.

Um abraço,

Beatriz.

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