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Waldik Gabriel e Ítalo são vítimas de um Estado que mata crianças negras, em vez de protegê-las

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"Todos pelo Biel. Justiça, justiça."

A palavra de ordem entoada por amigos e familiares abria caminho para o caixão de um metro e meio, cercado por flores brancas e amarelas. O vidro encaixado na madeira fina do MDF permitia ver somente o rosto de Waldik Gabriel Silva Chagas, de 11 anos de idade, assassinado no último domingo pelo Estado brasileiro.

O menino negro, franzino, parecia ser ainda mais novo. Foi atingido na nuca por um disparo da Guarda Civil Metropolitana, sentado no banco de trás de um Chevette. Segundo a Guarda, o carro havia sido descrito por motoqueiros assaltados e fugia da perseguição policial. Segundo Nilma Silva, madrasta de Gabriel, ele ia com amigos para uma quermesse no bairro vizinho.

Independentemente do que tenha acontecido, um único disparo atingiu o carro. Não foi no pneu, para impedir uma possível fuga. Foi no vidro traseiro. Na nuca de um menino de 11 anos de idade. "A gente não tinha notícia de que ele estivesse envolvido com coisa errada. Mas mesmo que estivesse, era isso que deviam fazer?", questiona Nilma.

gabriel

"Olha a última foto que tirei dele. Levei para cortar o cabelo e ele pediu para tirar", Waldik Chagas, de 37 anos, pai de Biel

No vai e vem de pessoas próximas a Gabriel, curiosos e jornalistas, na frente do velório do Cemitério Municipal da Vila Formosa, um homem negro observava em silêncio. Abisogun Olatunji, de 34 anos, membro da União dos Coletivos Pan-Africanistas, foi prestar solidariedade à família e checar se precisavam de alguma assistência:

"A cada 23 minutos um jovem negro morre brutalmente assassinado no Brasil. É uma limpeza étnica, política de Estado. Precisamos fazer o enfrentamento."

O grupo também está em contato com a família de Ítalo Ferreira de Jesus Siqueira, assassinado pela PM no início do mês, aos de dez anos de idade. "O pior é ver a falta de resposta da sociedade", afirma Abisogun. "Fazemos também um trabalho educacional, de consciência, autoestima. Mas para funcionar, precisamos estar vivos."

Além de militante do movimento negro, Abisogun é professor de história nas redes municipal e estadual de ensino. Em 2014, estava em uma reunião de planejamento pedagógico na escola onde trabalha, na zona leste, quando ouviu disparos. A polícia havia assassinado um estudante na frente da escola. "Moro no Itaim Paulista e tenho um filho de treze anos, Ayodele. Outro dia, estava com vontade de comer uma batata de noite e pensei em pedir para ele comprar. Na hora, me toquei: 'fica aí, vou eu que tenho menos chance de morrer'".

Em 2015, quando o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) completou 25 anos, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) denunciou os altos índices de homicídios de crianças e adolescentes no Brasil.

As principais vítimas são meninos negros e pobres que vivem nas periferias das grandes cidades, como Biel e Ítalo. Em 2013, foram registrados 10,5 mil casos: uma média de 28 crianças e adolescentes assassinados por dia. Estamos em segundo lugar no ranking de países com maior número de assassinato de meninos e meninas de até 19 anos, atrás apenas da Nigéria.

LEIA MAIS:

- Gênero, raça e classe: Categorias de análise para compreender (não só) as mulheres negras

- Uma criança assassinada na porta de casa. Por 'legítima defesa' da PM. Impossível.

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