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Polônia, subterrâneos de sal

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Médicos têm alertado há anos para os riscos à saúde do consumo excessivo de sal, que pode levar à hipertensão e a problemas cardíacos. Agora, imagine um lugar construído com esses minúsculos cristais brancos capaz de encantar pessoas do mundo inteiro e de ajudar no tratamento de doenças respiratórias. Quem chega à pacata cidade de Wieliczka, no sul da Polônia, nem imagina que ela está localizada exatamente sobre a mais antiga mina de sal em atividade do mundo.

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Os bosques da superfície estão separados por 380 degraus do primeiro nível da Mina de Sal Wieliczka, a 64 metros de profundidade. A decida é lenta e em fila indiana por uma escada de madeira em espiral. Aos poucos, o silêncio começa a dar lugar ao burburinho das línguas e aos rangidos da estrutura. A acústica do espaço é perfeita para concertos e, periodicamente, orquestras se apresentam nas profundezas da terra.

A estimativa oficial é que mais de um milhão de pessoas visitem anualmente o lugar. Entre as personalidades que já passaram pela mina estão o astrônomo Copérnico (1473-1543), o escritor alemão Goethe (1749-1832), o compositor Frédéric Chopin (1810-1849) e o papa João Paulo II (1920-2005). O que todos eles procuram, das celebridades aos anônimos, é poder apreciar por alguns instantes as centenas de obras de arte esculpidas pelas mãos rudes dos mineiros em 700 anos de trabalho.

Os pesquisadores dizem que, há 20 milhões de anos, parte do sul da Polônia era fundo de mar, o que explica a alta concentração de sal na região. A mina foi descoberta em 1290. Na época, o minério tinha para a economia a mesma importância que o petróleo tem hoje.

O sal era utilizado na conservação dos alimentos, para curtir o couro e na fabricação de pólvora. Como o processo de extração era lento e árduo, ele era vendido a preços elevados, o que lhe rendeu o nome de ouro branco na Idade Média. A própria palavra salário é uma adaptação do verbete 'salarium', usado para definir o valor pago aos mercadores que transportavam o valioso minério até as cidades do Império Romano.

Wieliczka foi desativada para a extração em 1996. Os 700 anos de trabalho criaram mais de três mil galerias, lagos subterrâneos, câmaras e milhares de corredores com iluminação amarelada. Em algumas partes, as paredes e o chão são cobertos por camadas grossas de sal. Estalactites se desprendem do teto e criam formas capazes de brincar com a imaginação dos turistas.

A estrutura é formada por nove níveis, mas apenas três estão abertos ao público. Os visitantes são autorizados a descer 135 dos 327 metros da mina. É possível caminhar por apenas 1% do espaço, ou seja, cerca de três dos 300 quilômetros de túneis. Esse percurso pode ser feito entre 2h e 5h, dependendo da disposição e dos guias que acompanham as excursões.
Primeiro Nível

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A primeira parada dos visitantes em Wieliczka acontece aos 64 metros. Nela já é possível sentir a diferença do ar respirado na superfície. As paredes cobertas de sal e a profundidade funcionam como filtros que barram as bactérias e a poluição. Pessoas do mundo inteiro buscam ajuda para doenças pulmonares num tratamento do século XIX. A prescrição médica é, respire.

É possível passar uma noite ou semanas em um centro de reabilitação dentro da mina. A diária custa aproximadamente cem reais. Os quartos, que oferecem pouco conforto se comparados com hotéis da região, são na verdade antigas baias de um estábulo transformadas em alojamento.

Esse nível apresenta como foram os primeiros trabalhos de extração do ouro branco, equipamentos antigos e as estratégias utilizadas para transportar o minério até a superfície. Os primeiros séculos de escavação foram feitos à luz de vela. O grande temor era que o fogo provocasse uma explosão, por causa da elevada concentração de metano na atmosfera.

A força de cavalos e bois também foi utilizada para facilitar a escavação nos tempos áureos. A missão quase impossível era descer com os animais até os pontos mais profundos. Elevadores improvisados com cordas e madeira foram a solução encontrada. Os pontos altos de visita no primeiro nível são a Câmera Copérnico e a Capela Anthony.

Segundo Nível

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Já na próxima etapa, aos 90,7 metros, é possível ver a estrutura original de canalização de água e câmaras que abrigam lagos. O segundo nível também revela a criatividade dos mineiros que trabalharam por 700 anos na escavação da mina. São centenas de estátuas, afrescos, luminárias e murais feitos com o ouro branco.

O ponto alto da visita é a Capela de Santa Kinga, um dos maiores templos subterrâneos do mundo. A construção do espaço começou em 1896 e levou mais de 70 anos. Só três pessoas se revezaram na construção em diferentes momentos históricos.

As paredes da Santa Kinga são ornamentadas com cenas bíblicas do Novo Testamento, do nascimento à crucificação de Cristo. Em uma das paredes foi esculpida em baixo-relevo uma cópia da Última Ceia, de Leonardo da Vinci. Do piso aos lustres, tudo que se vê é feito de sal. Todos os domingos, missas são celebradas na capela, que abriga uma estátua do papa polonês João Paulo II. Ainda é possível alugar o espaço para casamentos, aniversários e recepções.

Terceiro Nível

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A última parada em Wieliczka acontece na pequena Capela de São João. O item mais valioso do templo é a estátua da crucificação de Cristo, do século 18. O nível também abriga lojas de lembrancinhas, restaurantes e lanchonetes. É possível comprar o sal da própria mina como souvenir. O retorno à superfície começa aos 135,6 metros, mas desta vez não é preciso se preocupar com os degraus da descida. O transporte dos visitantes é feito em elevadores rústicos que cabem apenas nove pessoas por vez.

Para quem ainda está à procura de um bom motivo para cruzar o Atlântico, a revista National Geographic elegeu a mina como um dos 30 lugares mais fascinantes do mundo em 2008. Ela ficou à frente de símbolos de beleza como o Taj Mahal (Índia), as Cataratas do Iguaçu (Brasil) e a cidade antiga de Petra (Jordânia). O júri, formado por exploradores, jornalistas e cientistas, escolheu Wieliczka por ser uma das "mais maravilhosas" estruturas construídas pelas mãos humanas de todos os tempos.

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