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Por que trabalhar como enfermeira é extremamente cansativo

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Esta manhã ao tomar um banho quente, antes de começar o dia como enfermeira no CTI, rezei como sempre rezo e o pedido era bem familiar.

"Senhor, ajude-me a ouvir a sua voz e não fazer mal", orei. E ainda que minhas palavras não fossem exatamente, "ajude-me a não matar ninguém hoje", vou ser bem sincera, era exatamente isso que eu quis dizer.

A enfermagem é um desses trabalhos onde o seu desempenho é importantíssimo e ter um "dia livre" mentalmente não é uma opção tão viável assim.

A margem de erro é extremamente pequena e você quer evitar esses erros a todo custo. Porque quando você faz besteira são seres humanos que sofrem as consequências.

Não, não é nada estressante.

Então não é que eu reze por sentir medo, mas eu imploro para ter forças para o difícil caminho que enfrentarei. Afinal de contas, você não consegue prever o que encontrará ao entrar por aquela porta nem as tarefas que lhe serão assignadas para o cuidado dos pacientes que tipicamente se assemelham a uma caixinha de chocolates do Forrest Gump.

Você nunca sabe qual vai ser.

Mas não é só a incerteza que faz com que o trabalho seja desafiador. Nem é a jornada de treze horas. Às vezes é apenas a expectativa com o seu desempenho que faz com que seja difícil.

Não importa como você está se sentindo em um dia qualquer, você deve chegar preparada para o jogo. Você não tem autorização para escorregar em direção ao caos lentamente. Ao contrário, você será forçada a se jogar nele de cabeça.

É esse a natureza da coisa. Você cumprirá seu papel rápida e proficientemente, sem erros e com um sorriso no rosto. E se acontecer de estar com poucos funcionários ou descobrir que o hospital está operando em capacidade máxima, você ainda precisará ter um desempenho ótimo. Você não tem escolha.

Conheço um cara que é dono de um restaurante e ele me disse que quando eles estão bem ocupados e não conseguem de forma alguma produzir mais do que eles estão atualmente preparando, eles desconectam o telefone.

Parece ser uma excelente ideia e eu já tive dias em que quis fazer o mesmo. Mas as pessoas não deixam de ficar doentes porque meu colega não foi trabalhar e tampouco elas têm um intervalo na sua dor, mesmo quando eu realmente preciso fazer xixi.

Como enfermeira que sou quando você atinge essa parede mental e física sobre o que é possível fazer, você não tem autorização para desconectar o telefone. Em situações de vida e morte você não consegue ficar longe dali nem por um segundo para se recompor.

Então quando você está no final de suas forças você apenas magicamente descobre que tem mais forças. E você vai tirando, tirando e tirando mais dessa força. Sem erros. Sem equívocos. Com a cabeça fria e a conduta professional. Essa é a expectativa.

Além disso, fora das expectativas do seu chefe e do público no geral, você é analisada pelo pior juiz de todos. Você mesma. Você acha que se permitiria um pouco de espaço. Afinal de contas, você encara interações contínuas com algumas das pessoas mais difíceis do mundo para se atender e você deve lidar com elas da forma mais difícil e estressante que elas jamais enfrentarão.

Você falará com compaixão diante do insulto desnecessário e pouco merecido, e com empatia consolará até os que menos podem ser consolados.

Você tratará 10 de cada 10 dores para alguém que brinca de Candy Crush no telefone e fica com vergonha no dia seguinte quando você recebe uma nova tarefa por pedido do paciente porque você se negou a dar sua injeção contra a dor exatamente quando eles pediram para receber.

Você responderá da melhor forma possível as questões fora de sua área de prática, mas até mesmo assim você será menosprezada pelas suas respostas quando elas diferirem da "namorada do meu irmão que é enfermeira".

E ainda assim, apesar da sua compreensão sobre a população desafiante que você atende, você não será medida pelos seus olhares. Independentemente do conhecimento contínuo e daquele que muda, você deve se manter atualizada e você sentirá que não sabe de quase nada em certos dias.

Ninguém irá castigá-la mais por perder a veia do que você mesma e ninguém ficará mais decepcionada sobre o seu desempenho diário quando está sob estresse do que você mesma. É verdade; as suas expectativas para si mesma irão além do que até o mais exigente paciente pode pedir.

O peso de tanta responsabilidade, a pressão de estar sendo forçada para além de seus limites e as expectativas pouco reais que os outros têm de você, mas especialmente que você mesmo tem de si, farão com que você questione nos dias realmente ruins como pode odiar tanto algo que ama com tanta força. Como é que você pode chorar por uma suposta derrota, frustração e dor por uma vocação que de alguma forma lhe proporciona tanta alegria.

Nos dias que terminam com você saindo da sua unidade às pressas ou nos dias em que você sai de lá a duras penas, e eventualmente se acomoda na tranquilidade do seu carro onde chora lágrimas quentes, é nesses dias que você se sente um pouco exausta. Talvez muito.

Mas daí algo estranho sempre acontece comigo. Um colega me envia uma mensagem carinhosa, agradecendo por todo meu trabalho difícil, valorizando o que eu já assumia como um fracasso meu e isso me dá fôlego.

Quando eu encontro um ex-paciente e quando eles me dizem como eu mudei ou salveis as suas vidas, ou até quando eu era a coisa mais importante dos seus mundos durante esse tempo tão difícil, eu fico sem fala.

"Quem eu? A desajeitada?" (É assim mesmo que eu me sinto. Não importa quantas vezes tenha passado por isso). E mesmo assim, os pacientes realmente acreditam nisso. Eles realmente acham isso de mim. Eu me sinto abençoada e me sinto inspirada a continuar.

Quando alguém querido me liga pedindo a opinião ou conselho em questões de saúde me sinto honrada. Se for à 1 da manhã eu fico frustrada, mas também sinto orgulho de fazer parte de uma profissão onde os outros buscam conselho e assistência quando se sentem assustados e inseguros.

Quando um paciente terrivelmente doente, como aquele que você sabe com certeza que irá morrer, sai dessa e fica melhor, eu me sinto elevada. Eu sinto que consigo até voar quando percebo que fiz parte, mesmo que pequena, da cura e restauração da vida de alguém. Nada se compara a esse sentimento.

Um sorriso, uma gargalhada, um elogio ou um agradecimento são os melhores motivadores para meu corpo e mente.

E daí eu não fico mais exausta.

Quase, mas nem tanto.

Então eu vou para cama mais cedo e acordo até cedo no dia seguinte. Eu tomo um banho quente diante de mais uma jornada de treze horas e rezo.

"Senhor, ajude-me a ouvir a sua voz e a não fazer mal".

E daí eu fico bem.

*Este post apareceu originalmente em briegowen.com

(Tradução: Simone Palma)

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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