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Me vi também do outro lado do muro de Brasília

Publicado: Atualizado:
WALL CONGRESS BRAZIL
Igo Estrela via Getty Images
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COXINHA!
DIREITA!
REAÇA!
FASCISTA!

Desde que comecei a ficar mais crítico ao governo Dilma, em meados do primeiro mandato, passei a ser rotulado com as palavras acima. Se você não está com a gente, então, automaticamente, está com nossos inimigos.

No começo foi chato, mas depois de um tempo a gente vai se afeiçoando a cada um deles.

Coxinha? É fofo vai. E coxinha, convenhamos, é uma coisa deliciosa.

Direita? Ok. Embora no Brasil ela esteja de muitas formas associada à ditadura, também existem
ideias interessantes na direita. Por que não?

Reaça? Um reacionário é quem reage. Eu estava reagindo a um governo muito ruim e, por isso, não me incomodei.

Fascista? Tá, fascista mesmo eu não sou, e nunca serei. Mas, em tom de ironia, até como fascista me assumi. É sempre engraçada a reação de quem te aponta o dedo quando você incorpora algo que deveria ser um xingamento.

Não demorou muito para que esses rótulos criassem um sentimento de grupo. Saber que outra pessoa também foi carimbada assim automaticamente criava laços. Assim foi no Facebook, nos bares que frequentava e, ultimamente, até entre amizades de anos.

Mas não pensem que isso só aconteceu do lado de cá.

Do outro lado via amigos cada vez mais incorporando as vestes de petralha, mortadela, comunista e por aí vai. Mesmo que a pessoa não fosse exatamente uma defensora da União Soviética, pela zueira ela até passava a simpatizar com Stalin.

O tempo passou mais um pouco, a crise se acentuou e finalmente veio a ideia do impeachment. Tive meus motivos para aderir. E mesmo que respeitasse aqueles que discordavam de mim, a cisão pela qual o país passou fez com que eu me distanciasse cada vez mais de quem pensava diferente.

Em outras palavras, nunca havia sido tão direitista, reacionário e coxinha. Fascista ficava só na ironia mesmo.

Até que veio o muro em frente ao Congresso, também chamado de muro da vergonha. Um muro implantando ali, bem no coração da cidade onde moro, para impedir que grupos opostos tivessem contato no dia da votação da Câmara.

Passei em frente dele algumas vezes e confesso que me senti mal. Saber que isso existe dá tristeza, mas ver com os próprios olhos dá um tipo de angústia difícil de definir. E foi aí que comecei a repensar essa trajetória.

Teoricamente eu deveria estar ali do lado direito, junto dos meus amigos que queriam a saída da presidente. Mas será que as pessoas do outro lado eram tão diferentes de mim? Será que eu era tão diferente delas?

Vamos ver. Eu apoio o casamento gay, acho o Bolsa Família um programa legal e as cotas para minorias uma coisa necessária. Também sou a favor de um estado mais laico, da legalização de algumas drogas e de que mulheres possam decidir sobre o aborto.

Claro que existem direitistas que concordam com algumas dessas coisas. Mas convenhamos, essas ideias são historicamente mais ligadas à esquerda.

Por outro lado, tenho dúvidas sobre a pena de morte e a liberação das armas. Nesses quesitos estou em cima do muro, portanto, mais ao centro.

Só que aí chegamos em assuntos econômicos e, nesse ponto, bem, eu fico com a direita. Acredito que Estados não podem gastar mais do que arrecadam (a não ser em casos especiais), que a inflação deve ser controlada acima de tudo (ainda mais em um país com o nosso histórico) e de que nossos governos precisam sim de mais eficiência. Muito mais.

De novo, tenho amigos da esquerda que concordariam comigo nesses pontos, mas, geralmente, são ideias defendidas pela direita.

Mas onde eu quero chegar?

O ponto é que é difícil encontrar alguém que seja totalmente de esquerda, de centro ou de direita. A vida real é muito maior do que essa ou aquela ideologia e, às vezes, fazemos escolhas que podem parecer contraditórias. Mas será que são?

O mundo é complexo demais para que a gente adote todas as ideias daquele manual sagrado, e de mais nenhum outro.

É aí que lembro do meu professor de política na faculdade. Ele falava que sociedades democráticas sempre têm uma parcela da população que pende para a esquerda, outra que pende para a direita, e um centrão que pende para lá e para cá conforme a conveniência. Dizia ele que esse centrão sempre definia o resultado das eleições.

Na época, quando ouvi isso, pensei que essas pessoas sem ideologia eram massa de manobra. Hoje penso o contrário. Essas pessoas, de centro, são livre para decidir. Massa de manobra é quem adota algum manual de ponta a ponta, seja de esquerda ou de direita.

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