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Será que é tão engraçado assim rir de quem se atrasa para o ENEM?

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ATRASO ENEM
Agência Brasil/Fotos Publicas
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Uma enxurrada de memes e piadas sobre os "atrasados para o ENEM" surgiu novamente nas redes sociais. A "cereja do bolo" neste ano foi a organização de uma série de camarotes open-bar organizados pelo blogueiro Maurício Cid ("Não Salvo") para acompanhar pessoas que chegaram atrasadas. Cenas como essas nos fazem questionar se a falta de sensibilidade e de empatia da sociedade realmente aumenta a cada ano e, principalmente, quando vamos refletir de fato sobre as desigualdades brasileiras.

O filósofo e pedagogo brasileiro Demerval Saviani defende que vivemos em uma situação de "inclusão excludente". No livro História das ideias pedagógicas no Brasil, ele defende que o Estado inclui os estudantes no sistema escolar em cursos de diferentes níveis e modalidades sem os padrões de qualidade exigidos para ingresso no mercado de trabalho. Isso melhora as estatísticas educacionais, porque permite apresentar números que indicam a ampliação do atendimento escolar se aproximando de metas como a universalização do acesso. Entretanto, embora incluídas no sistema escolar, essas crianças e esses jovens permanecem excluídos do mercado de trabalho e da participação ativa na vida da sociedade, por suas defasagens e, muitas vezes, por sua posição na geografia das cidades e do País.

Neste ano, o estudante de 24 anos Josinaldo de Sousa saiu do pequeno município de Colônia, no Piauí (PI) e viajou para São Paulo (SP) para tentar pela terceira vez entrar na universidade pelo ENEM. Foram 2.630 km de distância e um ônibus que quebrou no meio do caminho. O jovem saiu da cidade-natal na quarta-feira e chegou na capital paulista apenas cinco horas antes do horário do fechamento dos portões. Na viagem de 5 meses que fiz pelo Brasil, percorri 17 mil quilômetros de ônibus e posso dizer que, com certeza, essa não foi uma experiência confortável e nem pouco cansativa.

O caso de Josinaldo é emblemático, mas essa realidade também acontece próximo de nós. Um estudo recém-publicado apontou que apenas 25% dos paulistanos têm pontos de ônibus perto de casa. Tenho andado bastante pelas periferias da cidade usando transporte público para conhecer iniciativas que fazem a diferença em educação e ainda são pouco divulgadas. Nessas explorações, tenho vivido mais as diferenças sociais de São Paulo e sentido como a distribuição de investimentos beneficia pouco as regiões mais afastadas do centro.

Em um País em que a unidade da federação com maior investimento anual por aluno é de R$ 14.633 (Distrito Federal), enquanto a maior mensalidade dos colégios privados mais bem colocados no ENEM 2015 é de R$4.480 (Colégio Vértice) ressalta essa "inclusão excludente" na qual o estudante de escola pública já sai em desvantagem em todos os níveis de investimento em seu desenvolvimento.

Mais do que isso, talvez uma lição de casa para quem ri de quem chega atrasado no ENEM seja andar mais pela cidade com o olhar sensível para outras realidades, rever os privilégios, tentar entender mais o que o outro passa e, por fim, usar o tempo útil para realizar as transformações positivas que nossa sociedade tanto precisa.

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