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Prezada Mãe,

Publicado: Atualizado:
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David Pereiras Villag via Getty Images
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Estive analisando a relação que eu tive com minha mãe desde muito pequeno até os dias de hoje e, pensando nos momentos mais tristes, resolvi compartilhar essa carta com você que está grávida, você que é mãe de criança pequena e você que pretende ser mãe.

Minha mãe conta (e eu me lembro) que, quando pequeno, por volta dos meus 5 ou 6 anos, deitávamos no tapete da sala para ver TV. Lembro como gostava de tocar sua pele, beijar sua bochecha macia e sentir seu cheiro de mãe.

-- Mãe?
-- Oi. -- respondia ela olhando pra mim, enquanto eu a abraçava com um braço e uma perna jogados por cima dela.
-- Sabia que eu te amo?
-- Sabia. Eu também te amo.
Então ela voltava a atenção para a TV. Minutos depois eu continuava:
-- Mãe?
-- Quê?
-- Eu já falei que eu te amo?
-- Já, filho. Eu também te amo muito!

Eu só queria que aquela mulher tão linda, cheirosa e carinhosa soubesse que eu a amava muito.

Confesso que continuo fazendo isso, mas hoje com meu namorado.

Como relatei em outro texto meu, eu gostava muito de brincar com as meninas, mas meus pais me podavam. Meu pai e minha avó principalmente.

Foi na minha infância/adolescência que fui percebendo que eu era "diferente" dos meninos, e isso não agradava muito meus pais. Pelo menos era o que eu pensava. Naquela época não tinha internet. A TV, os jornais e as revistas não discutiam temas como sexualidade, gênero, etc. Numa cidadezinha de interior então, esse tipo de discussão não chegava mesmo!

Tornei-me um adolescente recluso, já que me aproximar dos meninos só me causava constrangimento e com as meninas eu poderia estar, desde que o interesse fosse quase sexual. Nunca foi, na verdade.

Em casa, eu me limitava ao "sim", "não" e o menor uso de palavras possíveis. Era um medo inconsciente de deixar escapar qualquer coisa que me entregasse. Mas entregar o que, se nem eu sabia o que de fato eu era?!

A única certeza que eu tinha era que eu tinha que ser quem meus pais queriam que eu fosse, não quem eu sempre fui. E isso arrancou de mim um bom período de convivência harmoniosa com meus pais, principalmente quando eu estava na fase de negação da minha orientação sexual.

Sim, houve uma época em que eu me forcei a ser heterossexual, já que tudo ao meu redor, de família à escola, amigos, publicidade e sociedade num geral, sempre me disseram (quase indiretamente) que o "normal" é homem e mulher, e só a relação entre eles é permitida.

Aliás, eu cresci acreditando que o homossexual é tipo uma terceira espécie, afinal "Deus fez o homem e a mulher", e o que foge disso é abominável. (oi?)

Passei a me camuflar para que eu pudesse ser aceito nas rodinhas de amigos e em casa ninguém pegasse no meu pé. Eu fui feliz, mas não por completo. Me afastei dos meus pais mesmo morando sob o mesmo teto.

Sabe aquela fase que o adolescente se torna insuportável, achando que é dono do mundo? Eu não conversava, eu rosnava. A sensação que eu tinha era que eu estava preso no famoso armário e só meus pais tinham a chave da porta.

Não culpo meus pais. A criação deles foi essa, e somada à falta de informação, natural que agissem dessa forma. Hoje sei que, apesar de sempre saber sobre minha orientação sexual, minha mãe tinha real medo de como a sociedade reagiria caso eu saísse de dentro do armário.

Tive a sorte de frequentar um Centro Espírita com meus pais durante toda minha adolescência e nunca ouvir NADA que condenasse a homossexualidade. Acredito que isso tenha ajudado muito na mudança que meus pais tiveram, principalmente meu pai.

Quando decidi me assumir para eles, utilizei duas páginas de um caderno escritas a próprio punho, pois não tinha forças e nem coragem de pronunciar a frase "eu sou gay/homossexual", porque ainda achava que isso fosse errado. Para minha surpresa e alívio, eles foram compreensivos e, pela primeira vez em muitos anos, nós conversamos como uma família. Minha mãe, com lágrimas nos olhos, me abraçou dizendo:

-- Por que você não disse antes? Estava tão preocupada achando que fosse algo pior!

Levou um tempo até todos nos adaptarmos às novidades (que nem eram novidades na verdade) e hoje nossa família parece outra. Aliás, todos nós mudamos, amadurecemos e evoluímos intelectualmente falando (ou espiritualmente, como diria meu pai).

Com tanta informação e compartilhamentos de experiências em redes sociais, fica mais fácil compreender a diversidade. Então, mãe, aproveite esse mundo de informações e absorva tudo que puder de experiências, seja de outras mães ou de outros filhos. Você tem a oportunidade de criar uma criança sem preconceitos e livre para ser quem ela realmente é.

Não é escondendo a homossexualidade que ela se tornará um adulto heterossexual. A gente simplesmente nasce assim. Ou você simplesmente deixou de ser gay para ser hétero? Não existe influência para isso, ou eu provavelmente estaria casado com uma mulher hoje.

Não é porque seu filho gosta de brincar com boneca, que ele é gay. Não é porque sua filha adora futebol, que ela será lésbica quando crescer. E se ele ou ela for, não há nada de errado nisso.

Talvez seu filho sinta curiosidade ao ver dois homens se beijando, da mesma forma que ele sentiria ao ver um homem e uma mulher fazendo o mesmo. E talvez ele experimente esse beijo. Talvez não. Você pode tentar priva-lo desse mundo moderno em que vivemos, mas ao invés de ajuda-lo, estará criando um adulto frustrado, ignorante e preconceituoso que não sabe conviver com as diferenças.

Não diga que é errado, explique que é amor. Amar não é errado. Explique que ele não pode sair beijando outras pessoas não pelo sexo delas, mas pela idade dele.

Permita que seu filho seja quem ele é. Esteja ao lado dele quando surgir o bullying e mostre que o errado não é ele que brinca com boneca, mas essa sociedade doente que acha isso errado.

Permita que seu filho goste de rosa, afinal é só uma cor como qualquer outra.

Permita que seu filho goste de brincar de casinha. Ele poderá se tornar um excelente pai.

Permita que seu filho seja feliz, do jeito que ele é: gay, hétero, trans...

O que nós mais precisamos durante toda a nossa vida é do amor e compreensão de nossos pais, e saiba que quando os temos do nosso lado, nada no mundo pode nos machucar.

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