Huffpost Brazil
BLOG

Apresenta novidades e análises em tempo real da equipe de colaboradores do HuffPost Brasil

Caio Silva Headshot

O verdadeiro terrorista que mata LGBTs continua vivo e imbatível

Publicado: Atualizado:
LGBT ORLANDO
Mike Blake / Reuters
Imprimir

O terrorista "Ódio Preconceito e LGBTfobia", que matou 50 pessoas na boate Pulse, voltada para o público LGBT, em Orlando (EUA), ao contrário do que veicula a imprensa internacional, continua vivo. O ataque que chocou o mundo no domingo (12) é apenas a repetição, em menor escala, da série de ataques semelhantes ocorridos aqui no Brasil, em 2015.

Nosso País está chocado com o ataque em Orlando, mas mata, anualmente, seis vezes mais o número pessoas que essa tragédia nos Estados Unidos. O verdadeiro terrorista não morreu após a série de ataques no Brasil, assim como não foi morto pela polícia de Orlando.

Dados do Grupo Gay da Bahia (GGB), entidade que há pelo menos 30 anos milita ativamente em prol do fim da LGBTfobia, dão conta de que somente no ano de 2015 ocorreram pelo menos 318 mortes por motivação LGBTfóbica. Em 2013, um total de 1.965 denúncias de 3.398 violações de direitos relacionados aos LGBT, envolvendo 1.906 vítimas e 2.461 suspeitos.

É complicado mapear com exatidão os crimes LGBTfóbicos, já que o Brasil ainda não tipificou em sua legislação os crimes de motivação odiosa e preconceituosa contra orientações sexuais e identidade de gênero.

Mas a simples existência dessas pessoas ainda enfrenta muita resistência de forças religiosas e conservadoras

Normalmente, quando um LGBT brasileiro é vítima de intolerância, e não morre, encontra obstáculos para denunciar e conseguir justiça. A injustiça começa, muitas vezes, dentro da delegacia.

Em muitos casos, a polícia, quando não possui o preparo adequado para lidar com esses crimes, classifica as denúncias das vítimas como injúria, lesão corporal, brigas, entre outros tipos de crimes. Tais classificações acabam imputando às vítimas alguma responsabilidade pelo ocorrido.

No Brasil, por força da justiça, e não da legislação, casais do mesmo sexo já podem oficializar suas uniões civis e até mesmo se casarem desde 2013, mas a ausência de uma legislação que vise coibir a violência contra LGBT, que não servirá apenas para punir os agressores, mas para educar as próximas gerações, deixa essas pessoas totalmente vulneráveis à intolerância e violência.

Evoluímos um pouco, permitindo que os LGBT oficializem suas uniões. Mas a simples existência dessas pessoas ainda enfrenta muita resistência de forças religiosas e conservadoras, livres de diversas formas para disseminar o ódio contra os LGBT através de discursos, seja nos púlpitos das igrejas ou nos plenários do poder legislativo, discursos que ecoam na cabeça de muitas pessoas desequilibradas, como o atirador de Orlando e resultam em violência, muita violência.

Não é difícil ver os resultados desses discursos. Temos um parlamentar que deu declarações como:

"O filho começa a ficar assim meio gayzinho, leva um couro, ele muda o comportamento dele. Olha, eu vejo muita gente por aí dizendo: ainda bem que eu levei umas palmadas, meu pai me ensinou a ser homem".

lgbt orlando

Coincidentemente, algum tempo depois, fomos surpreendidos com diversas, não uma, diversas notícias sobre crianças que morreram ou foram violentadas mediante castigos físicos por parte de algum parente, violência física visando a correção da sua orientação sexual ou identidade de gênero.

Precisamos de uma atualização da nossa legislação que não contemple imunidade de nenhum tipo para falas e discursos de ódio contra qualquer pessoa. O efeito desses discursos, "justificados" como uso da liberdade de expressão, foge do controle dos seus proferidores e são convertidos em violência por parte de pessoas radicais e, em seguida, ignorados pela justiça, não entram nos números oficiais, e o terrorista segue vivo e imbatível, ataque após ataque.

LEIA MAIS:

- A podridão do racismo, machismo e LGBTfobia mórmon

- Sobre ser um LGBT nordestino

Também no HuffPost Brasil:

Close
Atentado em boate de Orlando
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual