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Brasileiros, britânicos e europeus encaram as incertezas do Brexit

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BREXIT
Reinhard Krause / Reuters
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O Reino Unido amanheceu diferente - e monotemático - nesta sexta-feira, 24 de junho. No tradicional dia do "Fish and Chips" (peixe empanado com batatas fritas) alguns irão orgulhosos para os pubs comer o prato típico britânico em comemoração pela saída do Reino Unido da União Europeia. Para outros, talvez o gosto seja amargo demais.

Nas redes sociais, nos jornais gratuitos no metrô, na TV e nas conversas cara a cara nas ruas e cafés de Londres não há espaço para muitos assuntos além do Brexit. E numa das cidades mais cosmopolitas e diversas do mundo, o que não faltam são pontos de vista diferentes.

Entre os milhões de não-britânicos que vivem aqui, principalmente em Londres, estão também muitos brasileiros - estimativas indicam que cerca de 200 mil pessoas nascidas no Brasil vivem hoje no Reino Unido. Alguns já são cidadãos ingleses, outros têm cidadania europeia, e há ainda os simplesmente brasileiros.

Em um salão de beleza no bairro de Camden, em Londres, Gabriela Petrillo, pedagoga que mora na cidade há sete meses, presenciou uma conversa acalorada entre brasileiros.

Os que possuem passaporte europeu falavam sobre pedir residência permanente, preocupados com o que pode vir a acontecer. Entre os que já contam com documentação de residência permanente, alguns afirmavam inclusive que teriam votado pela saída da União Europeia.

Juntos, compartilhavam a opinião de que como resultado da decisão a libra será desvalorizada e a população sentirá a crise na pele. Para eles, brasileiros e acostumados a crises financeiras, nada mudaria - brincavam.

A permanência da própria Gabriela no Reino Unido poderá ser afetada, uma vez que apesar de ser brasileira com cidadania europeia, ainda não tem o direito à residência permanente (adquirido após cinco anos trabalhando ou estudando no Reino Unido).

Apesar de se dizer não muito preocupada com a situação, sua opinião sobre a vida aqui mudou.

"Com o passar do tempo e a implementação das mudanças, talvez este não seja mais o lugar que eu idealizei para ter uma vida no futuro", reflete.

Luiza Cruz, doutoranda em Química na universidade Imperial College London pelo programa Ciência sem Fronteiras desde 2014, tem opinião semelhante. "Escolhi estudar em Londres justamente por estar na Europa e por ser uma cidade tão diversa e vibrante. É triste pensar que isso pode mudar com o tempo", comenta.

O Imperial College, primeiro colocado este ano em um ranking da Times Higher Education como a universidade mais internacional do Reino Unido e a décima no mundo, publicou nesta sexta-feira um comunicado reafirmando as ligações europeias da instituição e a importância destas para suas pesquisa.

Para se ter uma ideia, nos últimos 10 anos as conexões europeias do Imperial College cresceram consideravelmente, resultando em 60 mil publicações de pesquisa conjunta. Cerca de 20% dos estudantes e 25% dos funcionários da instituição são de países da União Europeia e/ou do Espaço Econômico Europeu e 12% do financiamento das pesquisas da universidade provêm da Comissão Europeia. Outras universidades publicaram comunicados semelhantes.

Ingleses e europeus (agora dois adjetivos distintos)

No mesmo laboratório de Luiza no Imperial College estão a doutoranda Alexandra Lubin, 24 anos, inglesa, e o pós-doutorando Jochen Brandt, alemão. Ambos pró "Ficar", disseram estar se sentindo extremamente tristes e revoltados com o resultado. Como cidadã britânica, Alexandra votou, e optou por ficar na União Europeia por razões como as vantagens para a ciência e para a economia.

Também pesou na decisão da jovem o fato de que apesar de a UE "não ser perfeita", o grupo representa tolerância e igualdade. Ela conta que ficou acordada até tarde na noite anterior para assistir aos resultados e que sente que o clima hoje na universidade e em Londres é sóbrio. Por fim, admite se sentir envergonhada por ser britânica e pela mensagem que a decisão passa para o resto do mundo.

Colega de Alexandra, Jochen, 34 anos, vive no Reino Unido há quase sete anos. Apesar de se enxergar como um entusiasta da União Europeia, ele diz que não é a consequência imediata de sair do grupo o que o deixa mais triste, mas o medo de que uma possível recessão e a falta de segurança que algumas regras da UE traziam afetem o direito dos trabalhadores e consumidores.

Além disso, ele teme que possíveis desdobramentos negativas sejam atribuídos aos imigrantes. Apesar de não se sentir pessoalmente atacado, até mesmo por ser um imigrante privilegiado, como ele mesmo nota (branco, homem, jovem, empregado e com alto nível de escolaridade), Jochen sente que o clima "tóxico" o faz sentir indesejado em um país onde ele queria passar o resto da vida.

Com um perfil bem diferente daquele dos estudantes, jovens e fruto de uma geração já nascida na União Europeia, João Pereira, 76 anos, natural da Ilha da Madeira, interrompia o horário do almoço em um restaurante português para conversar com amigos sobre a grande novidade do dia. Alguns chegavam a apontar a possibilidade de uma nova guerra ou a debandada de outros países da União Europeia.

João se mudou para Londres em 1970, e se lembra que teve que passar por todo o processo a que um estrangeiro precisava se submeter para se tornar residente legal. Três anos depois, o Reino Unido entrou na União Europeia. Apesar de já se sentir britânico, não votou na quinta-feira.

Misturando palavras em inglês ao português cantado, acredita que de maneira geral a decisão foi ruim. "Eles vão se isolando cada vez mais, e talvez se esqueçam que também há muitos britânicos em outros países da Europa, principalmente Espanha, por exemplo".

Talvez resumindo o sentimento de grande parte dos habitantes do Reino Unido neste momento, João abaixa a cabeça e lamenta o fato de não saber o que esperar a partir de agora. Talvez daqui a algumas décadas não existam mais europeus-britânicos como John-João Pereira.

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