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Infelizes, só que não

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Mês passado, em Angers - na França, tive a oportunidade de assistir à palestra de Claudia Senik, professora da Escola de Economia da Sorbonne. Senik é expert em uma área complexa: a economia da felicidade, e é dela o estudo "O Quebra-Cabeça Francês: a Dimensão Cultural da Felicidade" (título original em inglês: The French Unhappiness Puzzle : The Cultural Dimension of Happiness). Ela foi uma das palestrantes do Congresso Europeu de Psicologia Positiva, no qual participei com o poster "An Introductory Approach to Positive Psychology and Career".

Na última edição do World Happiness Report, preparado anualmente pela Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável (ONU) e pelo Instituto da Terra (Universidade de Columbia/EUA), a França aparece em 32º lugar, enquanto o Brasil figura em 17º e a liderança fica por conta de nações europeias - Dinamarca, Suíça, Islândia, Noruega e Finlândia. O fato é que a baixa satisfação com a vida é velha conhecida dos franceses. Para se ter uma ideia, a média da felicidade no continente é de 7,6. Países escandinavos alcançam 8 e a França 7,2.

Senik investigou as razões por trás desse índice mais baixo que vizinhos com iguais e até piores condições. Ela se debruçou sobre variáveis econométricas: idade e características socioeconômicas. Em seguida, avaliou aspectos objetivos como desemprego, desigualdade, arquitetura dos subúrbios. Analisou ainda o peso do idioma, afinal "hereux" e "happy" ("feliz" em francês e inglês) não têm o mesmo significado preciso. Tais hipóteses foram descartadas.

O peso da cultura sobre a felicidade dos franceses foi confirmado quando foram avaliados dados referentes aos emigrantes. Franceses que vivem no exterior sentem-se menos felizes que outros europeus expatriados. "Talvez sejamos felizes ao nos sentirmos infelizes", brincou a professora durante a apresentação.

Franceses carregam mesmo um legado transgeracional. Podem apresentar um nível de exigência mais elevado que outros povos. Teria esse aspecto afetado a capacidade do cidadão de avaliar objetivamente sua própria felicidade? "O que sabemos é que a cultura é algo que permanece quando os fatores que a forjaram deixam de estar presentes", explica a professora.

Ela segue, indicando possível teoria que demanda pesquisas futuras: "Imigrantes que ingressaram no sistema escolar francês muito cedo são menos felizes que aqueles que não passaram por nossos sistema educacional. Isso me faz pensar que, possivelmente, nossas instituições de socialização primária possam contribuir para o quadro. Precisamos conhecer mais sobre o bem-estar das crianças". Senik vai além e defende a inserção do inglês na educação, visto que o idioma permite a comunicação em um mundo globalizado. "As crianças precisam desenvolver outros aprendizados, além de matemática e francês. Precisam desenvolver outras dimensões da vida", completa.

Com esses resultados fica claro que políticas que visam à felicidade do cidadão devem levar em conta, necessariamente, fatores psicológicos e culturais. Na França e em qualquer país.

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