Huffpost Brazil
BLOG

Apresenta novidades e análises em tempo real da equipe de colaboradores do HuffPost Brasil

Carlos Bezerra Jr. Headshot

Legado, uma palavra mágica

Publicado: Atualizado:
RIO DE JANEIRO
REUTERS/Paul Robinson
Imprimir

O Brasil fez bonito na entrada e na saída dos Jogos Olímpicos, soube conduzir belas cerimônias, a despeito de um cenário profundamente abalado pela crise que atravessamos nos últimos tempos e que tanto mexeu com nossa autoestima.

Realmente foi uma mistura de civilidade, capacidade de realização e criatividade, que nos encheu de orgulho.

Mas passadas essas duas semanas de torcidas e emoções, me pego a questionar: e agora, José?
Para estar pronto para os Jogos Olímpicos, o Rio passou por diversas intervenções. Como a população local foi impactada por tudo isso?

A cidade investiu em corredores de ônibus e em Veículos Leves sobre Trilhos, com grandes reformas concentradas na zona sul, na Barra da Tijuca e na zona portuária.

Mas essa remodelação não chegou às comunidades; esses projetos não alcançaram a população mais pobre, que passa longe dos interesses de grandes grupos econômicos.

Ao contrário, para ceder espaço às estruturas dos jogos, famílias pobres foram realocadas, enviadas para lugares distantes dos olhares de turistas. Mesma política adotada para a população de rua.

Não obstante, um estudo da FGV aponta - em análise sobre o legado pré-olímpico - que a economia carioca foi embalada pelas obras dos jogos e a desigualdade social na cidade não arredou o pé de onde sempre esteve.

Essa desigualdade social leva milhares de pessoas a se submeterem a condições degradantes de trabalho, como flagrante feito durante fiscalização realizada na Vila Olímpica pelo Ministério do Trabalho, ou jovens de famílias carentes que foram aliciadas por quadrilha especializada na exploração sexual de adolescentes, como constatou investigação policial.

Polícia, aliás, que foi, louvavelmente, ágil ao desmascarar os atletas americanos que mentiram sobre assalto para acobertar uma noitada de bebedeira e vandalismo e que, espera-se, aja da mesma maneira quando os casos forem de Amarildos e Cláudias, que assim como tantos outros são assassinados mesmo tendo em comum a honestidade e a luta diária por uma vida digna.

É verdade que o Brasil fez bonito em casa com o vôlei e o futebol masculinos, na canoagem, no salto com vara, no boxe, no vôlei de praia e no judô, para citar apenas as medalhas de ouro.

Mas quantos desses heróis olímpicos tiveram incentivo e suporte do poder público lá na base para chegar aonde chegaram?

Quantos tantos outros não poderiam competir em condições de igualdade e até de superioridade com outros atletas do mundo se tivessem os caminhos abertos para irem mais longe?

Um país que aplaude a equipe olímpica de refugiados, mas não é capaz de dar condições para plena integração aos que aqui chegam. Um país que prega a preservação do meio ambiente na abertura dos Jogos Olímpicos, mas nem sequer deu conta de despoluir a Baía de Guanabara.

Sim, algum legado, a tal palavra mágica, pode ter ficado dessa Olímpiada, mas ao final dela, acordamos nesta segunda-feira (22) com muitas lições de casa guardadas na gaveta.

LEIA MAIS:

- Refugiados sírios: Eles ficam, mas no quartinho dos fundos

- O mercado do desespero e o silêncio dos não inocentes

Close
As fotos mais incríveis da Olimpíada Rio 2016
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual