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Comunidades de mulheres: Ambientes férteis para o crescimento conjunto

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SORORIDADE
HipstersFree/CreativeCommons
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A primeira vez que ouvi falar de comunidades de mulheres foi no Facebook. Mentira, j√° conhecia algumas que eram f√≥runs por e-mail, mas nunca consegui lidar muito bem e me perdia nos papos. O Facebook colocou tudo em uma √ļnica p√°gina, com uma navegabilidade simples e a possibilidade de se conectar com a outra. Mas nem tudo o que pode ser, √©. Com o tempo, as comunidades passavam por brigas, mudan√ßas, julgamento ou sil√™ncio - um like j√° era suficiente para que a outra soubesse que eu sinto sua dor, ent√£o n√£o preciso falar sobre isso. Al√©m da chuva de prints: falou algo que algu√©m n√£o gostou, um print vazava magicamente para o mundo exterior. O Facebook √© um mundo sem regras e com muitas distra√ß√Ķes.

Mesmo com essa experi√™ncia d√ļbia, a necessidade de criar la√ßos com outras mulheres n√£o desapareceu. Segui usando meu perfil da rede social para fazer isso. E deu certo. Mas a exposi√ß√£o era grande e decidir at√© que ponto se abrir acaba sempre sendo a escolha pelo menos. A sensa√ß√£o de que n√£o era ali o espa√ßo para isso s√≥ crescia.

No fim do ano passado minha família foi passar o Natal e Ano Novo na minha casa. Como para grande parte das pessoas, tanto tempo junto não é fácil. Não por falta de amor, mas por falta de prática. Conviver é sobre prática e a gente não tem isso há alguns vários anos.

No meio da coisa toda o clima ficou estranho. Cada um queria a sua independência sem magoar o outro. Cada um queria ver uma coisa na TV mas não queria se fechar no quarto. Cada um queria um pouco do outro, mas não queria tanto. E então eles resolveram antecipar a viagem de volta. Foi um alívio para todo mundo, de adultos à crianças, passando pelo cachorros.

Quando tudo isso acabou eu precisava conversar sobre essas rela√ß√Ķes familiares. Minhas melhores amigas conhecem minha vida e eu conhe√ßo as delas. Tinha que ser um grupo de pessoas que n√£o soubessem tanto sobre mim e eu n√£o soubesse sobre elas. Foi assim que escrevi meu primeiro relato na Comum.

A Comum, nessa √©poca, era um f√≥rum exclusivo para mulheres. Um espa√ßo em que a gente conseguia ajudar uma √† outra em todo tipo de assunto: de dicas para congelar alimentos sem estragar, passando por relacionamentos abusivos, d√ļvidas sobre carreira at√© chegar a discuss√Ķes sobre a ind√ļstria aliment√≠cia ou homens que s√≥ transam com o p√™nis.

Foi l√° que mulheres que nunca tinham me visto me acolheram e me ajudaram a entender que nem sempre estar junto √© a melhor sa√≠da. Falamos sobre espa√ßo, sobre toda a bagagem que as rela√ß√Ķes familiares carregam e trocamos segredos, hist√≥rias √≠ntimas, percep√ß√Ķes sobre as rela√ß√Ķes e dicas pr√°ticas de como lidar com tudo isso. Me senti abra√ßada. Me senti vista. E quem n√£o quer ser vista?

No come√ßo desse m√™s a Comum entrou em uma nova fase: um site. Conte√ļdo produzido totalmente por mulheres, tentando ter apenas mulheres como refer√™ncia, e focando no que mulheres querem saber. Isso vai de conserto do carro a como instalar um chuveiro, passa por hortas urbanas e como cuidar do dinheiro, e chega a relatos que nos unem e mostram que todas n√≥s passamos por certas coisas iguais. Tem texto, tem v√≠deo e tem encontros.

Tudo o que a gente constr√≥i online √© levado para a vida. O primeiro encontro foi sobre contracep√ß√£o natural, t√≥pico que bombava no f√≥rum porque muitas mulheres cansaram de se encher de bombas hormonais - e as que precisavam do medicamento por indica√ß√£o m√©dica ou escolha foram totalmente respeitadas -, o pr√≥ximo √© sobre beleza natural, afinal n√£o adianta se alimentar bem e passar cosm√©ticos cheios de subst√Ęncia t√≥xicas das quais sua pele vai se alimentar tamb√©m.

E tem os vídeos. Mulheres incríveis falando sobre coisas que a gente quer aprender e que elas manjam. A gente é tão acostumada a buscar homens para se inspirar ou comprovar ideias, né? E aí vamos mantendo a sensação de que para tudo é necessário ter a aprovação ou a chancela masculina. Não é.

Na Comum aprendi a me inspirar em outras mulheres. Nas mulheres do dia a dia, naquelas que vivem como eu, se parecem comigo, não estão em outdoors, capas de revista ou na TV. Mulheres de carne e osso que têm tantas coisas maravilhosas para ensinar e tão poucos ouvidos aptos a receber.

S√≥ em uma comunidade de mulheres √© que voc√™ entende se consegue mesmo ter a tal sororidade. √Č ali que voc√™ precisa discordar com argumentos e sem agressividade. √Č ali que voc√™ nota que n√£o quer machucar aquela outra pessoa s√≥ porque voc√™s pensam diferente. S√≥ um ambiente t√£o acolhedor pode tirar de n√≥s o melhor que h√°. E quando aprendemos a ser generosas com as outras passamos a pensar se n√£o poder√≠amos ser mais generosas com n√≥s mesmas. E n√≥s podemos.

A construção de uma nova realidade passa pela criação de pontes e fortalecimento de laços. Parte da minha relação com isso foi construída na Comum. Mulheres podem ser amigas, podem se ajudar, podem crescer juntas. A gente só precisa de um ambiente que permita isso. A Comum é esse lugar para mim.

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