Huffpost Brazil
BLOG

Apresenta novidades e análises em tempo real da equipe de colaboradores do HuffPost Brasil

Carol Patrocinio Headshot

Somos todos vítimas: Uma resposta a agressão psicológica que assola Michel Temer

Publicado: Atualizado:
MICHEL TEMER
EVARISTO SA via Getty Images
Imprimir

Michel, tudo vai passar.

Antes de tudo, espero que você não se incomode por eu te chamar pelo primeiro nome. Sou mulher e, sabe como é, estou acostumada a usarem diminutivos ou adjetivos para se referirem a mim. Além disso, como sua antecessora era chamada pelo primeiro nome me sinto a vontade para tratá-lo da mesma forma.

Não é fácil estar em certos cargos. Não posso dizer que sei como é, nunca fui presidenta - confesso que adoraria ser -, mas sei como é estar em uma posição em que todos os dedos apontam você. Sou mulher, sabe como é.

A opinião pública pode destruir a gente, né? Mesmo que a gente tenha experiência, se sinta forte, saiba o que está fazendo e tenha a consciência limpa, a mídia pode acabar com nossa segurança e dormir se torna difícil. Dá até medo de acordar no dia seguinte e saber qual a novidade que eles colocaram na primeira página. Sou brasileira, sabe como é.

Você diz que está sofrendo agressões psicológicas e isso deixa meu coração em frangalhos. Imagina só, sou mulher, sabe como é!

Mas deixa eu explicar: fico assim porque minhas amigas transexuais e travestis sentem essa mesma agressão ao não terem direito ao nome social; minhas amigas lésbicas sentem essa agressão quando não são representadas no governo e é como se não existissem; minhas amigas negras em cargos altos são chamadas de tias do café; minhas amigas que foram vítimas de estupradores correm o risco de ter de levar uma gestação adiante e ainda correr o risco de contrair HIV porque políticos não entendem o peso disso tudo. Fico assim porque sou mulher e tem dias que por mais que eu seja genial e impecável na minha profissão só se fala da roupa que escolhi ou dos cremes anti-rugas que eu deveria passar.

Agressão psicológica não é fácil. Mas pensa assim: você tem casa, família, ganha bem e conseguiu chegar no cargo que queria. Apesar de todas as evidências contra - não queria falar de coisas chatas, mas você era inelegível, né? -, você tá aí, no topo do poder democrático. Você não deveria se deixar abater.

Sabe, sua antecessora, que te carregou nas costas como uma soldada incansável, sentiu o mesmo que você. Talvez pior porque, você sabe, é mulher. No mundo feminino as coisas são diferentes.

Olha, acabei de ter uma ideia: quer que eu marque um encontro seu com essas amigas que citei lá em cima? Acho que seria interessante entender como funciona essa coisa de agressão psicológica ao lado de pessoas que vivem isso todos os dias.

Outra ideia - eita cérebro fértil esse feminino! -: vocês podiam se encontrar na casa da sua vizinha, a Dilma. Acho que ela também tem uma experiência e tanto no assunto.

Michel, faz assim: me manda uma mensagem. Sou mulher, sabe como é, e meu instinto materno me obriga a cuidar de você, mesmo depois de todas as agressões psicológicas, institucionais e até físicas que você, seu governo e o golpe têm me feito passar. Vamos falar de agressão, vamos?

*Esse texto foi originalmente publicado em Medium é uma resposta a essa declaração: Temer diz que governo tem sido vítima de "agressões psicológicas"

LEIA MAIS:

- Comunidades de mulheres: Ambientes férteis para o crescimento conjunto

- O que está por trás do 'Tchau, querida' dos deputados pró-impeachment?

Também no HuffPost Brasil:

Close
Os ministros de Temer
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual