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Quando teu filho entende a emoção de torcer

Publicado: Atualizado:
PLO AQUATICO
Divulgação/SSPress/CBDA
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Eu devia ter uns 13, 14 anos. Minha irmã, 12. O clube estava chamando meninas pra integrar o pólo aquático feminino, como uma nova modalidade esportiva (só tinha para meninos). Isso faz uns 25 anos. Minha irmã foi lá ver o que era e eu fui atrás. Ela se matriculou e eu fui atrás. Me matriculei também. Os treinos eram pesados. A gente aquecia com natação e depois começavam os exercícios de perna, braço e chute. Pra quem não sabe, no pólo você não coloca os pés no fundo da piscina. A gente faz uma perna alternada pra se manter com o tronco fora d'água. Cansa. Mas era gostoso. Foi um tempo gostoso. Lembro dos fins de tarde na piscina do clube.

O tempo foi passando, os treinos intensificando, começaram a ter jogos e eu não levava muito jeito pra coisa. Rola quase que uma porrada debaixo da água. É um tal de puxar a adversária pro fundo, segurar maiô, arranhar, dar chute que não era muito comigo.

O técnico, na época, o Paulinho, resolveu me colocar de goleira; assim eu sofreria menos na água. Mas tinha uma menina no time chamada Alessandra, que hoje joga na Itália, que tinha um chute tão, mas tão forte, que quando ela chutava eu afundava na água e deixava a bola passar. Pólo aquático não era pra mim. Definitivamente. Mas era pra minha irmã, a Mariana, e pras outras meninas que estava ali. E lá seguiram elas. Nos treinos e na piscina.

Dois clubes jogavam ou tinham times. O Paineiras e o Paulistano. Elas começaram a competir e a treinar cada vez mais. Com o tempo e o empenho dos técnicos e das famílias envolvidas (porque precisava de muito incentivo e abertura no meio esportivo), as meninas conseguiram formar um time de seleção brasileira. Yes! Existia agora uma seleção brasileira de pólo aquático feminino. E elas treinavam ainda mais.

Pra conseguirem se classificar pra um Panamericano e depois pra um Mundial de Esportes Aquáticos, essas meninas entravam na piscina às 5h da manhã e saíam depois de três horas. Voltavam depois do almoço e no fim do dia. Todo dia. Faça chuva ou faça sol. Uma gana que eu nunca vi na vida. Não apenas com o objetivo de ganhar, mas com o objetivo de conseguir, de conquistar.

Conquistar espaço no esporte, conquistar espaço na seleção olímpica brasileira, conquistar espaço no feminino, conquistar um lugar pro Brasil nos mundiais.

Um dia assisti a um treino de que nunca me esqueço. Elas tinham que fazer várias piscinas com perna de pólo segurando um balde cheio de água em cima da cabeça. Tinham que treinar força. O corpo fora da água. Resistência. Elas são minhas super-heroínas até hoje. Serão sempre. Juro. Nunca vi tanta força na minha vida. Era muita garra. Um dia fui convidada a participar do programa Rock Gol, na MTV. Obviamente fui falar do pólo aquático. Defendia com unhas e dentes aquele esporte que ninguém conhecia.

Pouca gente ainda conhece. Conhece mais agora já que estamos na boca de uma Olimpíada no Brasil e que temos, pra orgulho nacional, a 2ª melhor jogadora de pólo aquático mundial. Yes! Ela se chama Izabella Chiappini. Filha da Raquel, ex-jogadora da seleção junto com minha irmã, e do também técnico da seleção Roberto Chiappini.

A Iza está aí em todas as capas de jornais e revistas pra quem quiser ver. Uma menina que cresceu na borda da piscina vendo a mãe treinar e o pai dar treino. Assim como ela, outras duas que integram essa 2ª geração de atletas de seleção brasileira também são filhas de ex-jogadoras de seleção. Se a gente sente emoção de vê-las? Putz! O coração sai na boca. Depois de 10 anos de uma primeira conquista de espaço, existe uma segunda leva de meninas que conquistaram ainda mais. Estão nas Olimpíadas.

Semana passada levei meus filhos pra assistir a um jogo amistoso entre Brasil e China. Brasil ganhou. 12 a 9. Jogaço. Defenderam bem, atacaram bem. Mostraram que são capazes. Que têm a mesma gana das meninas lá atrás. E cada gol que elas faziam a gente comemorava com um grito que saia lá do fundo da alma. Do coração. Porque a conquista é muito maior do que um simples jogo. Significa que elas conseguiram. Conseguiram abrir espaço pra um esporte no país do futebol.

A conquista tem anos e anos de piscina, de treinos, de campeonatos, de batalhas, de persistência, de abdicações, de família, de vontade. Tenho certeza que ontem os meninos, meus filhos, entenderam a emoção do que é torcer por um esporte. Pra mim, dos maiores ensinamentos que posso dar a eles. Torcer com o coração. Torcer com a alma.

*Este texto eu dedico, especialmente, a minha irmã Mariana Delboni, a Dani Raddi, a Mariângela Correa, a Raquel Chiappini e a Mariana Fleury que me aguentaram na cola delas em tantos campeonatos.

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