Huffpost Brazil
BLOG

Apresenta novidades e análises em tempo real da equipe de colaboradores do HuffPost Brasil

Cédric Marie Headshot

MMA: Vale mesmo tudo? Do excesso de força à desidratação radical

Publicado: Atualizado:
Imprimir
USA Today Sports / Reuters
USA Today Sports / Reuters

Há quem aceite com normalidade as mortes nos ringues de MMA, defendendo que a morte passa a ser uma possibilidade quando um jogador se entrega à modalidade. Será isto um exagero ou algo que os lutadores de MMA têm de se mentalizar quando começam as suas carreiras?

Se um lutador de MMA viola uma regra que de certa forma contribui diretamente ou resulta na morte de outro lutador, ele certamente será processado. Um exemplo relevante é o famoso caso de Resto contra Collins, em 1983. A mais triste e obscura luta da história do boxe que deu origem ao documentário, "Assault in The Ring". Quando Luis Resto lutou contra Billy Collins Jr., o treinador de Resto removeu algum do preenchimento das suas luvas, resultando em socos mais fortes. Collins sofreu consequentemente danos permanentes na visão, danos que terminaram com a sua carreira. Este morreu nove meses depois, em um acidente de carro. "Não importa o que digam, não foi acidente. Ele se matou", disse o seu pai na época. Resto e o seu treinador foram presos, julgados e condenados por agressão, conspiração e por posse de arma perigosa (os punhos de Resto).

Mesmo quando não há nenhuma violação de regras, se a violência envolvida parece ser excessiva para os observadores, o sistema de justiça pode decidir intervir - ou não. Podemos ver isto no caso de Max Baer. Em 1930, Baer foi preso e levado a julgamento por homicídio depois de ter matado Frankie Campbell no ringue. No entanto, o lutador foi absolvido de todas as acusações, pois não houve nenhuma violação de regras.

O caso de Baer é invulgar. Quando as regras são seguidas, os lutadores geralmente não são presos ou processados pelos ferimentos ou mortes que eles causam nos ringues. Casos notáveis incluem Ray "Boom Boom" Mancini, que matou Duk Koo Kim no ringue, e Emile Griffith, que matou Benny Paret durante uma luta. Em ambos os casos, nenhum lutador foi preso ou processado.

Um desfecho que ninguém esperava

Os casos referidos acima tiveram lugar nos anos 90. Desde então, muita coisa mudou. Mas será o mudou o suficiente? A mais recente morte de um lutador abalou o mundo das Artes Marciais Mistas. O lutador português João Carvalho não resistiu aos ferimentos causados no seu primeiro combate internacional, em Dublin, e acabou por falecer. Não tardaram em aparecer mensagens de apoio ao português, apontando a culpa ao árbitro que interveio tarde de mais. João, de 28 anos, foi alvo de sucessivos golpes na cabeça por parte de Charlie Ward, sentindo-se mal cerca de 20 minutos depois do final do combate, tendo sido transportado para o hospital e submetido a uma intervenção cirúrgica cerebral. Faleceu na noite de 11 de Abril, cerca de 48 horas após o incidente.

A equipa do lutador português, Team Nóbrega, publicou no Facebook a nota de falecimento deste, lamentando o sucedido e sublinhando que "foram cumpridas todas as regras de segurança, e a arbitragem seguiu todos os procedimentos corretos e habituais".

O impacto da morte de João Carvalho

Na consequência desta notícia, outra abalou a modalidade. O lutador irlandês McGregor recorreu à rede social Twitter para anunciar a sua decisão de abandonar os ringues da UFC de vez. Diz-se que a morte de João Carvalho poderá estar na base da decisão do irlandês. Noutros meios de comunicação, corre uma entrevista dada por um empresário ligado ao UFC onde este lançou a ideia de que tudo pode não passar de um "jogo" de Conor McGregor para conseguir um melhor contrato. Verdade ou não, vários foram os lutadores que comentaram esta saída repentina de McGregor, a maioria não levando a sério o campeão dos penas.

O Presidente do UFC Dana White diz que é possível prevenir estes casos se os lutadores tiverem extensos exames médicos de pré-luta, uma boa equipa médica no local, e bons cuidados médicos pós-luta. Mas há quem não concorde com as declarações do Presidente. Dada a natureza desta modalidade, dificilmente é possível evitar tragédias como a de João Carvalho.

McGregor defendeu que o árbitro deveria estar mais atento e o pai do adversário de João partilha da mesma opinião. Charlie Ward Sénior disse que o filho está devastado com a morte do português e este não queria matar ninguém. Em declarações à RTÉ Radio, Charlie Ward Sénior também defendeu que o árbitro podia ter sido mais rápido a interromper o combate. Por outro lado, Mariusz Domasat, o árbitro do combate fatal, garantiu que fez o que mandam as regras e terminou o combate na altura certa.

Na sequência da morte de João Carvalho, o ministro do Desporto irlandês comprometeu-se a regulamentar os combates de Artes Marciais Mistas no país.

O outro problema sério nas MMA

A loucura da pesagem. É surreal quando há lutadores que pesam 100 kg, caem para os 77 kg, e quando vão lutar estão com 89 kg. É urgente a atualização dos regulamentos de corte de peso e eliminar o processo de perda de peso por desidratação.

Os lutadores submetem-se a dietas e atividades rigorosas para atingirem o peso ideal e poderem se enquadrar numa determinada categoria, poucos dias antes de um combate. Quanto mais o dia da pesagem se aproxima, mais restrita fica a alimentação. Vários lutadores chegam a perder até 10 kg numa semana.

E não se trata apenas da alimentação. Eles desidratam o corpo na sauna sem ingerir nada e eliminam o máximo de água e sais do corpo, quanto for possível. No dia seguinte à pesagem, os lutadores praticamente recuperam todos os quilos perdidos de um dia para o outro. Os médicos sublinham os riscos, alertando que os lutadores precisam de ser bem acompanhados por fisiologistas e nutricionistas, caso contrário podem ter que encarar pesadas consequências.

O mais recente caso que trouxe este assunto novamente para as manchetes foi a morte do lutador de 21 anos Yan Jian Bing, que enfrentou problemas de desidratação antes de um combate. A organização asiática ONE FC agiu imediatamente e anunciou mudanças importantes no programa de pesagem. Desde o início desde ano, o evento proíbe que os seus atletas cortem peso, passando também a monitorar de forma constante a situação dos lutadores. A comissão atlética da Califórnia também já tomou medidas relativas a este problema. Depois de proibir a reidratação por sono intravenoso, o corte de peso tem os seus dias contados.

As duas grandes organizações de MMA, Bellator e UFC, precisam de seguir os mesmos passos e pôr um final ao corte de peso e à prática de desidratação radical.