Huffpost Brazil
BLOG

Apresenta novidades e análises em tempo real da equipe de colaboradores do HuffPost Brasil

Cenpec Headshot

O que as ocupações dizem sobre a escola (e o mundo) que os jovens querem

Publicado: Atualizado:
Imprimir

2016-05-23-1464015467-8593002-OcupaEscola.png

Ilustração: Edson Pelicer

Em uma sociedade na qual os alunos de escola pública costumam ser vistos como indisciplinados, apáticos ou despolitizados, as ocupações dos estudantes secundaristas demonstram exatamente o oposto.

Em 2015, estudantes paulistas lideraram um movimento de ocupação de escolas estaduais em protesto contra o que se chamou de reorganização das unidades da rede de ensino, que pretendia garantir que cada escola fosse responsável por apenas um nível de ensino. A ocupação das escolas ganhou extenso apoio da população, do Ministério Público e da Defensoria Pública, e a reformulação foi criticada por especialistas, que afirmavam não haver comprovações para seus supostos benefícios. Depois dos desgastes sofridos, sobretudo por fazer uso brutal de força policial contra os adolescentes, no início de dezembro o governador Geraldo Alckmin anunciou a suspensão, por um ano, do projeto de reorganização da rede estadual de ensino.

Não obstante, este ano o governador descumpriu a sua promessa, e a garantia do direito à educação vem sendo mais uma vez violado com uma reorganização não-oficial, que passa por cima dos jovens e do Ministério Público. Apesar de as escolas estaduais paulistas terem recebido 70 mil matrículas a mais do que em 2015, foram fechadas 2.800 salas em todo o estado. Os dados são de um levantamento da Rede Escola Pública e Universidade; a Secretaria da Educação contesta a informação. A Apeoesp afirma que a pesquisa corrobora o levantamento do sindicato, que a partir de denúncias dos professores estima o fechamento de 1.370 salas.

Em 2016, os planos do governo de conduzir uma reorganização silenciosa encontram novamente o protesto dos estudantes. E desta vez, os secundaristas mobilizaram-se também em torno das escolas técnicas estaduais (Etecs), trazendo à pauta a precarização dessas escolas e o desvio da verba destinada para a compra de merenda. A questão vai muito além. Ao questionar o desvio de verbas, os alunos estão se apropriando do debate sobre políticas públicas e recursos para a educação. A gestão democrática e a participação estudantil são sustentadas tanto pela LDB como pela Constituição.

Se num primeiro momento, os estudantes se mobilizaram para defender o espaço de convivência e seus vínculos afetivos na escola. Os jovens resistiram porque estavam ameaçando o espaço cotidiano deles de encontros, trocas, amizades e amor. A escola, mesmo com seus problemas e a falta de diálogo, é o universo do adolescente, um espaço imprescindível para as suas relações. Neste contexto, a separação por níveis de ensino vai muito além do problema de deslocar irmãos para escolas diferentes. Ela acabaria com uma interação multietária muito importante e querida pelos estudantes. "Imagina se nós vivêssemos em uma sociedade em que pessoas de 40 anos só convivem com pessoas de 40 anos e pessoas de 12 anos só convivem com pessoas de 12 anos. Não faz sentido. É com o diferente que a sociedade evolui.".

Com o tempo, os próprios estudantes viram como as suas reivindicações poderiam ser mais amplas. Ao promoverem aulas abertas com pessoas da comunidade e discussões com jovens de outras escolas, novas possibilidades se abriram: aulas mais interessantes, alunos com total acesso à biblioteca, grêmios estudantis livres, e não escolhidos pela diretoria, e sobretudo, mais participação nas decisões que afetam diretamente suas vidas. "Estamos aprendendo a ter voz nas escolas", disse uma estudante ao Cenpec.

Os jovens estão ampliando a noção das gerações mais velhas em relação aos objetos da política. A partir de uma visão e de uma prática políticas cotidianas. E desta vivência, surgem novas experiências e reflexões. O feminismo sendo um dos centros da discussão, uma vez que há liderança feminina nas ocupações. No início, os estudantes relatam que questões de gênero foram um problema. Mas com diálogo e a convivência, as jovens e os jovens vem enfrentando o tema. "No começo um menino disse que a gente tinha que limpar, que na casa dele era assim", conta uma aluna. "Hoje entrei na cozinha e ele tava lá, limpando com seu rodinho".

Assim, o tema das questões de gênero é não apenas debatido como se concretiza numa nova organização dos banheiros, como aconteceu em uma das escolas onde os jovens aboliram da separação dos banheiros feminino e masculino para dar conta de acolher os estudantes trans. "Se a gente confia um no outro, por que estipular gênero para um banheiro?", diz uma estudante.

É preciso entender que a ocupação das escolas tornou-se um dispositivo, uma invenção da juventude. Os alunos se apropriam das escolas a partir da necessidade de transformar e criar estratégias de luta, e de fazerem ouvir suas vozes, antes completamente desconsideradas na discussão sobre políticas públicas educacionais. Ao inaugurarem esta nova convivência na escola, vislumbram novas possibilidades educativas.

Nesse contexto, é fundamental enxergarmos a tarefa que os jovens nos colocam: reinventar a política e a escola, baseadas no diálogo e na potência da diversidade e do conflito. As ocupações trouxeram repertórios para se pensar o currículo escolar, em particular, para o ensino médio. Um currículo que crie espaço e valorize a convivência que se potencializa pela diversidade etária e cultural.

Um currículo que sustente vínculos com o território e pleno de atividades culturais. Uma escola onde os estudantes participam da gestão e se apropriam dos recursos (livros, equipamentos, espaços, merenda, bibloteca, etc). Enfim, uma escola onde há espaço/tempo para debater política.

*Por Lilian Kelian e Julio Neres, respectivamente dos núcleos de Juventude e de Educação Integral do Cenpec

LEIA MAIS:

- Quando o discurso da meritocracia ignora a desigualdade

- Esta professora ensina o que é poesia e esperança para internos da Fundação Casa

Também no HuffPost Brasil:

Close
SP: Protesto contra 'Máfia da Merenda'
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual