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Quando os 'piores alunos' viram o jogo

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Que professor ou aluno nunca ouviu falar da "pior turma" da escola? Esse era o caso do 2º ano B do Colégio Estadual Dom Veloso de Itumbiara, em Goiás. Estigmatizados de serem os alunos indesejáveis, "com problemas de disciplinas e desinteressados", 27 jovens foram agrupados em uma única turma, aquela que nenhum professor queria ensinar. Para resolver a questão, um sorteio foi feito na escola, e a professora Ayanda Lima foi designada para se responsabilizar por aqueles estudantes. "Ninguém queria ficar com esta sala, pois não acreditavam no rendimento deles, eram alunos com muita dificuldade", lembra a professora. Qual não foi a surpresa de todos quando aqueles 27 jovens "indesejáveis" venceram a 2ª edição do Prêmio Respostas para o Amanhã, em 2015.

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A existência do mito da "pior turma" não é exclusiva de escolas públicas. O caso dos jovens do Dom Veloso me fez lembrar que, certa vez, ouvi de uma experiente professora de uma escola renomada em São Paulo que os alunos do 9ª ano eram jovens apáticos e desinteressados. Fiquei surpresa com a afirmação, para não dizer indignada - um dos alunos que receberam este rótulo era meu filho! E a descrição da professora não combinava em nada com o menino agitado que eu conhecia, aquele que falava mil palavras por segundo, era louco por futebol e sabia a escala do seu time do coração de todos os campeonatos. Perguntei como podia afirmar que aqueles jovens entre 13 e 15 anos eram apáticos. Será que a falta de interesse dos alunos pela aula não seria a principal causa da apatia? Sem titubear, a professora me respondeu que de jeito nenhum, afinal, ela dava a mesma disciplina há 10 anos e todos sempre se envolveram.

Sorte maior tiveram os alunos da professora Ayanda, que não se acomodou quando recebeu o 2º ano B. Seria fácil para ela apenas responsabilizar os estudantes pelo desinteresse e dificuldades, afinal todos sabiam que aquela era "a pior sala". Mas Ayanda tinha algo que a diferenciava dos demais educadores da escola: não acreditava que aqueles jovens fossem, de fato, piores. "Pensei, o que posso fazer com eles para tirar o rótulo de piores alunos? O que fazer para atrair sua atenção e eles perceberem a importância do conhecimento adquirido em sala de aula?", conta a professora.

A solução encontrada por Ayanda foi convidá-los a participar de um prêmio, algo que os estimulassem e que trouxesse uma nova dinâmica para a sala de aula. O concurso escolhido foi o Prêmio Respostas para o Amanhã, que tem como objetivo engajar alunos e professores do Ensino Médio no desenvolvimento de projetos que articulem os conhecimentos curriculares com as questões cotidianas. Com foco nas áreas das Ciências da Natureza e da Matemática, o projeto deve envolver todos os alunos de uma classe, promovendo a participação democrática em todas as etapas de realização da proposta (leia mais sobre o prêmio e inscreva-se aqui até 29 de agosto).

Com a atividade, os alunos puderam sair da sala de aula e circular pela comunidade, para observar e identificar algo que pudessem melhorar com seu projeto. Juntos, os jovens escolheram o desafio de aprimorar a qualidade da água consumida pela população da zona rural de Itumbiara. Nas aulas de biologia, eles começaram a avaliar a eficácia da Moringa oleífera, planta originária da Índia, no tratamento da água na zona rural da cidade. "O projeto A Moringa uniu muito a turma e trouxe uma harmonia para a classe. Agora, por mais que duvidem de nós, temos a emoção de [saber] que somos capazes, todos nós, unidos", afirma uma das alunas.

Pessoas como a professora Ayanda tem feito a diferença na vida de muitos jovens, ela sabe que todos são capazes de aprender. É papel da escola proporcionar experiências significativas e ajudar todos os alunos a fazer a diferença para um mundo melhor. Então, da próxima vez que você ouvir que determinada turma é "a pior", não fique quieto. Questione o que pode ser feito para que todos, inclusive os professores, revelem o seu potencial.

*Ana Cecília, historiadora, coordenadora de projetos do Cenpec e responsável pelo Prêmio Respostas para o Amanhã

LEIA MAIS:

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