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Quem disse que no campo não tem educação de qualidade?

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Foto: Facebook

Ao pensar em escolas do campo, a imagem que vem à mente de muita gente é a de instalações no fim de uma estrada de terra, com pouca estrutura física e alunos com poucas perspectivas para o futuro. No caso do Colégio Estadual Waldemiro Pitta, situado em Monte Verde, distrito da zona rural de Cambuci (RJ), apenas a parte da estrada de terra é verdade.

A instituição, que conta com cerca de 270 alunos do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental e do Ensino Médio se destacou por ter o melhor desempenho no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) na rede pública do estado do Rio de Janeiro e o segundo melhor do país em 2011.

Em 2013, o colégio foi um dos vencedores do Prêmio Gestão Escolar, concedido pelo Conselho Nacional dos Secretários de Educação (Consed) a boas práticas de gestão.

Mas o que faz com que uma escola pública em uma região isolada e com poucos recursos obtenha resultados tão bons? No caso do CE Waldemiro Pitta, a resposta está na combinação do ânimo e perseverança da direção da escola com uma comunidade que se envolveu a fundo na educação de todos.

Neliany de Campos Manhaes Marinho, diretora da escola, é um exemplo vivo do apreço da população de Monte Verde (que não chega a dois mil habitantes, a maioria trabalha na lavoura) ao CE Waldemiro Pitta. Nascida na comunidade, Neliany estudou no colégio.

Depois de se formar, viu na educação uma forma de favorecer o desenvolvimento do município. "A região é muito carente. Não temos asfalto, uma agência bancária ou um hospital, por exemplo. Eu vi que por meio da educação poderíamos trazer novos horizontes e expectativas para a população", diz.

Depois de um ano dando aulas, Neliany assumiu a direção da escola entre 1985 e 1990. Em seguida, trabalhou como secretária escolar por 11 anos e voltou ao posto de gestora em 2011. "Passei a observar os pontos fracos da escola e pensar em como buscar ajuda", conta.

Um dos primeiros obstáculos enfrentados era a falta de condições para aprendizagem de algumas crianças das turmas da manhã. "Notei que muitos meninos e meninas tinham dor de cabeça e sentiam tontura. Em uma reunião com os pais, descobrimos que muitos alunos vinham para a escola sem tomar o café da manhã".

A solução encontrada foi montar na escola uma padaria. Depois de alguma insistência com a Secretaria Estadual de Educação, o colégio conseguiu os equipamentos necessários e voluntários passaram a fazer o pão com doações da comunidade. O projeto é um sucesso e existe até hoje.

Outro problema encarado pela escola foi a necessidade de ampliar o apoio e acompanhamento da aprendizagem. "Fizemos uma pesquisa e vimos que muitos pais de nossos alunos eram analfabetos. Então os filhos chegavam em casa e não podiam contar com ajuda para a lição de casa".

Mais uma vez, a diretora acionou a Secretaria Estadual de Educação para garantir condições pra que a escola oferecesse aulas de reforço escolar para todos os alunos no contraturno e, com isso, garantir que os estudos não ficassem restritos apenas ao horário regular de aula.

Mas Neliany não parou por aí. "Não dá pra pensar só na ponta de cá, na escola, e esquecer a ponta de lá, a família. É preciso que todos caminhem na mesma direção", conta. Assim, a escola implementou um programa de formação de jovens e adultos.

"Muitos pais se matricularam na escola, incentivados a retomar aos estudos. Alguns começaram desde o Ensino Fundamental, foram para o Ensino Médio e até mesmo para a faculdade."

Ao longo dos anos, a relação entre a comunidade e a escola se fortaleceu. A direção passou a enviar dezenas de projetos à secretaria, aproveitando toda a oportunidade de melhoria da infraestrutura e de obtenção de recursos. O resultado é uma escola aberta a todos, e de onde ninguém quer sair.

"Tenho que falar [ao aluno] 'tá na hora de ir embora', e eles falam 'deixa eu ficar só mais um bocadinho'", conta a diretora. "Montamos uma escola em que todos têm prazer de ficar. Compramos muitos jogos, fizemos uma sala de cinema onde os professores passam filmes brasileiros, temos uma biblioteca com muitos livros e recursos tecnológicos. E todos cuidam, porque sabem que foram conquistadas".

O sucesso da escola foi além da melhoria de seu espaço físico. Com uma proposta pedagógica contextualizada e atrelada ao monitoramento da aprendizagem do aluno, a direção trabalha em parceria com os professores para propiciar o aprendizado dos alunos.

"O diretor deve acreditar no sucesso da escola e contagiar com essa alegria os professores, que por sua vez acreditarão nos alunos", diz Neliany. "O gestor tem que ajudar não só com sua presença física na escola mas com a elaboração das estratégias para lidar com cada turma, de modo que o aluno não sinta em nenhum momento que é incapaz".

Na escola, os docentes são incentivados e apoiados a continuar os seus estudos, e alguns já acumulam até mesmo uma segunda graduação. "Eles motivam nossos alunos dando um bom exemplo, pois já foram eles sentados naqueles bancos", diz a diretora Outra tática da escola é atrair professores envolvidos e motivados, olhando para seus ex-alunos. Não só Neliany, mas também a diretora adjunta e os professores de geografia, ciências e português estudaram na instituição. "Quando o aluno se forma eu falo 'vai fazer faculdade, mas depois volta pra cá".

O Colégio Estadual Waldemiro Pitta tem boas taxas de aprovação. Entre 2011 e 2014, segundo o Censo Escolar, a reprovação e o abandono no Ensino Médio foi zero! Isso mesmo, nenhum estudante abandonou ou foi reprovado. O trabalho desenvolvido pelos profissionais que atuam na escola, que conta com o apoio da secretaria e mobiliza a comunidade, demonstra que a escola pública de qualidade para todos é possível, seja ela do campo ou da cidade.

*Texto escrito por Beatriz Cortese e Joyce Alcântara, pedagogas e do núcleo de gestão escolar do Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária)

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