Huffpost Brazil
BLOG

Apresenta novidades e análises em tempo real da equipe de colaboradores do HuffPost Brasil

C.J. Prince Headshot

Guardem sua solidariedade. Vocês são o problema

Publicado: Atualizado:
Imprimir

Após o massacre de Orlando, o vice-governador de Utah, Spencer Cox, participou de uma vigília para as vítimas e fez um discurso, que logo viralizou, nele ele pediu desculpas pelo seu comportamento homofóbico do passado e agradeceu a comunidade LGBTQ por ser paciente com ele na sua evolução. Depois disse em uma entrevista para Andrea Mitchell da MSNBC:

"Acho bem triste que um discurso feito pelo vice-governador de Utah ganhe tanta atenção apenas por dizer que nós deveríamos nos amar uns aos outros. Como é baixa a nossa expectativa neste país?"

Nisso nós todos podemos concordar. Mas será que Cox agora terá a coragem de falar contra seu próprio processo administrativo pela orientação de Obama que os estados permitam que pessoas transgênero usem o banheiro que mais combina com sua identidade de gênero? Será que ele explicará ao governador Herbert que a "lei do banheiro" na Carolina do Norte demoniza e discrimina contra transgêneros e os coloca em risco de violência vinda de cisgêneros e transfóbicos que queiram maltratá-los? Será que ele reconhece que as políticas discriminatórias que demonizam a comunidade LGBTQ são responsáveis pela atrocidade em Orlando que resultou na morte de 49 e feriu mais dezenas?

Pois, vejam bem. Nós já vimos muitas declarações e tuites de solidariedade dos legisladores que oferecem seus "pensamentos e orações" às famílias das vítimas. Mas a maioria ignora o fato que o disparo foi um crime de ódio contra a comunidade LGBTQ. Em vez disso, eles o usam como desculpa para mais xenofobia, mais violência, mais ódio.

O massacre em Orlando não foi um ataque do ISIS. Nem um atentado de "terroristas radicais Islâmicos" à forma de vida americana. Foi um crime de ódio que tem como principal alvo a comunidade latina e negra por um homem americano violento e mentalmente instável do Queens com uma história de abuso doméstico e porte de arma, uma que ele nunca deveria ter podido comprar.

"Nós não vimos nenhuma indicação que esse plano estava sendo guiado de fora dos Estados Unidos e não vemos nenhuma indicação que ele fosse parte de qualquer rede. Há confusão sobre seus motivos", disse o Diretor do FBI James Comey.

De fato, agora existe forte evidência que afirma que o atirador era, além de um desiquilibrado que batia na sua mulher, um gay no armário que descontou uma vida toda de desprezo por si mesmo em uma boate cheia de inocentes.

A questão que precisamos esclarecer é quando os políticos falham em apoiar a igualdade e em vez disso passam leis discriminatórias ou quando eles se negam a falar contra a discriminação, pois eles estão contribuindo para um ambiente em que as pessoas LGBTQ são temidas, desprezadas, odiadas e, finalmente, alvos. E então, quando tragicamente colhemos o que plantamos, eles oferecem seus pensamentos vazios e orações como muitas lágrimas de crocodilo.
É hora de dizermos: basta.

Você não pode, como o republicano Trent Franks fez, chamar a igualdade de casamento uma ameaça à sobrevivência da nação e daí tuitar oferecendo bons "pensamentos e orações para as vítimas, suas famílias e socorristas no ataque de ‪#Orlando".‬‬‬

Você não pode, como o senador Ted Cruz fez, chamar os líderes dos direitos LGBTQ "jihadistas" que buscam destruir a vida cristã e daí tuitar: "Nossos corações estão com aqueles que morreram e foram feridos ontem à noite. Nossas orações estão com suas famílias, e com todos os que estão sofrendo por seus seres queridos".

Você não pode, como o senador Rand Paul fez, comparar o casamento entre pessoas do mesmo sexo à bestialidade e daí tuitar que seus "pensamentos e orações estão com as vítimas e suas famílias".

Você não pode, como o governador Mike Huckabee fez, negar a existência do racismo neste país e chamar os propositores da igualdade no casamento de nazis e daí pedir às pessoas para que se unam "em oração pelas vítimas do ataque de Orlando e suas famílias".

Você não pode, como o congressista Steve Russell fez, apoiar pessoalmente a lei que permite aos contratantes federais a discriminação contra pessoas LGBTQ e daí tuitar isso: "Não há simplesmente uma explicação civilizada para esse ato de terror horroroso em Orlando, na Flórida."

Você não pode, como Michelle Bachmann fez, publicar uma foto da linha do horizonte de Orlando com a hashtag "#PrayForOrlando" (#OrePorOrlando) depois de ter chamado os cristãos a engajarem em uma "guerra espiritual" e combater casamentos do mesmo sexo e comparar as pessoas LGBTQ com Satanás.

Você não pode, como o Governador Phil Bryant do Mississippi fez, assinar uma lei que permite as empresas negar serviço às pessoas LGBTQ e daí pedir a todo mundo para se unir a você em "oração pela paz divina e o consolo dos afetados pelo horrível ato de terror em Orlando.

Você não pode, como o Governador Pat McCrory da Carolina do Norte fez, assinar pela "lei do banheiro" criminalizando indivíduos transgênero que usam banheiros que correspondem com sua identidade de gênero, e daí tuitar o seguinte: "O tiroteio de Orlando foi uma tragédia & nunca deveria ter acontecido no nosso país. Aqueles que morreram foram vítimas inocentes de um ato injustificável".

Você não pode, como o Governador de Utah, Gary Herbert, fez, apoiar a discriminatória "lei do banheiro" ao processar o direito de discriminar contra pessoas transgênero e daí fazer uma declaração dizendo que "nossos corações estão em pedaços" e que "todos nos unimos para apoiar nossos irmãos e irmãs em Orlando".

Não mais corações em pedaços. Nem orações pela paz e consolo. Não mais pseudo solidariedade.
Se você não defende a igualdade total para as pessoas LGBTQ, você é o problema.

"Mas espera aí", você diz, "Eu nunca defendi o assassinato ou a violência. Eu nunca, jamais, apoiarei isso".

Queridos políticos chorões, já passou da hora que vocês coloquem os pingos nos 'is'. Vocês não podem, em um momento, marginalizar, demonizar e excluir como "outro" um grupo específico e daí, no momento seguinte, lamentar o fato que esse grupo seja alvo de um crime de ódio. Se você defende a desigualdade-- seja pelas suas crenças religiosas, culturais ou aspirações políticas, etc.--você está ajudando a criar uma cultura que faz com que as pessoas LGBTQ sejam um alvo fácil para um lunático homofóbico com uma arma, independentemente da homofobia ser internalizada ou exteriorizada.

Ao falhar em falar contra a discriminação e o ódio, você fez do mundo um lugar menos seguro para pessoas LGBTQ, alimentando seu próprio desprezo e incitando a fúria de homofóbicos nos outros. Você é o motivo que os crimes de ódio contra pessoas LGBTQ terem aumentado em 2015, e particularmente contra pessoas de cor, transgênero e aqueles que não se identificam com um gênero. Você é a razão que adolescentes LGBTQ são alvos diários de assédio, bullying e violência nas escolas. E você é a razão que eles frequentemente escolhem o suicídio no lugar da dor de viver como alvo humano.

Vocês. São. O. Problema.

Se vocês realmente querem se levantar e se solidarizar com as vítimas, suas famílias e nossa comunidade como um todo, pare de vilificar nossa comunidade parem de nos chamar pedófilos e predadores. Pare de dizer às pessoas que odeiem o pecado. Parem de avisar os heterossexuais que estamos querendo destruir seus casamentos, suas famílias e estilo de vida americano.

Se vocês querem fazer algo pela comunidade LGBTQ negra que foi massacrada em Orlando, primeiro tente tuitar estas palavras: "Este foi um crime de ódio contra negros LGBTQ".

Daí comecem a votar por direitos iguais para pessoas LGBTQ.

Peçam aos seus seguidores que respeitem todas as pessoas da mesma forma, independentemente de sua orientação sexual ou identidade de gênero.

Ativamente e vocalmente desencorajem o bullying contra LGBTQ, o assédio e a violência.
Afirmem sem equívoco que #BlackLivesMatter (#AVidadosNegrosImporta).

Se vocês realmente querem ter certeza que isso não aconteça novamente, vocês devem finalmente reconhecer a ligação entre o ambiente cultural que demoniza as pessoas LGBTQ e os ataques contra aqueles que os perseguem inevitavelmente.

Se você não for capaz de fazer isso, por favor, tenha respeito pelos que estão caídos e não diga nada.

Tradução: Simone Palma