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Queria ter sido o menino que desafiou os manifestantes homofóbicos no México

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MANUEL RODRIGUEZ
MANUEL RODRIGUEZ
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Meu tio Xavier adorava cheesecake. O aniversário dele era uma semana depois do meu, e nas comemorações conjuntas no domingo sempre comíamos cheesecake. Minha avó preferia bolo tradicional, e foi graças a esse nosso amor por cheesecake que desenvolvi essa bonita relação de cumplicidade com meu tio.

A maioria das lembranças que tenho dele é de uma mesma imagem. Xavier, sentado à mesa na nossa sala de jantar, contando alguma história meio verdade meio fantasia e elogiando as maravilhas culinárias que saíam da cozinha da minha mãe.

Xavier sempre foi a primeira a dizer: "Raquel, este ensopado está fantástico", mesmo que não fosse verdade. Ele também sempre achava o momento certo para dizer "Cláudia, você está tão linda hoje", ou então para me dar uma rosa. Se achava que minha roupa não estava combinando, ele não deixava de falar.

  Meu tio Xavier nunca teve seu casamento. Ele nem sequer podia sonhar com isso. Meu tio Xavier era gay.

Meu tio Xavier me deu maquiagem de presente de formatura. Não só ele contratou um maquiador como me deu meu primeiro pincel.

Ele escolheu as músicas do meu casamento. Esforçou-se para conseguir partituras perdidas de clássicos cubanos e fez arranjos para uma música em hebraico.

Mas meu tio Xavier nunca teve seu casamento. Ele nem sequer podia sonhar com isso. Meu tio Xavier era gay.

Se ele pudesse ter se casado, sem dúvida o bolo seria um cheesecake estilo nova-iorquino, e a lista de convidados teria incluído as maiores celebridades mexicanas. A trilha sonora teria clássicos mexicanos e algumas músicas dançantes para abrir a pista de dança.

Mas, em vez do bolo e do casamento, ele passou seus últimos anos lutando contra a discriminação que ele sofreu no nosso país.

Meu tio não era apenas gay. Ele também estava doente. No Natal de 2012, ele caiu na rua e passou a noite numa maca num corredor de um hospital público, com a bacia fraturada. Ninguém queria ajudá-lo. Ninguém queria encostar neles. Meses se passaram até que ele fosse operado. Ele enfrentou discriminação constante até mesmo dos médicos.

Meu tio e eu nos aproximamos quando descobrimos que o que nos unia não era só a paixão por cheesecake, mas também os mesmos valores e preocupações. O casamento gay foi uma das primeiras questões que levantei em meu contato com a política nacional, e Xavier foi um dos meus maiores apoiadores.

Quando entrei para o mundo do ativismo político, descobri um novo lado do meu tio. Ele levava uma vida dupla: era um homem politicamente ativo e reconhecido em sua comunidade.

Sua presença em minha vida abriu meus olhos para a discriminação que existe no México e para as injustiças que impedem que muitas pessoas expressem seu amor publicamente.

Observando sua militância, pude entender as consequências de ser forçado a achar que você está tomando decisões erradas.

A foto do menino que parou um protesto anti-LGBT no sábado, porque ele tem um tio gay e não quer que as pessoas o odeiem, resume meus sentimentos em relação à manifestação.

Menino enfrenta a multidão que protesta contra o casamento de pessoas do mesmo sexo

Gostaria de ter estado junto com ele, dizendo: "Também não quero que as pessoas odeiem meu tio".

Negar que esse tipo de protesto leva a mais ódio e discriminação seria ilusão.

Dizer: "Tenho amigos gays e os amo, mas vou à marcha mesmo assim" significa que você nunca ouviu esses amigos e nunca marchou com eles.

Significa que você não entende que negar a algumas pessoas o direito de participar de algumas das instituições mais básicas da nossa sociedade é negar a condição humana dessas pessoas.

Meu tio Xavier e eu tínhamos em comum o amor por cheesecake e, diga-se de passagem, por homens.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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