Huffpost Brazil
BLOG

Apresenta novidades e análises em tempo real da equipe de colaboradores do HuffPost Brasil

Coletivo Efigenias Headshot

Uma demissão e o racismo corporativo à brasileira

Publicado: Atualizado:
BRAIDING
Hemera Technologies via Getty Images
Imprimir

"Eu não aguento, vou falar: Tira isso!"

Eu ouvi atônita. Em mais de 15 anos de carreira profissional, juro que demorei alguns segundo para entender o que ela havia dito.

"Tira isso!"

Ela repetiu com olhar de desprezo diante de toda a equipe que ficou muda.

"Tira isso"

Mandou e saiu andando falando ao celular como se dar ordens e constranger as pessoas publicamente fosse algo corriqueiro em sua vida.

Assim começa o relato de Luanna Teofillo, desenvolvedora de negócios, microempresária e uma das fundadoras do Coletivo Efigenias que, após sofrer racismo e discriminação na empresa onde trabalhava, foi despedida de forma anti-ética e desumana. Ela conta sua história:

"O ambiente na empresa apesar de agradável pela relação com os colegas, sempre se mostrou bastante preconceituoso e conivente com declarações racistas. Já nos primeiros dias eu ouvi do meu gerente direto que "para alguns eu era apenas uma negrita e teria que me provar para as outras pessoas.

Continuei trabalhando e no pouco contato que tive com a presidenta da empresa e pelo o que me contavam sobre ela, era um pessoa rude que destratava as pessoas. Eu mesma presenciei alguns comentários classistas inadequados feitos por ela.

Quando eu trancei meu cabelo, desde o primeiro minuto fui colocada em uma situação de stress pelo gerente que dizia que a presidenta da empresa não iria gostar e que diria algo porque, segundo ele, ela era uma pessoa muito preconceituosa. Desde o começo deixei claro que não toleraria nenhum tipo de preconceito, mas parecia que já estava previsto que ela se comportaria de maneira anti-profissional."

Segundo fontes que preferem permanecer anônimas, a empresa com sede nos Estados Unidos já tem histórico de discriminação no escritório brasileiro contra seus empregados e que inclusive a presidenta já foi reportada para a sede americana sem nada acontecer.

Mas como é possível que em uma empresa internacional em uma megalópole como São Paulo, uma das cidades mais diversas do mundo, uma pessoa se sinta livre para vir diretamente na frente de um grupo de funcionários e discriminar a aparência de alguém? Como ela tinha certeza poderia falar sem medo nenhum de ser punida ou rechaçada?

O que acontece depois que conseguimos os empregos

Todos sabemos que o Brasil é uma pais desigual e que essa desigualdade se reflete dentro das empresas onde há poucos profissionais pretos ocupando posições de gerência e diretoria. Nos níveis mais qualificados há pouca diversidade de etnias e culturas, o que garante um ambiente homogêneo e propício a preconceitos. Se a maioria das pessoas em uma empresa são magras e há uma cultura de valorização, mesmo que velada, à magreza, é um ambiente onde o indivíduo se sente confortável para contar uma piada sobre gordos sem ser punido ou chamar alguém de gorda, ele se sente protegido dentro deste sistema que discrimina o diferente.

No Brasil, no nosso já conhecido racismo brasileiro, existe uma cultura que favorece esses comportamentos ofensivos quando se pode falar o que bem se desejar no ambiente profissional, baixo a olhares dissimulados de gerentes, diretores e até presidentes que tratam o comportamento como natural, algo aceito e até esperado dos funcionários.

Como pode ser aceitável chamar um colega de "japa" (e logo depois de fazer uma piada de mal gosto bem estereotipada sobre japoneses), tratar mulheres de vagabundas (porque mulher tem que se dar o respeito) e dizer em alto em bom som que amanhã é dia de branco e que não é as negas de ninguém (seguido obviamente de um sorriso para a única preta do local)? Tudo bem humilhar ou diminuir alguém no trabalho?

Nas grandes corporações onde o ambiente deveria ser "neutro" e a diversidade é um valor almejado, o clima muita vezes se assemelha a locais de socialização como bares onde vamos com nossos amigos e conversamos sobre um pouco de tudo. É interessante que o clima seja descontraído, que as pessoas se conectem, mas tem de haver um limite profissional. Preconceito, racismo, xenofobia, intolerância, machismo não pertecem ao mundo muito menos ao escritório. Ou você acha mesmo que seu colega acha de boa ser chamado de negão oito horas por dia, cinco dias por semana, onze meses ao ano?

A experiência de Luanna Teofillo é a experiência que muitos profissionais pretos passam todos os dias. Ela recorreu ao RH da empresa por achar que seria acolhida em sua queixa, mas infelizmente nem todos os profissionais conseguem ter empatia e agir de forma humana, são apenas engenhos de uma grande máquina empresarial:

"Quando eu fui procurar o RH da empresa, esperava ter aquele conflito mediado e que a agressora se desculpasse para mim que fui vítima, meus colegas que são trabalhadores e não merecem passar por situações constrangedoras no trabalho e claro, que o caso fosse reportado para a matriz, pois se tratava de agressão cometida dentro da empresa. Mas infelizmente, o que poderia ser resolvido internamente chega agora à midia e a Justiça, pois além de não ter havido nenhum pedido de desculpas ou mesmo um sinto muito (como pregam as cartillhas de comunicação corporativa sobre resolução de conflitos), ainda tive que ouvir da presidenta que eu era racista, que ela era casada com um "decendende de negros" ("se eu fosse racista não tinha me casado com quem casei") e ainda vê-la se apropriando do poder-ser racista ("se eu fosse racista você não passaria da porta"). Detalhe, a empresa tem menos de 10% de pretos. Sera que alguma vez ela quis? Senão quis, sinalizou que vai querer no futuro, pois também afirmou que a partir de agora as pessoas seriam investigadas antes de serem admitidas na empresa "para não criarem problemas". O que você acha que significa investigar neste contexto?"

Há pouco tempo o Coletivo Efigenias, grupo de profissionais e artistas pretos com uma agenda anti-racismo, começou a acompanhar o caso de A.C, jovem formada em Marketing que foi contratada para trabalhar em uma grande rede varejista de joalherias, com mais de 160 lojas nas principais cidades do País. Empresa essa que em todos estes anos de mercado brasileiro teve menos de 10% de mulheres pretas representando seus produtos. Depois de passar por um processo seletivos rigoroso e ser contratada para uma loja em um shopping no ABC Paulista, em seu primeiro dia de trabalho foi enviada de volta para casa. Motivo? A gerente da loja disse que para trabalhar ali ela teria que retirar suas tranças.

Todas essas histórias nos fazem perceber o quão cruel e como se manifesta o racismo brasileiro o que motivou Luanna a criar a página e a hashtag #tiraisso (www.facebook.com/tiraisso). São muitos os relatos de racismo, discriminação e opressão no trabalho. "Sempre somos alvo de comentário e depreciação, isso quando não temos nossas características físicas e culturais negadas ou embranquecidas. Para que então serve a diversidade senão para que as pessoas possam se expressar culturalmente e enriquecer o ambiente profissional?" desabafa Luanna que está sendo apoiada por seus familiares, amigos, colegas de trabalho e muitas pessoas que se revoltaram contra essa grande injustiça.

Esta história ainda vai continuar por algum tempo pois Luanna Teofillo não se calou e denunciou a empresa. "É importante que o Estado dê seu parecer e reitere o compromisso do pais com a diversidade cultural, e que comportamentos que diminuam e discriminem as pessoas por conta de sua etnia e cultura não sejam mais aceitos em nossa sociedade."

Mas algumas perguntas seguem sem resposta:

Como é possível uma empresa de comunicação corporativa errar em todos os aspecto de sua própria comunicação interna? Será que acharam que demitir uma jovem profissional preta, com alta graduação, na frente de mais de 50 funcionários não iria dar em nada? Que sistema é esse protege um profissional de cometer uma agressão deste tipo?

Ou será que a empresa subestimou o poder de influencia de Luanna Teofillo que é uma influenciadora e comunicadora da causa preta? Ou desconsiderou todos os movimentos pretos que lutam juntos contra situações como esta? Será que pensam que a comunidade preta e seus simpatizantes de toda sorte aceitarão que um mulher preta seja escoltada para fora de seu local de trabalho e não dirão nada? Será que não entendeu que os tempos são outros e que racistas não passarão? Tudo isso só o tempo dirá. Mas certamente, nada mais será como antes. Racistas não passarão.

PS.: Cinco dias passados da demissão de Luanna, tentamos contato com a empresa que aparentemente ainda não tem uma plano de comunicação para lidar com a situação, assim como não teve capacidade de gerenciar uma crise que poderia ser resolvida internamente com boas práticas e decisões executivas assertivas para o bem da empresa e principalmente da trabalhadora. Será que em casa de ferreiro espeto é mesmo de pau?

LEIA MAIS:

- Comentário de Silvio Santos no Teleton gera críticas sobre racismo e gordofobia

- Beyoncé e Dixie Chicks estremecem o Texas em performance de 'Daddy Lessons'

Também no HuffPost Brasil:

Close
8 negros icônicos e a influência de Muhammad Ali
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual