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A lição de Spinoza para nossos acadêmicos em tempos delicados

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SPINOZA
Culture Club via Getty Images
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Baruch de Spinoza foi um dos filósofos mais notáveis da modernidade. Nascido em uma família judaica de Amsterdã, foi excomungado de sua comunidade ainda jovem por defender ideias consideradas radicais. Passou o resto da vida em uma forma de "exílio" voluntário, trabalhando como polidor de lentes durante o dia e dedicando-se à filosofia de noite. As obras que publicou em vida causaram um grande alvoroço e foram extremamente criticadas por seu teor "herético": seu Tratado Teológico-Político foi chamado de "livro forjado no inferno".

Apesar disso, Spinoza atraiu atenção. O poderoso rei da França Luís XIV ofereceu-lhe uma pensão extremamente generosa em troca de uma dedicatória em um livro, porém o filósofo recusou a oferta. Igualmente, foi-lhe oferecido um emprego na prestigiosa Universidade de Heidelberg, mas o convite foi declinado. Spinoza teria que abrir mão de sua independência de pensamento para lecionar sem ofender aos costumes e religião oficiais, e isso lhe soava como uma traição a si mesmo. Acabou morrendo jovem, com menos de cinquenta anos, vítima de tuberculose. Sua obra mais importante, Ética, foi publicada postumamente e levou pelo menos cem anos para ser compreendida [1].

Spinoza foi alguém que sem nunca ter ocupado um cargo prestigioso e sem ter se envolvido com as artimanhas políticas de seu tempo marcou para sempre o pensamento moderno. Dentre outros, influenciou Hegel, Nietzsche, e Bergson. Foi um dos pioneiros na defesa de um governo democrático. Suas visões sobre Deus e Natureza são influentes até hoje. Pessoalmente, nutro bastante simpatia pelas ideias de Spinoza, mas gostaria de tentar extrair uma lição de sua biografia para nossos acadêmicos, ainda mais em tempos complicados como os nossos.

A lição consiste em sua peculiar integridade intelectual. Não estou afirmando que nossos acadêmicos não são íntegros, longe disso. A maioria dos que conheço possui fibra moral acima da média. O que quero chamar atenção é para a forma como Spinoza levou a sério sua investigação filosófica. Ele não comprometeu sua pesquisa em prol de alguma pauta política ou possibilidade de ascensão pessoal. Este é o aspecto no qual acredito que muitos de nossos acadêmicos tem se atrapalhado. Por possuírem simultaneamente (e muitas vezes de forma sincera) agendas políticas e intelectuais, acabam misturando as questões.

É evidente que ser acadêmico não é ser apolítico. Como todo cidadão, o acadêmico deve se engajar nos assuntos que estão na ordem do dia e defender aquilo que acredita ser correto. No entanto, ele não deve confundir seu exercício enquanto cidadão com a sua busca intelectual. Isso também não significa que o acadêmico não possa pesquisar aquilo que considera uma pauta política relevante, mas sim que ele deve saber reconhecer quando uma descoberta acadêmica, seja ela qual seja, confronta suas posições políticas. Costuma ser em pontos assim que as coisas se complicam para muitos, porque pode surgir um dilema: ou o acadêmico trai sua "busca pela verdade" em nome de sua integração em uma pauta política, ou ele confronta seus companheiros de causa em nome do conhecimento.

A biografia de Spinoza se aproxima de uma escolha pela segunda opção no dilema. Não haveria, em princípio, um problema em escolher a primeira opção, porém isso demanda que o acadêmico reconheça que não está mais atuando enquanto tal, mas sim como um agente político. Ele precisa arcar com os ônus e bônus do debate político e não pode mais se valer das prerrogativas acadêmicas. Não se valer das prerrogativas acadêmicas aqui significa, dentre outras coisas, não dar as famosas "carteiradas", mas principalmente ser honesto com a audiência a que se dirige.

Existe um dano concreto quando os acadêmicos se recusam a tomar posição no dilema acima exposto. Um desses danos em minha visão é a ideia da universidade militante. Novamente preciso me fazer claro. Um dos papeis da universidade é se engajar criticamente com a sociedade ao colocar em xeque crenças e lugares comuns e desafiar tradições. No entanto, isso não deve ser a mesma coisa que militância política no sentido partidário do termo, partidário aqui entendido como compromissada com partidos políticos, movimentos desta ou daquela disposição ou instituições como federações ou igrejas.

Quanto mais compromissada com política partidária (no sentido acima) for a universidade, menor será seu potencial crítico. Isso é ilustrativo na figura do professor que aceita um cargo relevante em determinado governo. A partir desse ponto, ele dificilmente poderá criticar o partido no poder com a mesma liberdade de antes. É claro que ele pode aceitar o cargo e fazer um excelente trabalho, mas deve reconhecer e fazer reconhecidas suas limitações (ao menos temporárias) enquanto acadêmico. O mesmo vale para o acadêmico que é um religioso engajado ou liderança sindical.

Outro dano decorrente da recusa em se posicionar no dilema é a própria perda de relevância do acadêmico. A grande contribuição que ele poderia fazer, enquanto tal, é nadar contra a corrente, é ser um incômodo. Não ser instrumentalizado pelo mundo que o cerca. Ao não separar a atuação intelectual da atuação política, o acadêmico corre o risco constante de ser domesticado pelo político. Essa domesticação muitas vezes ocorre "no interior" da mesma pessoa, como na situação tragicômica do professor progressista que não dá cursos sobre autores conservadores com medo de ser taxado como tal por aqueles que ele gostaria de militar junto.

Em uma sociedade cada vez mais complexa e plural (e infelizmente conflituosa) o acadêmico e a universidade devem estar munidos de todo o seu potencial crítico. Devem ser capazes de propor planos e alternativas. Isso demanda uma liberdade intelectual dificilmente conciliável com os compromissos assumidos na política partidária. Trata-se de uma liberdade que, para utilizar livremente uma expressão cara à filosofia de Spinoza, "reside no entendimento".

[1] Informações retiradas do primeiro capítulo de SCRUTON, Roger. Espinosa. São Paulo: Ed. Loyola, 2005.
*Na elaboração deste texto me beneficiei das discussões com os colegas Henrique Castro e Marco Alberto.

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