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2 lições que aprendemos sobre o Brasil com as eleições municipais

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JOO DORIA
NurPhoto via Getty Images
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Independentemente das opiniões políticas ou ideológicas, todos concordavam que as eleições municipais seriam um balanço da ebulição que o País vive desde 2014 (e possivelmente 2013). O famigerado 02 de outubro passou e nos deixou um mar de dados, informações e resultados para interpretar. Alguns já eram esperados: o PT teve seu pior desempenho em vinte anos, perdendo mais da metade de suas prefeituras em relação a 2012 (o partido possuía 630, e agora conta com apenas 256 prefeitos eleitos).

Houve várias surpresas, no entanto, das quais duas me interessam. Em primeiro lugar a surpreendente eleição de João Dória Jr (PSDB) em São Paulo. O tucano iniciou a corrida com aproximadamente 5% de intenções de voto e um partido rachado internamente, mas terminou vencendo no primeiro turno, com 53% dos votos válidos e sem o apoio de praticamente um terço dos diretórios municipais de seu partido.

Em segundo lugar, o número elevadíssimo de votos nulos ou em branco e de abstenções. Na capital paulista, a combinação dessas situações ultrapassava o número de votos de Dória, 3,086 milhões votaram no tucano, enquanto 3,096 milhões não escolheram um candidato. Essa tendência foi detectada também em outras capitais, como Belo Horizonte e Rio de Janeiro. O que interpretar desses dados?

É sensato iniciarmos com o que não podemos extrair diretamente. Votos em branco ou nulos podem, mas não necessariamente indicam uma forma de protesto, enquanto abstenções podem ser justificadas por razões várias que não a indignação com a política. Muitos viajam ou trabalham no dia, já que os custos da abstenção são muito baixos (quem não justifica a abstenção paga uma multa de valor irrisório) e eleitores falecidos podem não ter sido ainda excluídos do cadastro.

Feita essa ressalva, vamos supor que desse total de brancos, nulos e abstenções, pelo menos metade sejam efetivamente manifestações de protesto, ou seja, um milhão e meio de cidadãos, um número mais de 30% maior do que o total de votos do segundo colocado (Haddad, com 967.190 votos). Em todo caso, sejam essas manifestações realmente uma forma de protesto ou meramente indiferença em relação à política, são uma força a ser explicada.

Em outras palavras, duas tendências entre os eleitores se destacaram, ao menos em São Paulo (apesar de semelhanças serem observadas em outras cidades). De um lado, o eleitorado do "gestor não político", de outro, o voto de protesto ou ausente. O que cada um desses eleitorados buscou expressar nas urnas?

Arrisco algumas interpretações, algumas delas já foram amplamente discutidas. João Dória realizou uma campanha extremamente bem sucedida e aproveitou bem seu tempo de televisão. Apesar de ser apadrinhado por Geraldo Alckmin, o empresário conseguiu vender uma imagem de agente autônomo, sem "rabo preso" com a "velha política". Seu apelo, nesse sentido, é o mesmo de Donald Trump: o homem de negócios bem sucedido que decide mudar o jogo da arena pública com um "choque de gestão".

Em um contexto de profunda descrença em relação à política, a figura do gestor encanta o eleitorado. Ele promete eficiência na prestação de serviços públicos e reduções de impostos e taxas. O gestor é atento a um desejo implícito da sociedade de consumo, a saber, a metamorfose do "cidadão" em "cliente" e da política representativa em satisfação de interesses materiais. Enquanto, de certa forma (e com várias ressalvas), Haddad e Erundina prometiam uma cidade mais participativa e integrada, Dória prometeu uma cidade mais eficiente na prestação de serviços. Ele conseguiu captar o espírito do tempo, o ideal do homem trabalhador que gradativamente vai adquirindo propriedades. Ao fazê-lo, ganhou a eleição.

Muitos apoiadores dos partidos de esquerda (ou que se dizem de esquerda) foram rápidos em criticar o resultado das eleições na capital paulista, atribuindo ao eleitor uma visão preconceituosa ou ignorante. Em minha leitura essa postura é um erro. É necessário compreender quais os anseios do eleitorado, e não apenas acusá-lo de não atingir certos patamares de "decisão racional". A esquerda brasileira vem falhando sistematicamente nisso, fomentando uma pregação aos convertidos. O slogan de Erundina é ilustrativo. "Sonhos podem governar" é totalmente sem sentido para quem não está engajado na política de esquerda, além de soar perigosamente quixotesco.

Haddad não está isento dessa fraqueza. Sua administração foi elogiada internacionalmente. Foi pioneiro em diversas políticas públicas. Apesar disso, sua gestão não conseguiu se comunicar com o cidadão paulistano. Houve um estranhamento entre população e prefeitura, de modo que para muitos o prefeito soou autoritário ou descolado da realidade. Em uma cidade já notoriamente antipetista, isso significou o fim de seu período no Viaduto do Chá.

Em um cenário de Lava-jato e crise econômica, esse fechamento voluntário da esquerda em si mesma significou uma perda de relevância política. Com exceção de alguns poucos vereadores eleitos por partidos como o PSOL e um ou outro prefeito, no geral a esquerda foi alijada da política municipal. Ganharam os "gestores" e sua política de negação da política.

De outro lado, temos a força política dos votos em branco, nulos ou ausentes. Sejam votos de protesto, sejam reflexos da indiferença política, eles traduzem um sentimento muito forte de falta de representatividade. Apesar dos mais de trinta partidos políticos, o cidadão não se vê adequadamente representado na esfera pública institucional.

Entre quixotismo tacanho de certos setores da esquerda, moralismo fajuto de partidos pretensamente conservadores e retórica vazia de candidatos midiáticos, muitos eleitores se veem sem opções, consequentemente vendo pouca razão para participar da "festa da democracia" dominical. O protesto e a indiferença convergem na mensagem: "nós não acreditamos nisso que está aí".

Algumas das propostas de renovação da política se mostraram frustrantes. Para aqueles que, como eu, possuíam desejo por uma nova política progressista, a Rede Sustentabilidade de Marina Silva acabou se mostrando mais do mesmo, inclusive se aliando ao PMDB em Porto Alegre. Ao cabo, a Rede vai caminhando em direção ao fisiologismo do "centrão político". Algo parecido ocorreu com o MBL, que se dizia não interessado em apoiar candidaturas tradicionais, mas colocou-se ao lado do PSDB em São Paulo.

As duas tendências que apontei, portanto, não conflitaram. Ao contrário: a força dos votos em branco, nulos ou ausentes abriu o caminho para que o discurso do "bom gestor" conquistasse as eleições, uma vez que esta tem seu resultado ditado pelos votos válidos.

Destaco, no entanto, que o resultado das urnas foi legítimo. João Dória ganhou as eleições com a maioria de votos necessária, após uma campanha bem articulada (para nossa discussão, as possíveis irregularidades de sua chapa não interessam). No entanto, esse resultado só foi possível por causa da combinação de uma mentalidade consumista de boa parte dos cidadãos com a falta de representatividade de novas ideias na política.

Podemos extrair duas lições desse cenário. A primeira é realista, no sentido de dizer que quem entender esse raciocínio e tiver capital simbólico e financeiro conseguirá eleger-se. A segunda é idealista, no sentido de dizer que esse cenário não é definitivo. Em muitos municípios boas candidaturas, especialmente de vereadores jovens, surgiram. É muito próprio da humanidade a capacidade de se reinventar e surpreender. A lição realista pode ser desafiada, desde que tenhamos coragem para tal. Se ninguém defende aquelas que acreditamos serem novas ideias na arena pública, cabe a nós o papel de sermos seus representantes.

*Agradeço a Victor Doering pelas conversas que culminaram nesse texto.

LEIA MAIS:

- As verdades inconvenientes da atual política brasileira

- 'Escola sem Partido' e a noção mentirosa de neutralidade e pluralidade

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