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A perigosa relação entre empoderamento político e nacionalismo

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BREXIT
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O resultado inesperado do referendo pela saída britânica da União Europeia foi um dos assuntos mais comentados desse primeiro semestre. Em sentido contrário às pesquisas preliminares e inesperado em face da morte trágica da parlamentar progressista Jo Cox, do Partido Trabalhista, a população votante decidiu pelo fim de uma ambígua relação com o bloco europeu.

Os dados sobre a divisão entre votos de permanência (remain) e saída (exit) por idade, escolaridade e regiões do Reino Unido se tornaram um material farto para estudos e análises. Foram também chocantes: 65% dos jovens de até 25 anos votaram pela permanência, com número parecido de idosos de mais de 65 anos votando em sentido contrário. Houve um recorte geracional extremamente marcante, com a população mais idosa votando contrariamente aos jovens, em uma decisão que impacta muito mais aqueles que terão mais anos de vida pela frente.

Londres, Escócia e Irlanda do Norte foram os principais votantes pela permanência. Gales e o interior da Inglaterra puxaram a vitória para a saída, havendo regiões com 80% de votos nesse sentido. As regiões que mais receberam imigrantes foram aquelas que demonstraram menos intenções de sair da União Europeia por causa da questão imigratória, ou seja, aquelas populações britânicas mais acostumadas com estrangeiros não foram a favor de sua saída. A divisão entre partidos políticos não capta precisamente o espírito da votação, porque a região de Wandsworth, tradicional do Partido Conservador, votou pesadamente pela permanência na UE, e a região trabalhista de Hartlepool optou pela saída do bloco.

Os dados podem dar a impressão de que a questão central no Brexit foi a imigração. Isso é parcialmente verdade, porém não é toda a história. Ainda que Nigel Farage (UKIP) e outros tenham insistido no discurso de recuperar o país para os britânicos e na defesa de políticas de restrição à entrada de imigrantes, um ponto usualmente despercebido nas motivações dos votos é o sentimento de impotência política dos cidadãos. Análises excelentes foram feitas sobre a relação do Brexit com a imigração e a xenofobia, por isso vou focar o texto na discussão desse sentimento de impotência, e apenas depois em sua relação com a ideia da imigração.

A estrutura da União Europeia é pouco afetada por pressões populares de seus países-membros, de modo que se parece com uma burocracia flutuante, mas que constantemente influencia pesadamente a forma como questões sensíveis são decididas em níveis locais. Políticos nacionalistas em toda a Europa constantemente se referem às instituições da UE como os "burocratas de Bruxelas". A imigração é uma dessas questões sensíveis, com a peculiaridade de ser particularmente visível.

Voltando ao sentimento de impotência política. Esse contexto institucional é terreno fértil para a frustração dos cidadãos nacionais com a União Europeia. Sua estrutura duplica em um novo nível a já comum sensação de alienação do cidadão em relação ao seu governo local, ou seja, o indivíduo se sente já descolado de seu governo, e agora passa a sentir seu governo também descolado da estrutura de poder transnacional. É como ser jogado em uma jaula de ferro dentro de outra jaula de ferro, para adaptar a expressão clássica de Max Weber.

De outro lado, é inegável que a maioria das pessoas não se importa realmente com isso. O fato de vivermos em uma sociedade orientada para o crescimento individual e a satisfação de desejos, engendrada em uma estrutura econômica consumista, faz com que a participação política efetiva seja algo excêntrico aos olhos da maioria das pessoas. Até pouco tempo atrás era comum no Brasil, por exemplo, que as pessoas dissessem não ter tempo para a política porque tinham coisas melhores para fazer.

O ponto de reviravolta: na Europa, assim como no Brasil (mas em escalas e por razões diferentes), passa-se por uma severa crise econômica e política. Em momentos assim os indivíduos voltam os olhos para os governos, procurando uma solução. Suas vidas foram afetadas, muitas vezes de modo dramático, e suas trajetórias foram desviadas. As pessoas passam a demandar uma mudança que permita retomarem a forma com a qual vinham conduzindo seus afazeres. As instituições políticas que dispomos muitas vezes são incapazes de atender a esse tipo de demanda, por uma série de razões que não tenho condições de analisar aqui, mas que vão da falta de vontade da classe política às limitações de conhecimento técnico das burocracias.

Resumindo até aqui. Crises econômicas geram incerteza sobre a possibilidade da vida de consumo individual e isso por sua vez faz com que as pessoas percebam sua impotência política. O nacionalismo surge como uma perigosa panaceia. "Retomar o Reino Unido", "Fazer a América grande novamente" e outras frases ilustram uma tentativa de certos políticos de se alimentar do sentimento de frustração dos cidadãos. Evidentemente, o apelo a valores nacionais e à ideia de comunidade local não é em si necessariamente um problema, mas nas mãos erradas (o que costuma ser o caso), pode ter usos nefastos.

Em todo caso, é essa a estrutura que se acopla a questão da imigração. O nacionalismo opera por exclusão: "nós, os americanos", "eles, os latinos", "nós, os britânicos", "eles, os imigrantes". Para o discurso nacionalista ganhar aderência é necessário que ele exclua alguém. Isso nos leva de volta ao Brexit. Como disse anteriormente, a imigração é uma questão sensível e visível. Ela parece impactar diretamente a vida dos locais, afinal, "tem gente demais morando aqui". A imigração fornece ao discurso nacionalista exatamente o que ele precisa: alguém para excluir. "Retomar o Reino" é retirá-lo das mãos de outra pessoa, ou ao menos essa é a ideia que alimenta o discurso.

Em um contexto de pujança econômica, dificilmente a imigração figuraria nos discursos políticos como um problema, já que estaríamos "ocupados demais" consumindo individualmente. A crise chama a atenção para a impotência política, e essa por sua vez alimenta os discursos nacionalistas que estigmatizam imigrantes. Trata-se de um contexto que nos coloca perigosamente próximos do pior que a humanidade já foi capaz de produzir.

Os três conceitos de sociedade de consumo, impotência política e nacionalismo andam de mãos dadas. Qualquer diagnóstico do momento político vai demandar que se preste atenção a todos eles e às relações que estabelecem entre si. Tentar aumentar a participação direta em um contexto de nacionalismo exacerbado e consumismo pode levar a resultados catastróficos, como visto na história. Mitigar o nacionalismo unicamente tem potencial para alienar as pessoas ainda mais em suas ambições consumeristas. Aumentar a consciência republicana das pessoas sem dar a elas condições de participação muito provavelmente geraria caos político.

Para concluir. Se um diagnóstico deve prestar atenção aos três conceitos acima, enfrentar o momento demanda que quebremos o ciclo vicioso entre eles, algo que ficou mais ou menos claro no comentário sobre suas relações. Quebrar o ciclo, por sua vez, exige de nós um compromisso com as virtudes políticas que entendemos valiosas. Nós entendemos como valores não apenas nossas ambições de consumo, mas também a construção de uma sociedade mais democrática e de um mundo mais justo. Nós lamentamos a miséria daqueles que não conhecemos, mas quando pressionados materialmente em nossas próprias vidas, nos esquecemos disso e buscamos soluções fáceis.

Em minha leitura, é esse tipo de compromisso que faltou a muitos dos votantes no referendo do Brexit. Os britânicos sempre se orgulharam de serem os criadores da Magna Carta e dos Direitos Humanos, mas quando lhes ofereceram uma panaceia na forma de um nacionalismo tóxico, eles traíram seus próprios compromissos com as virtudes políticas que diziam defender.

O filósofo norte-americano Ronald Dworkin uma vez sugeriu, ao discutir as violações de direitos humanos promovidas pelo governo americano, que a metáfora correta a se pensar não era a de uma balança entre segurança nacional e direitos, mas sim entre segurança nacional e a própria honra dos cidadãos americanos, enquanto pessoas capazes de defender seus ideais*. Parece-me bastante adequado dizer que vivemos tempos nos quais essa honra política dos cidadãos (sejam britânicos, americanos ou de qualquer outra nacionalidade) será confrontada cada vez mais.

*DWORKIN, Ronald. Is Democracy Possible Here? Principles for a new political debate. Princeton: Princeton University Press, 2006, p. 51.

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