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A má educação dos millenials não é necessariamente ruim

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CORTELLA
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O filósofo e escritor Mário Sérgio Cortella é um fenômeno. Autor de vários livros nas listas de mais vendidos, é um dos responsáveis pela retomada do interesse de milhares de brasileiros em filosofia. Recentemente lançou seu novo livro, Por que Fazemos o que Fazemos?, que visa a explorar a relação entre os trabalhos ou profissões que exercemos e a busca por um propósito na vida.

A preocupação de Cortella é tão antiga quanto boa parte da filosofia e, ao mesmo tempo, extremamente atual. O filósofo recentemente concedeu entrevista à BBC Brasil, na qual expôs suas ideias resumidamente, em especial sobre a frustração que os jovens (nascidos nos anos 80 e 90) demonstram em relação ao mercado de trabalho e às profissões.

Em que pese o imenso respeito que tenho por Cortella (em meu primeiro ano de faculdade, seu vídeo "Você sabe com quem está falando?", que conta com centenas de milhares de visualizações no YouTube, havia me marcado muito), acredito que - ao menos na entrevista - ele está equivocado. Seu equívoco, no entanto, reproduz a visão de muitos sobre as novas gerações, por isso vale a pena explorá-lo.

Para demonstrar onde está o erro, precisamos primeiro conhecer o argumento do autor. Ele mesmo o sintetiza desta forma: "Parte da nova geração chega nas empresas mal-educada. Ela não chega mal-escolarizada, chega mal-educada. Não tem noção de hierarquia, de metas e prazos e acha que você é o pai dela".

Cortella baseia seu argumento em sua percepção de que a vida se tornou mais fácil nos últimos 50 anos. Ele diz que muitos pais tentam poupar seus filhos e, ao fazer isso, acabam enfraquecendo as novas gerações, por não submetê-las a etapas e experiências necessárias na vida.

Isso seria agravado também pelo fato de os pais tentarem compensar sua ausência (muitas vezes decorrente do trabalho) com mimos, evitando confrontos. O resultado, para o filósofo, é que os millenials, a chamada geração Y, chega indisciplinada ao mercado de trabalho.

Essa geração nascida no final dos anos 80 e início dos anos 90 também goza de um conhecimento sobre as novas formas de tecnologia e de uma capacidade de inovação bem mais elevada que as anteriores e também é muito mais informada. Para boa parte dessas pessoas, a distinção tradicional entre trabalho e lazer não é tão rígida quanto antigamente.

Como o próprio Cortella aponta, as pessoas agora querem trabalhar com o que gostam. Parece-me possível dizer que para o autor a combinação desses elementos dá o tom do espírito da época: a angústia em relação ao sentido ou propósito daquilo que fazemos.

De antemão, devemos admitir que Cortella tem um ponto no que diz respeito ao menos a alguns setores sociais. Qualquer indivíduo que integre a geração Y ou tenha filhos nessa faixa etária conhece várias pessoas que ilustram exatamente a visão do autor. No entanto, essa não é a única imagem disponível da geração e provavelmente não é a mais comum também.

Podemos apontar ao menos dois recortes sociais que esse diagnóstico não contempla de maneira precisa. De um lado, mulheres ganham 30% menos do que homens no Brasil, e essa diferença tende a permear todos os estratos e profissões, em níveis mais ou menos elevados. De outro lado, o Brasil também é marcado por uma diferença salarial de até 36% entre brancos e negros que ocupam os mesmos cargos.

Esses dois recortes ilustram que a princípio já é possível identificar pessoas na geração Y que se frustram não porque são enfraquecidas pelos pais ou algo semelhante, mas porque são sistematicamente desvalorizadas no mercado de trabalho.

Para efeitos do meu argumento, é mais importante ainda percebermos que, em termos comparativos, a geração Y ganha até 23% menos do que os baby-boomers (nascidos entre 1946 e 1964) e que o patrimônio líquido daqueles com menos de 35 anos despencou 68% entre 1984 e 2009.

Com a crise econômica no Brasil, muitos jovens com ensino superior enfrentam o dilema de tentar especializar-se ainda mais, o que para muitas pessoas é inviável, ou "aceitar qualquer coisa" que aparecer.

Os dados apresentados colocam várias ressalvas ao argumento de Cortella. A geração Y não é apenas mimada, ela é substancialmente mais prejudicada do que as demais. Trabalha-se muito e se ganha comparativamente muito pouco. Com dificuldades financeiras, as pessoas são obrigadas a aceitar qualquer oferta de emprego, o que na prática significa gastar cinco dias da semana em uma atividade enfadonha para elas.

A crise existencial que decorre disso evidentemente impacta a produtividade. O erro de Cortella é não perceber como a "má educação" dos millenials tem mais causas do que as diagnosticadas por ele. Essas outras causas, por sua vez, lançam luz em aspectos importantes da forma como o mercado de trabalho contemporâneo funciona. Há aqui uma investigação que merece ser feita.

Irei dar um exemplo em uma profissão considerada de prestígio. Na carreira advocatícia, grandes escritórios são estruturados hierarquicamente da seguinte forma: na base temos os estagiários, depois vêm os advogados juniores, os advogados plenos e finalmente os sócios.

As duas categorias mais baixas, estagiários e advogados juniores, costumam trabalhar muito mais do que as outras, mas possuem salários ridiculamente baixos em termos comparativos. A ascensão na firma funciona por meio daquilo que é às vezes chamado de "torneios", com apenas os melhores dos melhores podendo crescer -- isso quando há disponibilidade para tal (na prática, quando um sócio morre ou se aposenta).

Essa estrutura impõe uma pressão muito grande na base, que tem pouquíssimas chances de crescer (se hipoteticamente há dez advogados juniores e dois sócios, oito desses juniores não conseguirão). Não é preciso muito para perceber que os índices de frustração na carreira são altíssimos. Aliás, no caso dos EUA, advogados possuem taxas de depressão quatro vezes maiores do que a média.

Parece-me plausível concluir que a forma como (ao menos) os mercados de trabalho tradicionais estão organizados é tão culpada pela má educação dos millenials quanto os fatores de Cortella.

Nessa imagem que estamos desenhando, a má educação é um sintoma de uma doença diferente. Construímos um mundo no qual trabalhar é algo muitas vezes enfadonho, e quando as novas gerações se dão conta disso e desafiam essas estruturas, isso muitas vezes é confundido com birra ou falta de respeito. Há mais coisa por trás.

Por diversos motivos históricos, políticos e sociais, nós reduzimos a ideia de profissão àquilo que a filósofa alemã Hannah Arendt chamou de animal laborans. O animal laborans é o humano enquanto forma de vida que meramente busca sua sobrevivência, de forma irrefletida e repetitiva. Labora-se cinco dias para descansar dois, labora-se trinta anos para descansar vinte. No entanto, a busca por um sentido ou propósito de vida é incompatível com um trabalho alienante nesses moldes, que impeça o desenvolvimento de nossas capacidades e talentos.

Quando reconhecemos a necessidade de um sentido na vida e a alienação insuportável de muitos de nossos empregos, talvez, paradoxalmente, a reação mais sábia seja ser mal-educado.

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