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É tempo de espantar os abutres que se aproveitam do terror

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Dallas Morning News via Getty Images
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O massacre na boate Pulse, em Orlando, chocou o mundo no começo de junho. Com 50 mortos e número ainda maior de feridos, o ocorrido será lembrado nos Estados Unidos como o maior tiroteio de sua história e o pior atentado no país desde o 11 de setembro. Autoridades americanas e internacionais manifestaram rapidamente sua solidariedade às vítimas e suas famílias e muito possivelmente o evento figurará nos debates entre os candidatos à Casa Branca no segundo semestre.

Apesar de o Estado Islâmico ter assumido a autoria do ataque, as investigações ainda continuam e o próprio pai do atirador disse acreditar que o crime foi motivado por ódio e não por causas religiosas. Desse modo, parece-me cedo para analisar as causas mais específicas do ocorrido, pois é necessário um maior número de informações. No entanto, já é possível vislumbrar, enquanto sociedade, o que voa em nossa direção.

Toda tragédia atrai abutres, e quanto maior o derramamento de sangue piores serão os oportunistas. O candidato republicano Donald Trump se gabou nas redes sociais de ter "previsto" atentados por parte daquilo que ele chamou de "islamismo radical"*.

Abutres políticos vão se alimentar do medo que a população naturalmente sente após esse tipo de tragédia

Trump e demais conservadores** nos Estados Unidos e no resto do mundo vão utilizar a relação (seja ela confirmada ou não) do atirador Omar Mateen com o Estado Islâmico para defender políticas mais rigorosas e discriminatórias de controle imigratório. O discurso tomará algo como a seguinte forma: "para garantir a segurança da América, nós vamos impor maiores restrições a imigrantes e islâmicos" e a fundamentação (à exceção das afirmações estapafúrdias de Trump, que sequer se pretendem fundamentadas) terá o jargão da proporcionalidade e dos sacrifícios pelo bem maior. Abutres, vistos de longe, parecem grandes águias***.

Abutres políticos vão se alimentar do medo que a população naturalmente sente após esse tipo de tragédia, vão tentar imputar a culpa em toda uma categoria de pessoas que já são estruturalmente excluídas, deslocadas por pertencerem a alguma minoria, e no caso com o agravante de ser uma minoria relativamente fácil de identificar. Tentando ganhar legitimidade, os abutres irão propor medidas que violam os direitos mais fundamentais dos cidadãos. O próprio Trump já vinha defendendo desde antes do ataque a proibição de entrada de muçulmanos nos Estados Unidos. Agora, é preferível nem imaginar que tipo de medida ele passará a endossar.

Abutres não se preocupam com o bem-estar dos demais. Eles se alimentam da matança alheia. Para eles, são oportunidades de crescimento próprio em um mundo cada vez mais violento. Não irão questionar pontos centrais, como a regulamentação ou proibição da venda de armas, em especial de rifles de assalto, projetados especificamente para matar o maior número de pessoas no menor tempo possível. Nem irão questionar a falta de um ensino de qualidade sobre questões de gênero e sexualidade, que tira do rifle o dedo que puxa o gatilho.

Tentarão transformar as comunidades islâmicas em um inimigo a ser combatido ou contido, mas também o fariam com os latinos ou com os LGBTs

Não. Eles irão perseguir aqueles que já são perseguidos, e mais, tentarão virar uns contra os outros. O atentado na Pulse vitimou a comunidade LGBT e a população latina em Orlando, dois grupos que sempre foram marginalizados. Os abutres tentarão jogar estes grupos contra um terceiro, composto majoritariamente por imigrantes islâmicos, em uma tentativa de controlar a todos. No longo prazo, os olhos dos abutres miram a já ferida ideia de direitos humanos. É o reconhecimento de direitos que garante que eles não possam se alimentar de todos a todo tempo. Não por acaso, em outras épocas quando outros abutres dominaram, a primeira medida adotada era retirar daqueles que seriam devorados os seus direitos. Pessoas se tornavam assim vida nua, desprotegida****.

Os abutres irão tentar usar o veneno do medo para apodrecer os direitos humanos, e com eles a ideia fundamental de democracia como igual consideração e respeito por todos os indivíduos, independentemente de sua origem ou escolhas de vida.

Eles tentarão erguer seu império a partir de uma legitimidade maculada pela ideia de um bem maior, que no final do dia será apenas o seu próprio bem. Tentarão transformar as comunidades islâmicas em um inimigo a ser combatido ou contido, mas também o fariam com os latinos ou com os LGBTs.

Em verdade já o fazem, eles tem o hábito de se alimentar dos mais fracos, mas para eles torna-se interessante suspender temporariamente um banquete para fazer outro. No final das contas, o resultado será o mesmo: vão devorar os cadáveres de todos.

É tempo de aprendermos a espantar os abutres.

Referências para este texto:
* Informação disponível aqui.

** Utilizo o termo "conservador" para me referir a determinados políticos reacionários que se valem de argumentos tradicionalistas cegos e preconceitos para se firmarem, e não ao pensamento conservador em si, que possuiu e ainda tem grandes intelectuais e políticos.

*** Uma crítica poderosa e interessante nesse sentido é a de Ronald Dworkin aqui.

**** A análise clássica é ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

LEIA MAIS:

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