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Acelerar processo de alfabetização só serve para gerar ansiedade

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LITERACY
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Não é difícil achar mães e pais de crianças com menos de seis anos que andam ansiosos para que elas aprendam logo na Educação Infantil letras e números, conteúdos específicos e que tenham acesso ao ensino de Inglês o mais cedo possível. Isso é reflexo do mundo competitivo. É preciso saber mais que o outro, mais rápido e melhor. Nossas crianças não podem "ficar para trás". As escolas privadas, na ânsia de satisfazer a clientela, procuram ensinar o alfabeto e os números desde muito cedo. O cliente sempre tem razão! Se for preciso ensinar inglês, espanhol e mandarim para crianças de 1 ano para fisgar mais uma mensalidade muito bem paga, que assim seja!

A primeira reflexão que precisamos fazer é a seguinte: meu filho de cinco anos PRECISA saber ler e escrever neste momento de sua vida? Para quê? Ele pode aprender isso depois? Existirá um tempo mais adiante que se ocupará desse processo de forma respeitosa e tranquila respeitando o tempo da criança? Se sim, por que estamos tão apressados? Alfabetizar uma criança aos cinco anos é uma vontade do adulto ou da criança? Aprender a falar a língua materna acontece naturalmente. Aprender a escrever, não. Esse processo envolve desviar o pensamento para a escrita, que não acontece naturalmente. Escrever é uma técnica, um artifício engenhoso que, para ser dominado, é necessário ter concentração e controle motor fino bem desenvolvido. Além disso, antes de escrever, é preciso aprender um código complexo e ter maturidade suficiente para entender cada "peça" desse código. Logo, não é natural. Exige esforço, dedicação e coordenadora motora bem desenvolvida.

Para desenvolver a concentração e a coordenação motora fina, é preciso brincar. Ao invés de estar aprendendo algo tão complexo como a escrita aos cinco anos de idade, as crianças deveriam estar jogando bola, mexendo na terra, correndo, cortando papel, manuseando pincel, brincando com tinta, experimentando novas texturas, aprendendo a relacionar-se com o outro, ouvindo histórias e desenhando livremente. Aprender a ler e a escrever na Educação Infantil é um tempo roubado. Um tempo que não vai mais voltar. Se há um período longo no Ensino Fundamental dedicado para a aprendizagem da leitura e da escrita, por que não esperar? A pressa não deveria constar no mundo infantil. Criança precisa de tempo e calma para, antes de dominar o mundo das letras formalmente, ser criativo e mexer o corpo conhecendo seus limites e os movimentos que ela é capaz de fazer.

Algumas crianças não têm maturidade ou interesse em começar o processo da leitura e da escrita. São muito novinhas. Elas não têm mesmo obrigação de nada disso. Na pressa do mundo adulto, se uma criança de cinco anos está mais interessada em brincar, movimentar-se e não parar quieta, logo decretam: não aprende, é hiperativa, não se concentra. E dá-lhe medicar crianças que sofrem de um "mal" muito perigoso na nossa sociedade competitiva e apressada: elas sofrem de infância!

Acelerar esse processo só serve para gerar ansiedade na família (por que só meu filho não consegue?) e, principalmente, na criança, que acaba por ser rotulada e desrespeitada. Antes de começar a desenhar a letra "a", é preciso correr muito, pular, saltar, dançar, amassar papel, pintar com tinta, pintar com giz, pintar com lápis, desenhar, recortar, abaixar, levantar e tudo mais que envolva movimento. As crianças deveriam ser expostas a todas essas atividades muitas e muitas vezes antes de começarem a pensar em vogais.

Ensinar letras, números e inglês na Educação Infantil é querer inserir a criança no mundo adulto o mais rápido possível. Já vemos isso acontecer nas roupas adultizadas, nas danças, na adultização precoce. Querem que aquele mini ser tenha uma agenda digna de executivo e que aprenda logo os códigos do mundo adulto. Querer fazer uma criança de cinco anos permanecer sentada, em silêncio, lendo e escrevendo é uma tentativa cruel de apagar a primeira infância. A primeira infância deveria ser dedicada a brincadeiras, aos amigos e à liberdade de ser criança. Querer colocar esse peso do mundo adulto nas mãos pequeninas de crianças que ainda estão trocando r pelo l na fala é um equívoco tão grande quanto exigir delas atitudes adultas.

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