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Sobre não querer 'aturar' crianças

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CHILDREN RESTAURANT
Andrew Rich via Getty Images
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Rainha da Cocada e Brunch Cantareira,

Eu vou acreditar que vocês consideram razoável impedir a entrada de crianças em estabelecimentos comerciais porque não conhecem a realidade de muitas mães. Vou tentar esclarecer da melhor forma possível. Eu sou mãe. Mãe de dois. Cuido deles o dia todo enquanto meu marido trabalha. Opção nossa, conversada e ponderada. Às vezes eu tenho vontade de sair no meio da tarde pra tomar um café num lugar bacana, bonito e com comida gostosa. Então, eu pego os dois e os levo a uma confeitaria com um buffet delicioso de café da tarde. Cada um escolhe o que comer e eu posso, finalmente, tomar meu café na companhia dos meus pequenos companheiros.

Fico pensando se essa confeitaria, da qual sou cliente, resolve não aceitar crianças. Sabe o que vai acontecer? Eu serei excluída. Primeiro, porque não tenho com quem deixar meus filhos pra tomar um café sozinha. Depois, porque não quero. Eu gosto de estar com meus filhos. Eu gosto de sentar com eles à mesa. Eu gosto de sentar com eles em um lugar bacana e conversar. Pois é, eu converso com meus filhos, nós batemos papo sobre diversos assuntos. Eles são companheiros. São pessoas - surpresa! Sabe, Rainha da Cocada e Brunch Cantareira, a maternidade já nos exclui de muitos espaços, inclusive de trabalho e acadêmicos. Não por proibirem explicitamente, mas porque crianças e, consequentemente, mães não são bem vindas e, principalmente, porque na nossa sociedade patriarcal, os cuidados acabam sendo direcionados à mãe. É muito triste pensar que alguém acha justo excluir uma parcela da população.

Você consegue imaginar um restaurante que não aceita idosos? Não, porque seria muita maldade. Pois é, a população é constituída por bebês, crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos - todos são pessoas e jamais deveriam ser excluídos de qualquer espaço, seja ele público ou privado. E vou contar um segredo: eu e meus filhos somos frequentemente incomodados nesta confeitaria que amamos. Eles querem ficar em paz, em silêncio, tomando seu chocolate quente e muitos ADULTOS insistem em atrapalhar: puxam assunto chato, tossem demais, conversam alto, palitam os dentes... Adultos atrapalhando meus filhos, crianças. Adultos também são chatos e atrapalham. É preciso aprender a conviver com todos que co-habitam este mundo. Meus filhos estão aprendendo. Espero que muitos adultos aprendam também.

Gostaria de sugerir aos que não querem ouvir criança: procurem um lugar íntimo, reservado e exclusivo. Quer namorar sem criança por perto? Motel. Quer transporte sem criança? Táxi. Quer voar sem criança? Jatinho particular. Quer viajar e se hospedar em um local sem criança? Aluga uma casa. Enfim, no mundo, há crianças. Aceitem. Se as pessoas não querem crianças por perto, o problema é exclusivamente delas. Então, que paguem por exclusividade: táxi, motel, jatinho particular, casa alugada em viagem ou uma ilha particular. O mundo não tem que se adequar às vontades de quem não quer barulho de criança porque elas estão em toda parte, elas existem e são pessoas.

Esse tipo de ação dá margem para que pessoas naturalizem o fato de "odiarem crianças". Crianças são cidadãs e devem ter o direito de ir e vir sem qualquer restrição e, principalmente, merecem, no mínimo, não serem odiadas. A infância é uma fase muito vulnerável e tratada desrespeitosamente há séculos. Elas são abusadas, maltratadas, apanham e são odiadas na sociedade. Talvez seja a única fase que está livre para abusos diversos sem que as pessoas tenham vergonha de admitir que batem nelas, gritam com elas e as odeiam. Como mãe e professora, faço um apelo: antes de dizer "não gosto de crianças", troque "crianças" por "idosos", "mulheres", "deficientes", "negros". Você tem todo o direito de não querer filhos. Eu te respeito e luto pela sua decisão - não à maternidade compulsória. No entanto, respeite a minha decisão de ter filhos e poder circular com eles em qualquer espaço da sociedade.

Um beijo.

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