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Grace and Frankie: sobre velhice e liberdade

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O que vem à cabeça quando você pensa na velhice? Para muita gente surge na mente um bucolismo protagonizado por senhoras e senhores andando devagar, usando roupas bege, que pensam muito na morte (pois "a hora está chegando"), gostam de chá e/ou leite antes de dormir e não sabem muito bem usar a tecnologia. São todos velhinhos, fofinhos, assim, no diminutivo.

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É exatamente isso que não vemos na divertida comédia Grace and Frankie, mais uma produção original da Netflix. A começar pelos protagonistas, velhos felizes, fortes e ativos. Muito ativos. São eles Lily Tomlin (76 anos), como Frankie, Sam Waterston (75 anos), como Sol, Martin Sheen (75 anos), como Robert e Jane Fonda (79 anos), como Grace.

A história começa quando a vida dos personagens vira ao avesso. Grace e Robert e Frankie e Sol são casados há mais de 40 anos, porém os maridos, que mantêm um relacionamento escondido por 20 anos, resolvem assumir para o mundo sua homossexualidade. Os homens anunciam seu casamento às famílias e as mulheres, que nunca foram muito amigas, resolvem morar juntas.

Enquanto buscam seus lugares no mundo os personagens transam, visitam amigos de longa data, tomam porre para esquecer os problemas, fazem canal no YouTube, fumam maconha, têm frio na barriga em encontros com novos paqueras e cozinham seus próprios frangos com batatas.

Assistindo às duas temporadas da série, desejo esse cotidiano a todos, em todas as fases da vida (inclusive depois da aposentadoria). Muita alegria, independência e amigos por perto, apesar dos problemas inesperados e inimagináveis que surgem no caminho.

É impossível não pensar nisso. Somos humanos, sabemos que um dia "a idade vai chegar", as dores nas costas serão frequentes e saberemos quando a farmácia está em promoção. Nada disso impede de seguirmos ativos, com uma rotina independente e divertida.

É preciso ressaltar: o seriado tem uma grande dose de licença poética. Afinal, quem nesse mundo pode viver a velhice sem muitas preocupações e morando numa mansão na beira da praia?! Pouquíssimos seres humanos. Porém, em muitas ocasiões, é este o papel da ficção: nos dar a chance de ir a um mundo completamente irreal, privilegiado. E tudo bem.

Além de pensar no futuro, Grace and Frankie é uma oportunidade para pensar no presente da nossa TV. O roteiro aborda a velhice com a liberdade necessária para o ano 2016, mas fora dos atuais padrões conservadores das TVs tradicionais (No Brasil, o único retrato de uma velhice, digamos, "diferente" foi na série Doce de Mãe, com Fernanda Montenegro).

Um seriado como esse, com argumentos tão progressistas, jamais seria exibido em uma TV aberta brasileira ou, arrisco dizer, de qualquer outro país do mundo. Destaque para as cenas românticas, com trocas de carícias e beijos entre os personagens Sol e Robert. Eles se amam como todo casal apaixonado é, e tudo bem. Mas já imaginou o escândalo na sociedade brasileira em ver essas declarações de amor? Patrícia Abravanel ficaria pasmada com um programa como esse no SBT!

Apesar disso, torço para outras TVs produzirem séries com enredos tão livres de amarras e padrões, seja em emissoras tradicionais ou nos serviços de streaming como a Netflix. Onde houver ficção com liberdade de ser o que se quiser em qualquer idade haverá público interessado.

Eu já estou aguardando ansiosamente a próxima temporada de Grace and Frankie.

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