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A celebração da misoginia

Publicado: Atualizado:
MICHEL TEMER
Adriano Machado / Reuters
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Ela se foi, é agora presidenta-afastada. É certo que ainda há quem recuse o uso do feminino para descrever as mulheres em postos de comando - rejeitam nosso feminino poderoso, com um certo desdém e em nome da gramática, "a língua portuguesa faz do masculino o substantivo universal". Se inventada por alguém, a gramática foi criação de homens e transformada em língua culta por outros homens na história. É, a presidenta se foi, entraram os homens. E eles não querem dividir conosco a política - a brincadeira será exclusiva de machos. Até onde sabemos, os vinte e dois ministérios serão ocupados por veteranos da política.

A imagem da posse é como da última ceia; peço perdão pela alegoria religiosa para cena tão profana. Nem para nos representar pela "política do tapinha nas costas" nos incluíram neste novo governo. Poderiam ter nos nomeado para as pastas de cuidado, assistência ou direitos humanos - mas nem aí houve lugar para as mulheres na política. Não há mulheres no topo do poder: ou porque somos incompetentes para a nova política, ou porque a resposta é ainda mais repulsiva - sai a presidenta e se afirma a misoginia como política de governo.

Eu nem esperava tanto como um Ministério da Saúde, do Planejamento ou da Economia. Ministério da Defesa nem cogitei - desconheço o tempo em que as mulheres ascenderão na carreira militar para que as primeiras generalas recebam a continência de seus subordinados. É verdade, novamente sou ousada na gramática, pois onde já se viu falar de altas patentes no feminino? Já faz tempo que o Ministério da Defesa não é ocupado por estrelados, mas uma mulher seria demais. Minha esperança resignava-se à história: ministérios de assistência ou de minorias. Mas a novidade foi ainda mais espetacular: acabou-se isso de Secretaria de Mulheres ou de Igualdade Racial.

Não há mulheresnem homens negros nos ministérios. Mulheres negras não devem existir para a nova política, pois já houve gente famosa que, recentemente, confundiu senadora negra com a "tia do cafezinho".

Há uma diferença entre não existirmos no couro, no sexo ou no pensamento, e não existirmos para a política. Há mulheres e homens negros na política, competentes e sensíveis para enfrentar a crise política que o País enfrenta. Eles só não existem para o governo da vida que hoje se fez presidente do País.

A celebração da misoginia racista é ampla. Não há mais secretaria de mulheres ou de igualdade racial, voltaremos à cidadania como palavra plural para todas nós. Esquecem os novatos governantes do País que as mulheres nunca abandonaram as lutas por cidadania, só mostramos que seu conteúdo é corporificado: ser uma mulher cidadã é falar de gênero, de filhos, de aborto, de salários mais baixos que os dos homens, é insistir que há violência na casa ou na rua.

Ainda não nos pediram recato ou beleza para sermos cidadãs do novo governo. Se pedirem, ouvirão nosso brado enfurecido, pois peço que não esqueçam ser nossa especialidade a resistência.

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