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Pelo fim do crime de estupro

Publicado: Atualizado:
RAPE
ASSOCIATED PRESS
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A história é horrenda. Homens brutos e em bando violentam uma menina. O massacre sai do abatedouro para as redes sociais: não houve espião para a denúncia do crime, o próprio bando exibiu-se na barbárie - filmaram-se e lançaram-se para o mundo. Para eles, nada de estranho havia no estupro coletivo: aquele era só mais um corpo à disposição do abuso e do prazer. As imagens eram um souvenir do ataque, uma prova da masculinidade terrível em ação. Em uma delas, o macho sorri ao lado do corpo nu e desfalecido da menina.

Diante do choque, em um primeiro momento as mulheres emudeceram. Falo no plural e no absoluto - o caso desperta o sentido da existência de nossos corpos sexados no feminino. Então algumas rezam, outras gritam, mas muitas se agitam para encontrar formas de demonstrar solidariedade à menina que a alma mais doída que o útero. A alma de todas nós chora por ela, e é roçando uma ferida que sangra que nos movimentamos para explicar aos homens por que estupro é um horror, e que não queremos viver com medo de sermos violadas. É aí que sentimos o quanto até mesmo a linguagem é movida por sentidos que não são os das mulheres.

Passamos a dizer "nenhuma mulher merece um estupro". Mas como falar em merecer se o estupro é uma violência? Passamos a dizer "nenhuma mulher quer ser estuprada". Mas como falar em querer se o estupro é uma alienação da vontade? Foi aí que passamos a dizer "eu luto pelo fim da cultura do estupro", ou apenas "pelo fim da cultura do estupro". É um grito de basta, sem verbo, só o anúncio do fim. Não quero corrigir o que nos restou como linguagem, mas, talvez, remexer o indizível: não sei se eu falaria cultura do estupro, prefiro crime de estupro. Eu luto pelo fim do crime de estupro, eu gritaria, repetindo o verbo que nos exige, "lutar". A cultura que precisamos lutar contra é a patriarcal: essa que proíbe currículos sobre gênero nas escolas; a mesma que considera o aborto um crime; ou ainda a que determina ser família só a formada por gente de sexo diferente.

Os homens estupram as mulheres. Até em bando estupram porque não se estranham, acreditam ser as mulheres qualquer coisa para o uso do pênis ereto e do prazer compartilhado. Imagino outras hordas de homens que se inquietarão com a frase "os homens estupram mulheres". Repito-a por lutar pela linguagem. Se você não é um desses homens, caro leitor, aquiete-se. Não gritamos "pelo fim do crime de estupro" só para audiências estreitas, como a da horda bruta que violou a menina. A luta é contra o marco patriarcal de poder que conformou trinta e três homens como sujeitos insensíveis à dor e à vida da menina. E esta é a cultura a ser transformada - eu luto pelo fim da cultura patriarcal.

Houve homens que se silenciaram diante do lamento das mulheres. Não sei dizer se é silêncio solidário ou indiferente. Ao menos fizeram silêncio. Mas houve uma multidão de homens faladores. Uns anunciaram novas polícias para nos proteger; explicamos que já temos polícia de sobra e ineficiente, algumas há décadas especializadas em atender mulheres vítimas de violência. Outros buscaram nas roupas, maquiagens ou nos trejeitos das meninas e mulheres as causas da brutalidade masculina - nem mesmo diante do espetáculo bruto dos homens vangloriando-se nas redes sociais com o corpo nu, intimidaram-se em repetir teses arcaicas e vulgares de que as mulheres seriam as atiçadoras da violência masculina. Apesar de desrespeitoso, esse não foi o texto masculino que mais me causou espanto.

A figura do delegado é a da autoridade do arcaísmo patriarcal: investigou as preferências sexuais da menina e anunciou que não se confundiria com o "senso comum" sobre o estupro. Em tom de thriller policial, antecipou no domingo o que já era esperado como anúncio público de suspeita sobre a vítima - o laudo pericial que vasculha vestígios da brutalidade nas intimidades do corpo informaria não "ter havido violência". Me perturbo com a tranquilidade da polícia com que refina comportamentos brutais masculinos em termos pacíficos: se a barbárie das imagens é uma grave violação à intimidade da menina, agora é também sua salvação à suspeição policial. O souvenir dos brutos responderá à tolice de um laudo pericial realizado com atraso de dias da cena da violência. Mas preciso confessar: esse não foi o texto masculino que mais me causou espanto.

Muitos homens, para se diferenciar do bando, exigiram das mulheres cautela no brado generalizante de que "homens estupram mulheres". Exigiram respeito no trato da masculinidade. É curioso esse pedido de delicadeza na linguagem, pois era um reclame de especificidade nas masculinidades, como se dissessem "há outros homens estupradores, mas não me ponha neste coletivo". É verdade; assim como vivemos o mulherio no plural, não são todos os homens que estupram mulheres. Mas ao contrário do que insistem em dizer os homens ofendidos pela linguagem, o estupro é uma prática tão comum que falou-se de "cultura do estupro". A criminalização é uma das tentativas de contê-lo pela força da repressão, pois não parece ser suficiente apostar na sensibilidade masculina dos que se mostram incomodados com a brutalidade de seus companheiros de sexagem para modificar a cultura patriarcal.

A menina estuprada pelo bando nos autoriza a ignorar a sensibilidade dos homens pacíficos aos corpos das mulheres. A eles, pedimos que não se ofendam por usarmos o genérico "os homens estupram mulheres". A eles, pedimos que não venham com relativismos tolos de que o crime de estupro não tem sexo. A eles, pedimos que subvertam pensamentos, comportamentos e linguagens para que possam garantir o direito à vida das mulheres. A eles, não ofereço meus pedidos de desculpas por incluí-los na camaradagem do machismo opressor. Luto por atitudes concretas de subversão do patriarcado. Uma delas é pelo fim do crime de estupro de mulheres.

LEIA MAIS:

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