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Os descontentes e a inesperada vitória de Donald Trump

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DONALD TRUMP
Beck Diefenbach / Reuters
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As eleições presidenciais norte-americanas deste ano parecem ter reforçado as análises que defendem uma forte polarização política pela qual alguns países passam, particularmente o papel do conservadorismo, assim como reascenderam as críticas sobre a acurácia de pesquisas de opinião na predição de resultados. Afinal, não apenas nos Estados Unidos as projeções da vitória de Hillary Clinton falharam, mas também no plebiscito do Reino Unido (Brexit) e até mesmo nas eleições municipais brasileiras. Tais resultados suscitam vários questionamentos, os quais partem desde procedimentos metodológicos de pesquisa até demografia do voto e ineficácia das formas tradicionais de representação, colocando novos desafios à análise política.

É importante destacar que o voto é resultado da interação de conjunto complexo de variáveis demográficas (raça, gênero e idade), socioeconômicas (renda e escolaridade), individuais (preferências, crença e valores), do racional econômico (custos de oportunidades) e da realidade tecnológica da sociedade. E, mediante este entendimento, duas questões se destacam atualmente, as quais deixam o voto cada vez mais difícil de predizer e a interpretação de seus resultados mais complexa.

A primeira está relacionada ao contexto tecnológico contemporâneo. Com o advento da internet, promoveu-se um maior acesso à informação por meio de canais tradicionais e a ascensão de canais não tradicionais (redes sociais, por exemplo), que, em velocidade instantânea de disseminação, reduziram os custos para o cidadão se informar, tornando a decisão eleitoral mais volátil. O modelo clássico de transmissão da informação, conhecido como cascata, no qual a informação é difundida a partir das opiniões das elites e intermediada pelos órgãos tradicionais da mídia até o cidadão comum, perde a sua eficácia na realidade cibernética. Hoje, quaisquer temas, situações e conteúdos são divulgados e compartilhados por qualquer cidadão, como interesses dos mais diversos, em tempo real, promovendo modificações constantes de opinião de parte da população. Assim, nas dinâmicas eleitorais, grupos de cidadãos passam a decidir o seu voto cada vez mais próximos à urna.

A segunda questão abarca variáveis demográficas associadas a clivagens socioeconômicas do eleitorado e ao seu comportamento em temas políticos contemporâneos. Nesse campo, é importante observar como diferentes grupos têm se posicionado politicamente ante a evolução de seu status e papel relativos na sociedade. Neste ponto, chama a atenção o fato de que vivemos um momento em que as diferenças entre gerações, dos baby boomers à geração milênio, convivem mutuamente, o que implica concepções muito diferentes de mentalidades e interesses, com consequências em suas atitudes.

Em questões demográficas, verifica-se que Hillary Clinton foi a candidata escolhida pela maior parte das mulheres

O caso das eleições norte-americanas de 2016 ilustra bem esses pontos. Com a vitória de Donald Trump, as análises mais disseminadas são a de que o republicano foi eleito pelos homens brancos, de baixa renda e escolaridade, com forte posição conservadora. Se em certa parte correta, a divulgação de alguns dados do pleito já permite realizar outro tipo análise, a qual expõe as dificuldades encontradas nas projeções eleitorais e no entendimento da situação política vivenciada e que estão sendo esquecidas ou pouco exploradas, não apenas nos Estados Unidos, mas também no mundo.

Conforme dados da pesquisa boca de urna nos Estados Unidos (exit polls) realizada por amostragem, 8% do eleitorado decidiram o seu voto poucos dias antes da eleição, que, somado àqueles que se decidiram na última semana, compõem grupo de 13%. Destes, a maioria votou no candidato republicano. Para 30% dos eleitores, o debate dos candidatos não foi importante para a escolha do voto. Para este grupo, Trump também foi o preferido, com 57% da escolha. Dessa forma, nota-se que uma parcela significativa para disputas acirradas tem deixado para se decidir nos últimos dias, e, em seu processo decisório, não necessariamente consideram os debates em sua decisão, mas outros tipos de fontes de informação. O que dificulta projeções, tendo em vista número maiores de indecisos e as mudanças de posição até à cabine de votação.

Em questões demográficas, verifica-se que Hillary Clinton foi a candidata escolhida pela maior parte das mulheres. Porém, ao observar o voto por raça, embora a democrata tenha tido 54% dos votos de mulheres, Trump recebeu mais votos das mulheres brancas, as quais representam 37% da amostragem. Nesse sentido, a questão de gênero parece ter perdido força ante a questão racial, tornando o resultado agregado do gênero equilibrado entre os candidatos.

Sobre a divisão racial, Trump foi majoritariamente preferido pelos brancos e Clinton pelos não brancos. No entanto, um dado surpreendente, uma vez que o discurso do candidato era visto por muitos como de ódio aos hispânicos, é que 29% dos eleitores latinos votaram no republicano. Na Florida, por exemplo, o índice foi maior, com 35% dos latinos preferindo Trump a Hillary. Dos cubanos daquele Estado, 54% votaram em Trump.

Com relação à escolaridade, notou-se que aqueles com menor escolaridade tenderam a escolher o republicano, ao passo que aqueles com maior escolaridade optaram pela democrata. Mas, quando analisado este voto também por gênero e raça, Trump angariou mais votos de homens brancos com maior escolaridade. Caso considerada a renda dos eleitores, a amostragem indicou que Clinton foi a candidata que mais ganhou votos dos cidadãos mais pobres, enquanto Trump de mais ricos.

De fato, há uma questão conservadora não desprezível, uma vez que que 48% dos eleitores da amostragem disseram que o próximo presidente deveria ser mais conservador - e, neste grupo, o republicano venceu

Com isso, não é tão fácil dizer que a eleição de Donald Trump foi resultado categórico dos votos do homem branco, baixa escolaridade e baixa renda. Esse grupo é saliente na aderência ao discurso, mas existem outras variáveis que foram determinantes do resultado. Essa questão fica mais evidente quando observada a posição dos eleitores. Em termos de agenda de política pública, a maioria dos votantes da amostragem disse que a economia (52%) é o tema mais importante do país, seguido do terrorismo (18%), imigração (13%) e política externa (13%).

Na distribuição dos votos, Trump venceu naqueles eleitores que consideraram o terrorismo e a imigração as principais questões enfrentadas pelos Estados Unidos, enquanto Clinton liderou nos temas de economia e política externa. Ou seja, a majoritária parte do eleitorado ainda vê na economia o principal tema do País. Porém, nessa questão, a maior parte dos eleitores (63%) entende que a situação econômica norte-americana não está boa. E, neste grupo, o republicano foi o preferido. Destaca-se, inclusive, que para 27% dos eleitores da amostra a sua situação econômica piorou nos últimos quatro anos, segmento em que Trump também obteve mais votos.

Nesse contexto, o discurso de Trump, de um lado, esforçado em associar a falta de emprego aos acordos comerciais com outros países, e, de outro lado, em apontar a imigração com responsável pelos problemas econômicos, de fato se revelaram os temas em que o republicano teve mais votos. Contudo, é importante salientar, o desemprego pelos efeitos do comércio internacional foi considerado por 42% dos eleitores da amostra e que os imigrantes ilegais devem ser deportados por apenas 25%. Em outras palavras, ainda que Trump tenha tido mais votos nessas interpretações, elas não foram majoritárias do eleitorado.

Então, o que explica o efeito Trump? A questão ainda é aberta. Entretanto, está longe de soluções analíticas simplistas sobre um perfil conservador do seu eleitor: branco, baixa renda e baixa escolaridade. De fato, há uma questão conservadora não desprezível, uma vez que que 48% dos eleitores da amostragem disseram que o próximo presidente deveria ser mais conservador - e, neste grupo, o republicano venceu. Por outro lado, os outros 52% disseram que esperavam uma continuidade das políticas liberais ou uma posição mais à esquerda. Ou seja, um cenário equilibrado em opções. Aliás, um dado interessante, é que 23% dos eleitores que esperavam uma saída mais à esquerda votaram em Trump.

Por outro lado, os democratas vêm reduzindo os votos consideravelmente a partir de 2008, especialmente entre os grupos mais jovens

Diante de muitos dos sinais dos eleitores por vezes incoerentes à primeira vista, o que se configura é uma situação evidente em que a sociedade norte-americana reivindica mudanças; como ocorrido em outros países também. Porém, ao que tudo indica, as organizações políticas e partidárias tradicionais não parecem conseguir dar voz para as demandas de mudanças dos eleitorados, especialmente para os mais jovens, tornando as determinantes no voto mais complexas, muito além das suas clivagens usuais, como renda. E, nesse terreno, a voz conservadora, ainda que sempre presente, adquire evidência.

Como em outros processos eleitorais, observa-se um aumento da abstenção eleitoral. A abstenção nos Estados Unidos, que é uma das mais altas do mundo, também vem subindo recentemente. Em 2008, por exemplo, aproximadamente 62% dos eleitores elegíveis votaram. Os dados para 2016 estimam queda deste número para 58%. Com peso de que os eleitores de 18 a 24 anos têm reduzido a sua participação nos pleitos no mesmo período. Os votos nos republicanos, fortemente associado aos eleitores acima dos 40 anos, estão praticamente estáveis desde 2004. Por outro lado, os democratas vêm reduzindo os votos consideravelmente a partir de 2008, especialmente entre os grupos mais jovens.

Tais reflexões sugerem que os resultados observados revelam a dificuldade das lideranças políticas e das organizações partidárias atuais de dialogarem e apontarem novos caminhos e novas demandas aos que clamam mudança e que possuem relações demográficas e socioeconômicas mais complexas e de geometria muito variável. Seja para os próprios os conservadores, seja para outros grupos, muitos difusos, inclusive. Sendo estes não apenas os novos desafios metodológicos para as pesquisas tentarem apreender a nova lógica decisória do voto, além de suas clivagens clássicas, mas ao sistema político dialogar, dar voz e ecoar novos desejos.

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