Huffpost Brazil
BLOG

Apresenta novidades e análises em tempo real da equipe de colaboradores do HuffPost Brasil

Diego Iraheta Headshot

Aonde a intolerância e o delírio de imprensa 'golpista' vão nos levar?

Publicado: Atualizado:
Imprimir

caco barcellos

Um dos maiores jornalistas de sua geração, Caco Barcellos é referência na cobertura de direitos humanos no Brasil e na América Latina.

São quase cinco décadas de carreira dedicadas a furos, grandes reportagens e pluralidade de vozes, sobretudo daquelas marginalizadas.

Uma extensa apuração sobre a violência policial em São Paulo nas décadas de 70 e 80 e início dos 90 deu origem ao livro Rota 66: A História da Polícia Que Mata (Record, 2003).

Explorando banco de dados da segurança pública, Caco revelou que a maioria das vítimas da Rota, tropa da Polícia Militar paulista, não era criminosa. Cerca de 65% dos mais de 4 mil mortos pelos policiais eram inocentes.

Décadas antes dos brados da atual esquerda contra o genocídio dos pretos e pobres da favela, era Caco quem mensurava o tamanho do problema social e racial na periferia de São Paulo.

O mesmo jornalista que detalhou a gênese dos traficantes na favela Santa Marta, no Rio de Janeiro, na obra Abusado (Record, 2003). Sem preconceitos, mas com papel, caneta, entrevistas.

O mesmo idealizador do programa Profissão Repórter, que abre o microfone para usuários de crack, para garotas de programa, para sem teto. Sem prejulgamentos, mas com sensibilidade e humanidade.

Esse repórter investigativo, dos melhores da espécie, foi vítima da intolerância nas ruas -- mais uma vez.

Virou alvo de cone e garrafadas, sob os gritos de "golpista" e "o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo".

Caco Barcellos estava cobrindo a manifestação de servidores públicos contra a votação de pacote anticrise do governo do Rio de Janeiro.

Em frente à Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro), manifestantes tentaram silenciar a imprensa livre. No delírio coletivo deles, é a imprensa golpista.

A nomenclatura PIG, o Partido da Imprensa Golpista, foi popularizada pelo militante e blogueiro Paulo Henrique Amorim e apropriada por movimentos sociais e partidos de esquerda no Brasil.

Na posse do ex-quase-ministro Lula como chefe da casa civil da ex-presidente Dilma Rousseff, em março deste ano, o grito de guerra foi "o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo".

Os puxadores do coro: petistas, comunistas (do PCdoB), lulistas, a esquerda que assim se autoproclama.

Políticos vão incitando o ódio de suas respectivas turbas. O modus operandi é semelhante: dizem que são vítimas de perseguição e, por isso, atacam jornais, emissoras, âncoras e repórteres.

A tática independe de coloração ideológica.

Lula, Eduardo Cunha, Marcelo Crivella, Jandira Feghali: esses são alguns dos inimigos declarados da mídia que tacham de golpista.

Essa retórica incendeia manifestantes e militantes, à esquerda ou à direita, contra o jornalismo.

E a vítima principal é ironicamente o jornalista, que denuncia as violações do Estado, das corporações, dos políticos, dos partidos.

Como jornalistas, devemos repudiar qualquer violência contra nossos colegas e contra o exercício da nossa profissão -- fundamental para o debate público e a democracia.

LEIA MAIS:

- Lições de Gabriel García Márquez aos jornalistas sobre a "melhor profissão do mundo"

- Dois anos do HuffPost Brasil: Um jornal que se posiciona

Close
11 filmes indispensáveis sobre Jornalismo
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual