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Nossos heróis ainda são os mesmos

Publicado: Atualizado:
NEYMAR
Reprodução/TV Globo
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No último "Domingão do Faustão", o jogador Neymar Jr. foi entrevistado direto de sua casa via vídeo. Neymar tinha em colo seu filho Davi, de 2 anos. A novidade que se tornou viral foi o fato do jogador ter dito, sobre a atriz Bruna Marquezine, que "A gente sempre esteve junto". Mas a grande notícia vinda da entrevista deveria ter sido a duvidosa maneira que Neymar parece educar seu filho. No fim da entrevista, Neymar, rodeado de uma dezena de amigos, como um rapper americano e sua entourage de groupies über-masculinos, pediu a Davi que mostrasse "como é que dá um beijo no papai". O menino obedeceu de imediato fazendo biquinho com os lábios. Logo depois, dando sequência à segunda parte do que se tornou evidente ser uma brincadeira constante entre pai e filho, Neymar perguntou a Davi como se dá beijo nas meninas. A criança, visivelmente constrangida, se recusou a mostrar. Neymar insistiu mais quatro vezes, "Como que dá beijo nas menininha?", colocando sua própria língua pra fora e fazendo uma espécie de mímica de um beijo de língua, cuni- ou anilingus. Finalmente, Davi obedeceu o pai e demonstrou, como um golfinho que sucumbe à insistência de seu treinador, colocando sua língua de 2 anos para fora e imitando os movimentos eróticos do pai.

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Essa espécie de pedagogia infanto-sexual tosca demonstra não só como o processo de hetero-sexualização da criança se dá de maneira coerciva, e como somos tão cegos a ela, mas como o sexismo continua sendo pré-requisito de masculinidade no Brasil. Quais seriam os alvos desse beijo molhado que Neymar coage seu filho a dar em rede nacional? Mulheres mais velhas que Davi, ou "as menininha" de sua idade? E essas meninas, também estão recebendo instruções similares de seus pais e mães, ou serem pegas de surpresa faz parte do jogo? E imaginem se fosse Angélica prostrada em seu home theatre no Joá dando aulas de beijo à pequena Eva para que a garota não fizesse feio quando não fosse mais virgem de língua?

Essa é a dinâmica de "dois pesos, duas medias" de um sistema que prevê ao menino (sem qualquer idade mínima) tudo e à menina absolutamente nada. Esse é o machismo que Neymar já revelava, entre um clichê e outro para reiterar sua fé na "família", no início da mesma entrevista, quando indagado sobre ciúmes de filhos. Ele respondeu, essencialmente, que seu filho poderia fazer o que bem quisesse, mas que com menina tem que ser "linha dura". A plateia, provavelmente coagida como Davi por algum animador de auditório, respondeu com aplausos.

Esse é, também, o machismo que manifestou de maneira ululante, e covarde, o Pastor Eurico, ao hostilizar a apresentadora Xuxa, que por sua vez não tinha voz, literalmente, por ser convidada na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara. Max Milliano Melo ofereceu uma brilhante análise do ocorrido, que demonstra como somos tão rápidos a achincalhar as mulheres em se tratando de crianças, e tão incapazes de culpar os homens. Melo revela como Xuxa, que por vezes foi acusada de responsável pela sexualização de toda uma geração (como se crianças, inocentes e meigas, não fossem sexuais por si só, desde o útero), é tida como corrompedora de menores por um papel que ela fez aos 16 anos num filme de ficção ("a fita sequer é uma pornochanchada"), mas os atores homens e o diretor jamais são questionados pelo suposta inadequação do filme.

Esse treinamento de beijo de língua entre pai-herói da nação e um filho acuado em rede nacional, cercado por 10 representantes da über-masculinidade brasileira em peso, nos mostra como a heterossexualidade é passada pra frente de maneira necessariamente violenta, como uma irrecusável herança e uma demanda policiada. Para o pequeno Davi, não há alternativas. Antes mesmo de sua puberdade, antes mesmo que ele possa dominar sua língua (portuguesa), antes mesmo que ele possa ser exposto às diversas formas de amar e obter prazer: o pai escolhe para ele quem será seu objeto de desejo ("as menininha") e o que ele há de fazer com elas - com várias delas. Pois esse beijo, molhado e safado (um espécie de lepo-lepo kids via oral), é uni-direcional. No discurso do pai, o menino beija a menina que, sem ter sido adestrada a beijar, há de ficar ali parada, como uma lady. Aliás, com sorte, várias delas estarão a postos. Não pode ser só uma. Neymar já se refere a elas no plural, presumindo que seu filho de 2 anos será um pegador - outra contingência para a hetero-masculinidade brasileira.

Essa é a mecânica que dá vida à famosa cultura do estupro, que os reacionários amam desqualificar como exagero progressista e da qual Davi, e tantos outros, está sendo treinado para ser um exímio soldado. Nessa cultura, o menino é o agente, a menina é uma coisa e um número. E o sexo não é uma parceria, mas um ato de esperteza no qual o homem tira vantagem do despreparo e da ingenuidade da mulher. Jaz aí, nessa assimetria de poder, o gozo do homem - e, muitas vezes, o da mulher. Nesta cultura, a heterossexualidade só faz sentido quando o prazer é garantido pro homem pela desumanização da mulher - ou melhor, de tudo aquilo que não é homem, que não é branco, ou que é pobre. Não é Xuxa a responsável por fazer a infância no Brasil um período mais curto possível para que se tornem consumidores logo, mas pais como Neymar, loucos para colocar seus filhos dentro de um microondas hetero-masculinizante, para que não haja qualquer possibilidade de se seduzirem por algo além do que lhes é decretado como imaginável.

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Neymar, o capitão do ouro da Rio 2016
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