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Eu queria ser o casal apaixonado do metrô (mas não posso)

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LisaValder via Getty Images
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É sexta-feira, antevéspera do Dia dos Namorados no Brasil. Entro no metrô da Linha Amarela de São Paulo em direção ao meu trabalho. Atrasado pelos "cinco minutos" a mais na cama nesse dia gélido, tento apressar o passo, não ligando para nada ao redor.

Mas especificamente hoje esse 'redor' clamava pela minha atenção. Sento no vagão do metrô ao lado de um casal de idosos. Presencio uma sequência de abraços, beijos e declarações apaixonadas que fazem qualquer coração gelado nessa frente fria acreditar no amor verdadeiro. Não me contive e sorri para eles. Recebi uma resposta daquelas que viram provérbio a ser seguido para o resto da vida:

"A gente está muito velho para não se amar assim. Depois de morrer é que não tem mais jeito", disse o seu Evair, de 66 anos, que mora lá no Butantã, zona oeste de São Paulo (Obrigado, seu Evair!).

Sempre tive a curiosidade de prestar muita atenção nas pessoas e nas suas ações. Quem me conhece, sabe que essa é uma das minhas manias favoritas. Prestar atenção no outro como algo singular me faz perceber as inúmeras possibilidades de escolhas, a infinidade de histórias que ainda não foram contadas e os melhores segredos que a gente guarda consigo.

E hoje gostaria de compartilhar dois segredos que não foram contados por ninguém. O primeiro é que eu sonho em ser o casal do metrô. Eu queria ser o protagonista daquela história, daqueles beijos e das declarações também.

Tenho uma linda história de amor - conheci meu namorado em Buenos Aires, viramos amigos, nos afastamos e depois nos reencontramos após três anos no Tinder (reviravoltas da vida) -, recebo beijos e declarações diárias de carinho e de quanto sou importante na vida dele. Sou um cara totalmente apaixonado e feliz no meu relacionamento. Ele sabe disso.

No entanto, sinto que minha história só pode ser vivida da porta para dentro. Na rua, na calçada, no bar, no cinema ou no metrô sou encorajado pela sociedade a não poder. Sou manipulado a pensar que meu amor é menos importante do que um casal formado por um homem e uma mulher.

Não tenho medo algum dos olhares, não ligo para xingamentos e respondo a preconceituosos na mesma moeda. Tenho orgulho de ser um homem gay e sou adepto da ideia de que precisamos confrontar qualquer tipo de preconceito até o dia que eles sejam vencidos - ou minimizados.

Precisamos de mais gays, lésbicas, trans, travestis e bissexuais tenham coragem de se beijar em público. De mais abraços apertados, mais encontros amorosos na saída do metrô e de mãos dadas nas ruas de qualquer cidade. Precisamos de mais amor, sem questionar a sexualidade ou gênero em que ele vier acompanhado.

E aqui vai meu segundo segredo: infelizmente, sou covarde demais para tudo isso. Você pode pensar que essa frase seja contraditória depois de tudo que escrevi, mas, nesse caso, a covardia surge exatamente do amor.

Eu não quero virar estatística em pesquisas que não conseguem contabilizar a real violência contra LGBTTs. Não quero correr o risco de perder a vida por ser exatamente quem eu sou. Não quero ser agredido e precisar ir registrar ocorrência em uma polícia preparada para reproduzir o mesmo preconceito do agressor. Não quero me tornar as manchetes em que leio nos jornais.

A minha covardia se transformou em instrumento de proteção. Sei que muitos optam por essa mesma escolha a qual eu fiz. Não se envergonhe por isso.

Se você prestar bastante atenção vai perceber que covardia não é sinônimo de fraqueza. São pessoas que, na sua essência, têm uma dificuldade enorme de magoar os outros, especialmente quem está em uma situação inferior. Elas preferem, muitas vezes, arcar com prejuízos para si mesmo em vez de tomarem atitudes agressivas - mesmo que em defesa justa dos seus direitos.

Em resumo: o covarde tem medo de agredir, e não de apanhar.

Eu espero que nos próximos 40 anos, antes de chegar na idade do seu Evair, minha covardia não seja mais necessária. E que possa contar para vocês: Eu sou o casal apaixonado do metrô.

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