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Quando a justiça se transforma em vingança

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JUSTIA
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A minissérie Justiça, da TV Globo, terminou se celebrizando como uma das melhores produções da TV neste ano. Com direção de cena caprichada, capitaneada pelo excelente José Luiz Villamarim, mostrou uma total conexão entre enredo, elenco e locações. Os desempenhos de Déborah Bloch, Jesuíta Barbosa, Enrique Diaz, Drica Moraes, e as boas surpresas Cauã Reymond e Leandra Leal, em capítulos ao longo de cinco semanas de exibição, merecem elogios de parte a parte - e, convenhamos, Adriana Esteves atingiu o posto de "hors concours".

Entretanto, o diabo mora mesmo nos detalhes. Como eu já vislumbrara no texto inicial aqui publicado "Justiça é o nosso mundo cão com verniz cult", era esperar para ver as soluções para os importantes dilemas colocados pela autora, Manuela Dias. Certamente, não cabe ao criador explicar sua criatura - uma obra de dramaturgia se apresenta por si mesma.

Não se prometia afinal um roteiro de fácil digestão. E nem estava claro se a justiça do título se referia à justiça dos homens (aquela feita com as próprias mãos) ou àquela sob o véu da legalidade e ambiente jurídico. Ainda, o título poderia estar relacionado à justiça divina, subordinada à fé de cada um e ante a qual todas as demais se dobram, segundo cada crença.

O fato é que cada historieta entrelaçada dentro da minissérie teve um percurso e desfecho pouco ou nada convencionais. Na história um, que versava sobre a relação entre uma mãe e o assassino de sua filha, aconteceu o inadmissível: a mãe se envolveu amorosamente com o rapaz (Jesuíta Barbosa), que fizera de tudo para se reabilitar após cumprir pena, e até conquistara alguma simpatia, ao cursar mestrado e se casar, mostrando-se ainda um pai amoroso e dedicado. No seu desfecho, a justiça que se fez foi divina, ou valeu a famosa lei do retorno, com uma dubiedade proposital: a passageira (Deborah Bloch) poderia ter socorrido o motorista a tempo no acidente de automóvel e não o fez deliberadamente? Nunca saberemos.

Cativante, a história dois porém não era muito verossímil. A Fátima de Adriana Esteves tinha o roteiro mais "um dia de cão" possível: perdeu o marido morto esfaqueado na mesma noite em que matou o cachorro do vizinho e por isso acabou sendo vítima de uma armação de tráfico de drogas que a deixou presa por 7 anos. Os dois filhos pequenos órfãos de pai e com a mãe detenta ficaram abandonados à própria sorte - o garoto virou morador de rua e a filha se tornou prostituta. Quando finalmente Fátima recupera a vida e os filhos à sua casa, encontra um novo amor e sua personagem tem um merecido final feliz - apesar de a filha prosseguir na prostituição.

A terceira história se dividia entre as diferenças de destino de duas amigas, uma negra e pobre (Jéssica Ellen) e a outra de classe média (Luísa Arraes). A primeira acabou presa por um mix de racismo e porte de drogas e no final encontrou a felicidade casando-se exatamente com o traficante (Vladimir Brichta). A amiga, por sua vez, teve um destino pior: sofreu a violência do estupro, ficou estéril, buscando a todo custo vingar-se do criminoso, que gozava da liberdade dos impunes. Num desfecho que pareceu inspirado em post de algum justiceiro, a moça contratou dois capatazes e, em uma cena rara na produção nacional de TV, espancou o seu estuprador até a morte.

Por fim, a última das quatro histórias terminou com um político corrupto (Antonio Calloni) que acabou atrás das grades não por suas falcatruas, mas sim condenado pela morte acidental da mulher (Drica Moraes), que o denunciara. Antes disso, ela também o traiu maritalmente. O vingador dessa história foi o mesmo personagem (Cauã Reymond) condenado por praticar eutanásia na esposa após ela ter sido atropelada sem receber socorro exatamente pelo vilão de Calloni. Não à toa, este mocinho vingador cruza com a fugitiva que matou seu estuprador num sugestivo final feliz comum para ambos.

Vivemos tempos estranhos, com proliferação de discursos de ódio e emprego oficial de soluções que se explicam pela necessidade de atingir objetivos sanadores, independentemente dos meios empregados. Quando a produção artística de alta qualidade começa a refletir essa tendência na forma de ficção com ampla aceitação por parte do público, o que de certa forma acaba legitimando-a, nunca é demais lembrar que a realidade é bastante dura e sempre, sempre pode piorar.

LEIA MAIS:

- 'Justiça' é o nosso mundo cão com verniz cult

- Com 'Velho Chico', o deleite do telespectador é totalmente visual

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