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'Justiça' é o nosso mundo cão com verniz cult

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JUSTIA
Ellen Soares/Gshow
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Os diálogos são duros e diretos, sem meias palavras; as cenas se passam em locações ou em réplicas detalhadamente reconstituídas em estúdio, a luz é naturalista, a maquiagem só existe quando é de propósito, não há filtros para disfarçar linhas de expressão dos atores e já foram vistos até fios de cabelos brancos das atrizes e solas de pés sujos em cenas de sexo.

Justiça, série da Globo para a faixa das 22h30, traz histórias muito semelhantes àquelas que recheiam diariamente os telejornais de final de tarde, atraindo o telespectador e audiência para os casos policiais. Lembram as desgraças que vemos na TV do fim do expediente que nos dão assunto para lamentar a dureza da vida e que são exibidas em tom sensacionalista nos noticiários justamente pelas emissoras concorrentes da Globo. Definida pelos criadores como um trabalho de "dramaturgia documental", a série passa um verniz cult em acontecimentos trágicos desse nosso mundo cão.

São 20 episódios que contêm quatro tramas paralelas, com alguns personagens-chave que permeiam as várias histórias independentes e trafegam por elas em algum momento, com interconexão de cenas - esse mesmo recurso apareceu recentemente também em Os Experientes, exibida em 2015. Em Justiça, cada capítulo é dedicado a uma trama.

Autora da história, Manuela Dias (que tem colaboração de Mariana Mesquita, Lucas Paraizo e Roberto Vitorino) classificou seu roteiro como uma "pesquisa audiovisual sobre o lado pessoal da justiça". Ela contou que o ponto de partida veio de um fato ocorrido com uma empregada sua, cujo marido foi preso por matar o cachorro de um vizinho - e esse é um dos acontecimentos que marca uma das tramas. Manuela ressalta que sua ideia não foi falar nem de leis nem da justiça em si, mas do que ocorre na vida das pessoas depois que a justiça se faz e o que lhes resta para seguir adiante.

Apresentados personagens e crimes na primeira semana, os protagonistas cumprem pena de prisão por 7 anos, cada qual por um crime diferente, e é sobre a vida a partir disso que versarão os próximos episódios.

A direção artística do premiado José Luiz Villamarim (de Avenida Brasil, O Rebu, Amores Roubados), é primorosa, com atuações idem de Débora Bloch, Adriana Esteves, Enrique Diaz, Ângelo Antônio, Marjorie Estiano, Antônio Calloni e Drica Moraes. Não dá pra elogiar o sotaque pretensamente pernambucano infringido ao elenco - à exceção do excelente Jesuíta Barbosa e sua fala genuína, já que ele é o principal representante do talento local. A emissora, infelizmente, mantém esse cacoete de forçar os sotaques em todas as suas obras com caráter regional. E ainda tem de se destacar a sempre excelente fotografia do diretor Walter de Carvalho - Luisa Lima e Isabella Teixeira completam o time de diretores.

Todas as histórias são ambientadas em Recife. No episódio inicial, Elisa (Debora Bloch) mostrou sede de vingança sobre o assassinato da filha Isabela (Marina Ruy Barbosa), morta a tiros pelo noivo ciumento Vicente (Jesuíta Barbosa). No capítulo seguinte, Fátima (Adriana Esteves) é uma empregada doméstica que tem sua pacata vida familiar virada de ponta cabeça por conta de um cachorro bravo de um vizinho policial; ela acaba matando o animal para proteger os filhos e daí começa seu inferno, já que o vizinho se vinga plantando drogas em sua casa e ela acaba presa.

Na terceira parte, o tema proeminente é o racismo, com Rose (Jéssica Ellen) sempre sofrendo por ser negra e pobre, mas ela acaba presa por portar drogas destinadas aos amigos. A continuidade de sua trama se dará ao lado da melhor amiga (Luiza Arraes), classe média e branca, que sofre um estupro. Por fim, o quarto episódio trouxe o tema da eutanásia. A bailarina Beatriz (Marjorie Estiano) é atropelada por um empresário corrupto que não a socorre. Como não aceita ficar tetraplégica, convence o marido Maurício (Cauã Reymond) a fazer eutanásia nela. Após cumprir pena, o viúvo também tem seu plano de vingança.

Muito feliz a escolha da trilha sonora, ainda mais pela música-tema que tão bem sonorizou as chamadas. Hallelujah, de Leonard Cohen, está aqui na versão interpretada por Rufus Wainwright.

Crimes costumam ser moto-propulsores de grandes tramas, e as da Globo não são diferentes. Nas telenovelas, acabam alinhavados com histórias paralelas que aliviam a carga de temas tão pesados. Para citar algumas recentes, o sucesso Avenida Brasil começava com crianças abandonadas às quais restava viver em um lixão; em Salve Jorge, havia o tráfico de mulheres para a Turquia, Amor à Vida teve o caso do bebê recém-nascido atirado numa caçamba, e em A Regra do Jogo uma facção criminosa dominava os capítulos.

O mesmo acontece na teledramaturgia exibida pelas demais emissoras. A turca Fatmagul, exibida pela Band, tinha como tema central o estupro coletivo sofrido pela heroína da história. Nas novelas mexicanas - em profusão nas tardes do SBT -, o mínimo que as vilãs fazem é atear fogo na casa da mocinha. A Record também não tem poupado violência em suas novelas e a temática bíblica de muitas de suas produções é um prato cheio dos atos mais condenáveis da história da humanidade.

As séries de curta duração, diferentemente das novelas que duram meses a fio, podem levar com mais conforto à ficção roteiros policiais fornecidos à exaustão na rotina dos nossos tribunais. Viram casos inspirados em fatos reais mas modificados para serem transformados em mera coincidência.

Nunca é demais falar de Quem Ama não Mata, de 1982. A série aturdia um país ainda sob a ditadura que tinha se chocado com o assassinato de Ângela Diniz por Doca Street, e cuja defesa num primeiro julgamento havia alegado legítima defesa de honra, com consequente abrandamento de pena.

Houve célebres produções de séries e minisséries na linha policial nos anos 90 - tipo A Justiceira, Delegacia de Mulheres, As noivas de Copacabana. No início dos anos 2000, comédias de costumes e temas mais leves dominaram. Nesta década, a Globo vem usando mais o tema, com produções como A Teia, O Caçador, Dupla Identidade. O Rebu teve remake em 2014 e tudo girava em torno de um crime. Amores Roubados e Felizes para Sempre (esta um remake de Quem Ama Não Mata), de 2015, também resultaram em assassinatos.

Neste Justiça, é acompanhar o caminho escolhido pela autora na condução e solução de cada dilema pessoal. Ver se os desfechos irão fazer eco a toda uma onda conservadora que permeia os discursos atualmente, ou se cada caso se encerrará unicamente dentro de sua própria carga de tragédia e dramaticidade.

Coincidentemente, está em cartaz nos cinemas o filme francês A Corte (L'Hermine/2015), que aborda o outro lado dos tribunais. Antes de ser um filme sobre julgamentos, é uma história pessoal sobre um juiz. Num determinado momento, o personagem principal, em meio a um tribunal de um crime terrível - o assassinato de um bebê tendo o pai como réu - diz aos jurados, num conselho para se desvencilharem de suas convicções ideológicas para estabelecer o veredito final:

"Não se trata de sabermos aqui a verdade. Nunca saberemos. A justiça consiste em fazer valer a lei".

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