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A encruzilhada turca

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TURKEY
ARIS MESSINIS via Getty Images
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Circulou pelas redes sociais do Brasil uma fina ironia divulgada pelo ex-presidente turco Abdullha Gul - que em 2007 foi eleito de forma indireta para a presidência do país -, em que insinua: "Na Turquia não se toma o poder do dia para a noite como na América Latina ou África."

Em que pese o respeito às normas institucionais serem questionáveis em ambos os continentes, as coisas não são bem assim, pois a Turquia não é nenhum modelo de democracia: por lá toma-se o poder via golpe, sim. E isso não é raro. Raro é ficar uma década sem golpe. Desde os anos 1950, a única década em que não houve golpe ou tentativa foi a primeira do presente século.

A Turquia moderna nasceu de um golpe de Estado desferido por Mustafá Kemal quando irrompeu-se contra o draconiano Tratado de Sèvres imposto pelas potências durante o rearranjamento territorial após a Primeira Guerra Mundial e que fora aceito pelo sultão. Naquele momento da história, a Turquia e seu território - construído ao longo de oito séculos - estavam fadados ao virtual desaparecimento.

Além de Inglaterra e França que traçavam as fronteiras do Oriente Médio ao seu bel prazer, oportunistas de última hora, como a Itália e a Grécia embarcaram ao lado dos vencedores e se preparavam para abocanhar parte do território turco. Kemal, que liderava o movimento Jovens Turcos, olhava atentamente para os espúrios acordos da Conferência de Paz de 1919 em que se via um sultão cambaleante e totalmente submisso.

O país alvo da divisão territorial, a Turquia, simplesmente não era ouvido nas negociações. Liderado por Kemal, o oficialato turco se rebelou: não aceitou Sévres, destituiu o monarca, pôs fim ao último califado, instituiu a República e forçou os aliados a um novo acordo, Lausanne, em 1923, que definiria as fronteiras atuais turcas. Assim, nascia a Turquia moderna e a primeira república do Oriente Médio. Como no Brasil, derrubava-se a monarquia e fundava-se a república por meio de um golpe militar.

Mustafá Kemal, que adotou o condinome Ataturk (pai dos turcos), governaria a Turquia desde a origem, em 1923, até sua morte em 1938. As primeiras eleições livres ocorreriam apenas em 1950. No entanto, o país sempre viveu à sombra de golpes de Estado que ocorreram nos anos 1960, 1970, 1980 e 1990. Logo, não é novidade alguma o que se passou agora em 2016.

Desde a fundação da república, o secularismo turco é tutelado por um exército atento às movimentações políticas. No âmbito interno, o que mais preocupa os militares é um possível retorno à ordem teocrática e para muitos, Erdogan justifica tal preocupação, embora isso seja pouco provável: o presidente turco já se mostrou um ás na política e não cometeria esse amadorismo. Prefere flertar com os regimes e grupos muçulmanos de países vizinhos, mas, não implementar tal modelo na Turquia (isso geraria o caos que ele não quer).

Logo, devemos considerar que no momento duas são as principais forças políticas da Turquia contemporânea: o Islã e os militares. O AKP (Partido da Justiça e Desenvolvimento)é a força política da religiosidade moderada. O partido foi astutamente construído, surgiu do ventre de uma organização religiosa radical, o RP (Partido do Bem Estar). Como o RP fora banido devido ao fundamentalismo arraigado, o AKP surgiu como uma opção "moderada". Seus líderes não querem incorrer no risco de ter o mesmo fim do partido antecessor, embora Erdogan tenha reduzido a força do judiciário turco a entidade responsável por intervir nos partidos.

O AKP é um partido islâmico moderado e defensor de valores liberais, muitos analistas o definem pelo enigmático termo fundamentalismo moderado. Desde 2002, domina a cena política do país e seu líder máximo, Recep Tyyip Erdogan cataliza as atenções. Foi primeiro-ministro de 2003 a 2014 e, não podendo mais continuar no cargo devido a limites constitucionais, concorreu e venceu as eleições presidenciais daquele ano. Até então, a função de presidente da república na Turquia era figurativa: quem manda é o primeiro-ministro. A prioridade de Erdogan ultimamente é alterar as regras constitucionais e conceder mais poder ao chefe do executivo, no caso, ele mesmo.

A elite urbana turca, mais ocidentalizada e kemalista na essência, tem paúra do AKP e faz forte oposição à Erdogan que encontra apoio na parcela mais pobre e identificada com o discurso religioso. No fundo o que está em jogo na sociedade turca é um silencioso conflito entre o otomanismo e o kemalismo. Como "otomanismo" leia-se uma nostálgica remissão aos oito séculos de um dos maiores impérios de todos os tempos; considere que esse Império era um Estado teocrático. O kemalismo pôs fim a essa perspectiva teocrática iniciando o laicismo. Eis o cenário político turco contemporâneo visto em perspectiva.

Erdogan não esconde seus fortes vínculos ao tradicionalismo islâmico, sua admiração pelo período otomano, sua esposa é frequentemente vista em público com o véu islâmico, o que irrita os militares. Detalhe: quando fundou a República, Ataturk proibiu o véu e o fez, o famoso chapéu turco, no processo de ocidentalização que implementou. Abandonou, inclusive, o próprio alfabeto substituindo-o pelo latino. Os militares turcos são a expressão máxima do kemalismo e é por aí que devemos compreender a tentativa de golpe.

Contudo, há outros elementos e um deles é uma cisão no próprio seio do AKP. Muitos entendem que por trás do golpe esteja a ingerência de Fethullah Gülen, clérigo muçulmano e por anos aliado de Erdogan. Desavenças ideológicas levaram ao rompimento entre eles a ponto do clérigo tornar-se o maior inimigo do presidente que o acusa de "terrorista." Gülen, com seu discurso fundamentalista, passou a pregar fervorosamente por uma inferência mais ativa do Islã na política e arregimentar seguidores.

Construiu uma rede conhecida como Hizmet, ultranacionalista e religiosa, mas paradoxalmente aliada à cúpula militar. Acusado de conspirar contra o governo, é muito difícil que o golpe da semana passada não tenha ligação com Fethulla Güllen que, por sua vez, nega qualquer participação. Ele vive nos Estados Unidos, mas coordena instituições e associações culturais em vários pontos do planeta, inclusive, no Brasil.

A democracia turca sai enfraquecida do episódio. O país está dividido entre o secularismo e o islamismo, entre políticos religiosos e militares: religião e exército são atores políticos centrais no tabuleiro turco. O CHP, segundo maior partido, laico e social-democrata não é páreo para o AKP. Por sua vez, Erdogan não tem outra chance a não ser aumentar ainda mais o centralismo que já vinha exercendo e deve governar com mão de ferro daqui para a frente, pois sabe que o golpismo latente anda à espreita.

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