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Caminhos da China

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Dona do segundo maior PIB do mundo, ao contrário do que se propaga, a economia da China vai bem, obrigado. É um erro falar em "crise chinesa", o mais adequado é tratar como desaceleração da economia, situação distinta. Quem dera à maioria dos países do mundo "estar em crise" com crescimento de 7%!

Desnecessário dizer que o país asiático chama a atenção de todos que estudam as relações internacionais e prestam atenção ao sistema internacional, mas necessário lembrar que a construção da China contemporânea se deu por caminhos turvos durante o século XX: passou por três momentos bem datados e distintos. O poderio econômico atual é fruto desse processo histórico.

Iniciou o século XX sob o jugo do imperialismo, especialmente devido à presença britânica e nipônica em seu território. Também deitaram influência por lá russos, franceses e alemães. A China era uma monarquia fictícia e submissa, uma "terra de ninguém". É nesse momento que surgem duas forças antagônicas de resistência: os nacionalistas do Kuomitang e os comunistas, que tinham como ponto comum lutar por uma China soberana e independente e, como divergência, o modelo a ser implantado. Tal paradoxo pautaria o cenário político do país na primeira metade daquele século - que apresentaria uma estranha alternância nas relações entre as duas frentes, ora inimigas, ora aliadas. Contudo, a rivalidade falou mais alto. A fala de Mao Tse Tung, quando completou a Grande Marcha, deixa claro a quantas andava as relações entre o líder comunista e Chiang Kay Shek:

A Longa Marcha é a primeira deste tipo nos anais da história. Ela é um manifesto, uma força de propaganda, uma semeadeira. Ela proclamou ao mundo que o Exército Vermelho [o exército comunista da China, ainda em formação] é um exército de heróis, enquanto os imperialistas e seus vassalos, Chiang Kay-Shek e os de sua laia, são impotentes. (Spence, Jonathan. Em busca da China moderna, 2000).

A violenta invasão da Manchúria em 1931 pelo Japão e a posterior Segunda Guerra Mundial provocariam uma trégua nos embates entre as duas frentes que, circunstancialmente, somaram força para combater os japoneses.

No entanto, tão logo findou a Segunda Guerra Mundial, iniciou-se a guerra civil que culminaria coma chamada Revolução Chinesa, em 1949, e a consequente vitória dos comunistas. Era o fim de um império de cinco mil anos e, pela primeira vez, a China se tornaria uma república. Nascem "duas chinas" dos desdobramentos políticos desse primeiro ciclo histórico: a República Popular da China, na porção continental, e a República Nacionalista da China, Taiwan, a China insular. O não reconhecimento de Pequim à Taipé iniciou forte tensão que prossegue nos dias de hoje, embora mais branda, é verdade. Mas a mensagem explícita na página da embaixada chinesa não deixa dúvida de suas pretensões:

Realizar a reunificação completa da Pátria é o desejo comum de todo o povo chinês. É um assunto que envolve a dignidade da nação chinesa e a integridade territorial e soberania do país. Já resolvemos exitosamente as questões de Hong Kong e de Macau sob a orientação de "reunificação pacífica e um país, dois sistemas". Vamos esforçar-nos por resolver, sob a mesma orientação e o mais rápido possível, a questão de Taiwan. Existe apenas uma China no mundo, o Continente e Taiwan pertencem à mesma China. A soberania e a integridade territorial chinesa são inseparáveis. A reunificação pacífica só poderá ser alcançada com a persistência no princípio de "uma só China". Reunificar a Pátria é a determinação firme e imperturbável do povo chinês e também a nossa sagrada missão histórica. Desde que as autoridades taiwanesas concordem na solução da questão de Taiwan sob o princípio de "uma só China", nós podemos esperar com paciência.

Os comunistas entenderam ser um erro ir atrás dos nacionalistas naquele momento para reconquistar a "ilha rebelde", pois os mesmos estavam protegidos por um anel marítimo. Priorizaram reorganizar o país que surgia. Mao Tse Tung, o timoneiro da Revolução tornou-se o líder maior e conduziu a China pelos mais ortodoxos caminhos do marxismo. Impôs-se a estatização completa da economia com o modelo da planificação econômica e os planos quinquenais. Realizou-se a maior reforma agrária da história: estimam-se em 300 mil os camponeses contemplados com pequenos lotes de terras, as "comunas", propriedades coletivas e uma tardia industrialização no nordeste do país.

Mao nunca havia saído da China, sua primeira viagem ao exterior foi à União Soviética. Em Moscou foi ignorado por Stálin que fingiu não saber quem era Mao. A União Soviética daria o apoio requisitado à modernização técnica; mais que queria menos que podia. Pouco tempo depois, Mao a percebeu que os cinco mil técnicos enviados por Moscou não eram apenas colaboradores, mais pareciam estar a serviço de uma ingerência soviética. Não tardou os primeiros estremecimentos, afinal, a China não lutara contra ingleses, japoneses e até os próprios chineses nacionalistas para agora ser novamente recolonizada.

Nas reuniões internacionais socialistas era evidente a diferença de perspectiva entre Moscou e Pequim. Enquanto se desentendia com os russos, o dirigente chinês comandou um fracassado projeto: "O grande salto para frente" que, como se sabe, representou exatamente o contrário do que insinua o título. A tentativa em realizar um híbrido entre a produção industrial e agrícola no campo foi um fracasso. O resultado disso foi a queda na produção agrícola e o retorno da fome. O grande salto para frente e os desentendimentos com os russos enfraqueceram Mao junto a cúpula do Partido Comunista, que conseguiu afastá-lo da presidência da República sendo substituído por Liu Chao.

Mao, que nunca aceitou esse afastamento, preparou o contragolpe. Enxergou na endêmica fúria juvenil o caminho para ser reconduzido ao poder. Denunciando uma simpatia com o capitalismo, entre os revisionistas do Partido, conseguiu direcionar toda a volúpia marxista que contagiava os estudantes contra esses membros do PCCh. Em 1966, explodiu a revolta contra os revisionistas naquilo que se convencionou designar Revolução Cultural, a reafirmação dos valores de 1949. A Revolução Cultural foi um derramamento estrondoso de sangue. Líderes rivais foram expurgados ou simplesmente executados. Mao retornou absoluto ao poder onde ficaria até sua morte em 1976.

Sua morte desencadeou um processo de disputa interna no Partido entre dois grupos claramente definidos: os radicais, idealizadores da Revolução Cultural e encabeçados pela esposa de Mao, Chiang Ching (posteriormente esse grupo viria a ficar conhecido como "O bando dos quatro") e os revisionistas que voltavam à cena política com força total, liderados por um velho companheiro de
Mao, mas que tornara seu rival desde que fora afastado da presidência, Deng Xiaoping.

Deng emerge vitorioso dessa cisão e se consolida como o novo homem forte da China em 1978. Nesse mesmo ano, durante plenária do XI Comitê Central do Partido Comunista Chinês, anunciou as Reformas econômicas - que reorientaria a história da China a partir de então.

Essencialmente, o amplo programa de reformas implementado por Deng consistiu num processo de concessões ao capitalismo quando, gradativamente e no longo prazo, a China assistiu uma guinada à economia de mercado. Foram reformas liberalizantes pautadas no lema do novo líder: "não importa a cor do gato, importa que apanhe ratos." Parafraseando às avessas Mao Tse Tung que defendia "priorizar a igualdade mesmo que seja necessário sacrificar o desenvolvimento", Deng não teve dúvidas: a hora agora era de "priorizar o desenvolvimento mesmo que se sacrifique a desigualdade." E foi exatamente nisso em que a China se transformou: mais rica, mais poderosa, mais desigual.

De 1978 a 2016, o que se viu foi um desenvolvimento espetacular sem paralelo no mundo e na história dos últimos cem anos. Estudiosos sabem que o gigante asiático lidera todas as estatísticas possíveis em termos de produção e é líquido e certo que se tornará a maior economia mundial em dez anos.

XI Jinping, o atual líder chinês eleito no 18º Congresso do Partido Comunista, goza de muito prestígio e será reeleito em 2017 devendo estender seu mandato até 2022, quando sai de cena. Aí será a vez de assumir o novo líder que está em gestação nos dias atuais nas fileiras do Partido. Será indicado no vigésimo Congresso do PCCh em 2022 e terá a missão e a responsabilidade de conduzir aquela que será a maior potência econômica do mundo.

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