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A conexão entre Brasília e Cairo

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DILMA ROUSSEFF
ASSOCIATED PRESS
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A senadora Ana Amélia (PP-RS) teve a honra de proceder a penúltima fala da acusação na seção do Senado que caçou o mandato da presidente Dilma Rousseff e fez uma analogia entre o que se passa no Brasil e com a Primavera Árabe. Vejo um paralelo muito próximo realmente, mas com um olhar antagônico ao da senadora.

Para além da América Latina, com situações similares no Paraguai ou Honduras, o paralelo que faço sobre o golpe parlamentar que ora ocorre no Brasil é com o Egito de 2013. Naquele ano, o primeiro e único presidente eleito democraticamente no País africano desde a independência, Mohammad Morsi, era derrubado por meio de um golpe institucional, mas lá, diferente daqui, houve a participação efetiva dos militares.

Desde que caiu a monarquia e se tornou uma república em 1953, até então, o Egito teve apenas três presidentes: Gamal Abdul Nasser, Anwar Sadat e Hosni Mubarak, nenhum eleito por voto e todos oriundos do exército. A Primavera Árabe, mencionada pela senadora, estourou no mundo árabe no final de 2010 e atingiu o Egito no ano seguinte, derrubando Hosni Mubarak, há três décadas no poder; depois de Israel, o regime de Mubarak era o maior beneficiado por ajudas externas norte-americanas. Quando da repentina desestruturação do modelo político egípcio, a agremiação mais articulada e preparada para as eleições convocadas era a Irmandade Muçulmana. Participou do pleito em 2012 por meio de seu partido, o Partido Liberdade e Justiça com inspiração islâmica e venceu. Pela primeira vez na história do País ocorria uma eleição verdadeiramente democrática e Morsi foi eleito.

Contudo, Morsi não representava as elites locais que sempre detiveram o poder no Egito. Historicamente sempre coube às outras duas alas: os liberais e os militares que, rivais entre si, partilhavam o poder para evitar que os muçulmanos os alcançassem. A Primavera Árabe veio romper com essa tradição e Morsi incomodava demais, não só a elite interna, mas também aos Estados Unidos e Israel: era próximo demais do Hamas.

Sobrepondo a cena política egípcia, que conta com três vertentes, os militares, os liberais e os islâmicos, surgiu um imenso e anárquico conjunto popular denominado Tamarod (rebelde em árabe). Revoltosos com a grave crise econômica que assolou o País, saíram às ruas para protestar contra Morsi, há menos de um ano no poder. Diziam-se apartidários e eram predominantemente jovens. As elites imediatamente enxergaram naquelas pessoas uma perfeita massa de manobra para canalizar contra o presidente. Morsi ficou exatamente um ano no poder. Uma manobra política de veio cultural destituiu o presidente e levou-o à prisão. Na prática, foi um golpe de Estado, respaldado por forte apoio popular, de uma população inconformada com a crise que não fora Morsi quem produzira.

Mas há uma parcela da massa que não compactuou com a deposição do presidente, uma vez que ele tivera 51% dos votos. Tal situação lançou o Egito em uma permanente tensão que vem até os dias atuais; estes últimos passaram a desacreditar na via eleitoral como forma de acesso ao poder e, teme-se, possa recorrer a outros meios para fazê-lo. Data daí o crescimento no País das ações do Estado Islâmico.

Agora o Brasil

O último dia de agosto de 2016 entrou pra história do Brasil e caberá aos historiadores discorrer sobre isso. Vivenciamos nessa semana, dois dias históricos. O primeiro se verificou com a defesa de Dilma Rousseff no Senado Federal; o outro a votação do dia seguinte. Em que pese o clima tenso que permeia a conjuntura nacional, os debates ocorreram em bom nível na seção plenária em que a presidente afastada se defendeu das acusações que lhe são imputadas. E não foi uma defesa qualquer.

Ali, ela fitou olho no olho cada arguidor. Não deixou nenhum sem resposta. E muitos que não conheciam Dilma, talvez pela primeira vez, tiveram oportunidade em vê-la tal qual é. Não a presidente das edições jornalísticas, dos memes que a desqualificam nas redes sociais, da Dilma robótica das campanhas eleitorais que a artificializam, mas a Dilma pura, uma técnica gestora com forte domínio das ciências econômicas. Provavelmente seu domínio técnico e a segurança demonstrada por 14 horas seguidas de arguição tenha pautado a seção que transcorreu em bom nível, excetuando um ou outro senador que assombra pelo baixo nível intelectual. Dentre eles, um do Mato Grosso do Sul com uma retórica sofrível.

Claro, houve momentos que poderiam ser cômicos, se não fossem trágicos, como, por exemplo, quando um senador, envolvido com um helicóptero que pousou em suas propriedades com 450 kg de cocaína, acusou a presidente de ter cometido crime. Um ET que por ventura entrasse no Congresso naquele momento não entenderia nada.

Dilma fez um discurso para a história. Não conseguiu reverter o quadro desfavorável, mas imputou aos seus verdugos um peso terrível, não para ser sentido já, mas num futuro breve; entrarão pra história de uma forma que não gostariam. E não foi somente o discurso de Dilma que marcou a sessão, mas também sua postura firme demonstrando uma altives irrefutável. Muitos desqualificam Dilma nas redes sociais, mas ao contrário do que se propaga, sua capacidade técnica e intelectual na seara econômica foi percebida por quem é do meio. Lula não faria melhor. Claro, os senadores contrários a ela, a grande maioria, têm a obrigação de repetir inúmeras vezes que ela não respondeu as perguntas mesmo porque eles desejavam que ela demonstrasse que dois mais dois não são quatro. Mas, bons estudantes de economia e direito sabem que não foi bem assim.

Contudo, tal desempenho não foi suficiente para virar o jogo que como disse abertamente um senador da Rede pouco antes, já estava decidido, independentemente de qualquer argumentação.
Mas, ao contrário do que afirmou enfaticamente Dilma Rousseff, o mérito do impeachment não é exclusivo de Eduardo Cunha. Há muito mais nessa cumbuca. Tal qual no Egito a pressão das ruas foi importante. Mas claro está que, diferentemente, do Egito a mobilização popular no Brasil não foi espontânea; os tais grupos apartidários brasileiros foram todos flagrados posteriormente com gordas contribuições dadas pelos partidos de oposição ao governo eleito, sem falar na maior entidade patronal.

Egito e Brasil são repúblicas recentes que saíram da monarquia pelo mesmo caminho: golpe de Estado e ao longo do século XX, conviveram com regimes antidemocráticos. Ambos são ainda muito precoces na vivência democrática. É bem verdade que o Brasil está mais avançado que o país árabe, mas ainda não prima pelo respeito às instituições democráticas. Em ambos os países as massas saíram às ruas e pediram a deposição de um governo democraticamente eleito. Em ambos os países os presidentes foram alçados ao poder pelo voto; deveriam sair pelo mesmo caminho.

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