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Entendendo a Colômbia

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JUAN MANUEL SANTOS
Jose Gomez / Reuters
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O prêmio Nobel da Paz, concedido a Juan Manuel Santos, deve ser lido como um alento para amenizar a forte decepção com o resultado do plebiscito sobre o Acordo de Paz com as FARC na Colômbia. O resultado do pleito parece não refletir o desejo da maioria dos colombianos, que não deseja ver os esforços engendrados por ambos os lados desde Havana serem pulverizados, mesmo considerando toda a nebulosidade que cerca a sociedade do país. Sabe-se que apenas um terço da população participou da consulta e, dentre esses, a maioria contrária à reintegração dos guerrilheiros à sociedade enquanto os apoiadores do acordo se ausentaram.

País mais alinhado com os Estados Unidos em toda a América do Sul e único a safar-se da guinada à esquerda - que o subcontinente conheceu a partir dos anos 1990, as cicatrizes de sua guerra civil são profundas e curá-las não será tarefa simples; os líderes colombianos não terão vida fácil. Países mergulhados em longos anos de confronto civil dificilmente superam fortes traumas em curto prazo. Ódio não se cura com papel e caneta e os acordos de paz não têm logrado êxito prático, embora muito se comemore quando são assinados. Foi assim na Colômbia, na Irlanda ou na Palestina.

A pergunta que se faz presente é: "e agora?" Concretamente, o Acordo foi prorrogado até 31 de dezembro e nesse período tentar-se-á uma adequação para atender aos opositores do acordo, o grupo de Álvaro Uribe e simultaneamente ao movimento Coletivo Juvenil, principal protagonista da paz. Ser otimista é quase uma obrigação nesses casos, mas sem se deixar contaminar pela ilusão. Traçar uma perspectiva para a Colômbia em muito depende da retrospectiva.

De onde vem essa confusão toda?

A crise política na Colômbia data de longa data. Na verdade, estabilidade foi uma palavra praticamente ausente nos últimos oitenta anos. Desde o início do século XX, a cena política foi polarizada pela rivalidade entre os dois principais partidos: Conservador e Liberal. A tensão acirrou-se na década de 1930 com assassinatos recíprocos. Em 1948, com o assassinato de um líder liberal os dois lados partiram para o confronto armado iniciando uma guerra civil.

O desmonte da estrutura política levou ao caos urbano no único país sul-americano que não contava com um partido organizado de esquerda. Logo, o inconformismo não canalizado por uma organização popular, seja partido ou sindicatos que costumam catalisar a indignação, em grupos de bandoleiros rurais armados que passaram a semear a violência. Esse movimento ficou conhecido como Lo Bogatazzo e, anos mais tarde, explodiu outro similar denominado La violência: uma anarquia sanguinária de banditismo social que levou a centenas de milhares de mortes. O país entrava em colapso.

Em 1958, assumiu uma junta militar a partir de um acordo velado entre o Partido Conservador e o Partido Liberal que se alternariam no comando da nação: instaurava-se uma alternância oligárquica na Colômbia. Foi nesse contexto de extrema turbulência que uma dissidência do Partido Liberal se refugiou nas selvas amazônicas colombianas, em 1964, para fundar as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as FARC. No ano seguinte, surgiriam outros dois grupos esquerdistas: o Exército de Libertação Nacional (ELN), guevarista, e o Exército Popular de Libertação, de inspiração maoísta. As FARC tinham uma clara bandeira política: transformar a Colômbia em uma república marxista e para isso partiu para a luta armada no esteio da Guerra Fria.

Foi nesse cenário de profunda instabilidade que o narcotráfico encontrou terreno fértil para se instalar, já que o país detentor da segunda maior reserva de matéria-prima para a produção de cocaína encontrava-se em convulsão. Portanto, ao contrário do que muita gente pensa, o narcotráfico é consequência da crise colombiana e não sua causa. Ao longo das décadas de 1970, 1980 e 1990, a Colômbia tornou-se o maior produtor mundial de cocaína enquanto o negócio da droga que, segundo estudos da ONU, esteve entre os cinco mais rentáveis do mundo, foi infiltrando-se nas entranhas do poder, convertendo o país em um narco-Estado. A Colômbia passou a ser um país de dois sistemas: o Estado e o poder paralelo. Os atores envolvidos nesse cenário interno do país exigiam uma leitura política pormenorizada: havia o Estado e o poder paralelo composto pelo narcotráfico guerrilhas de esquerda, especialmente as FARC e os grupos paramilitares, milícias de direita com destaque para as AUC (Autodefesas Unidas da Colômbia) que atuam no mesmo diapasão do governo.

Portanto, quando se fala em "cinquenta anos de guerra civil" toma-se como ponto de partida a fundação das FARC, mas como vemos, a crise é anterior. Em seu auge as FARC chegaram a dominar aproximadamente 40% do território colombiano, onde se convertera em verdadeiro Estado paralelo e com forte respaldo popular pela parcela rural do país.

No entanto, a reorganização da conjuntura internacional com o fim da Guerra Fria e maior rigor na repressão a partir dos governos de Andrés Pastrana e Álvaro Uribe que reorganizaram o Estado colombiano com apoio dos Estados Unidos, enfraqueceram o grupo guerrilheiro em atividade mais antigo da América Latina. No novo século, a morte de seus principais líderes, a queda do Muro de Berlim e a crise cubana parecem ter desnorteado a facção que se isolou na selva e passou a vender "proteção" armada ao narcotráfico para o escoamento da droga. A prática de sequestro de civis e políticos para mantê-los em cativeiro produziu uma gradativa perda de apoio popular. As FARC passaram a confundir tática de guerrilha com ações terroristas, negando o ensinamento leninista. O caso de Ingrid Betancourt é o mais emblemático, mas não único. O distanciamento da bandeira ideológica e o desvirtuamento da causa socialista não fizeram bem às FARC. Aliar-se ao narcotráfico com o propósito de "viciar os jovens do imperialismo" não colou. Enquanto as FARC se enfraqueceram as AUC cresceram em clara sintonia com o narcotráfico.

Por outro lado, a saída de cena de um presidente popular, mas pouco afeito ao diálogo, Ávaro Uribe, e a entrada em cena de seu ex-ministro e agora rival, Juan Manuel Santos, contribuíram para o início de um diálogo. Uma sociedade traumatizada pela violência e de difícil compreensão anseia pela paz e o passo dado por Raul Castro, Santos e Rodrigo Londoño Echeverri, principal líder das FARC, com concessões recíprocas levou ao esperado acordo.

Embora com profundas diferenças, percebe-se uma clara boa vontade nos dois lados envolvidos nas negociações: governo e guerrilha. Mas forças políticas retrógadas parecem querer lutar contra e não aceitam a reincorporação dos ex-combatentes na sociedade civil nem os termos do acordo.
Nesse momento é hora de torcer contra Uribe e a favor de Santos.

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