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O cenário turco e as explosões em Istambul

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ATTACK ISTANBUL
Murad Sezer / Reuters
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O fato dos terroristas que cometeram o atentado no aeroporto de Istambul serem de nacionalidade de ex-repúblicas soviéticas reforça a tese que poucos duvidavam: foi o Estado Islâmico quem realizou a ação. Praticamente está descartada a outra opção: o PKK (Partido dos Trabalhadores Curdos).

Embora as duas organizações primem por ações extremistas, são bem distintas em sua origem e bandeira. O Estado Islâmico é uma organização jihadista recente que se notabilizou por condenáveis ações, arregimentando uma legião de inimigos e se tornando praticamente uma unanimidade a ser combatida no imbróglio instável da região. Já o PKK, com uma bandeira política e nacional, tem trajetória mais antiga, data dos anos 1970 e surgiu com princípios marxistas para lutar pela independência do povo curdo. Seu líder principal, Abdhulla Ocalan, está preso há quase vinte anos pelas forças turcas. Atentados têm sido comum na Turquia e estão diretamente ligados ao envolvimento do país no espectro geopolítico do Oriente Médio, uma vez que é peça chave no tabuleiro regional.

A Turquia faz jogo duplo com o Estado Islâmico, um encaminhamento estratégico paradoxal. Apesar do grupo terrorista atacar o país mais por motivos religiosos que políticos, em parte o EI atende aos interesses turcos já que ambos têm inimigos em comum: Bashar al Assad e os curdos, frente de resistência ao EI no norte do Iraque.

Com um espectro regional bastante complexo, a Turquia tem problemas com o PKK - relacionados à questão nacional curda, cujo povo considera-se vítima histórica da Turquia, desde o rearranjamento territorial britânico nas fronteiras do Oriente Médio após a Primeira Guerra Mundial. O povo curdo, excluído de um Estado próprio, majoritariamente anseia pela independência e o grupo representa parte dessa reivindicação.

Desde tempos remotos, a estratégica posição turca na ponte entre o Ocidente e o Oriente rendeu-lhe posição de destaque. A alcunha de a "Sublime Porta" é sintomática. Quando o longevo império Turco-otomano caiu após a Grande Guerra e Ataturk encabeçou a reorganização do Estado, a partir do movimento revolucionário "Jovens Turcos", surgiu a Turquia moderna. Num primeiro momento, o novo país tentou se manter neutro mas, quando irrompeu a reconfiguração do sistema Internacional do pós 1945, não foi mais possível a pretensa neutralidade. A Turquia foi atraída para a OTAN (1952) e caiu sob a órbita da influência norte-americana na bipolaridade antagônica da segunda metade do século XX, tornando-se peça importante na política de contenção soviética no bojo da Doutrina Truman.

O país atravessou a segunda metade do século XX envolto em celeumas internas e externas. Apesar de Ataturk virar as costas para o Oriente não conseguiu extirpar os fortes laços culturais que a história elegou: há uma maciça hegemonia islâmica com 99% da população muçulmana. O resultado produzido foi uma sociedade bastante polarizada entre turcos ocidentalizados e aqueles mais arraigados ao tradicionalismo islâmico oriental. Recep Tayyip Erdogan, o controverso presidente, representa a segunda linha, um fator de instabilidade no país com tradição golpista.

Por meio de manobras internas no parlamento, Erdogan vem se perpetuando no poder, ora como presidente, ora como primeiro-ministro, não muito diferente do que fizera Vladimir Putin na Rússia, com quem as relações estão desgastadas desde 2015, quando um caça russo foi derrubado na Turquia.

O panorama geopolítico turco é composto por muitos prismas: o país busca se firmar como importante emergente na seara econômica e pretende alçar vôos maiores na política externa. Foi assim que, juntamente com o Brasil, tentou mediar anos atrás uma negociação com o Irã e seu programa nuclear. Tal iniciativa irritou profundamente os Estados Unidos que deixou os dois países de lado e tratou ele próprio de resgatar o país persa para a comunidade internacional.

Em tempos de Brexit, o acesso à União Europeia é velha reivindicação do mais antigo pleiteante (1959), que sempre foi rejeitado na Comunidade com eternas postergações em sua adesão. Cumpriu intensa agenda para ser aceito, mas a questão cultural parece ter falado mais alto: ficou subentendido que a Europa é cristã.

A velha rivalidade com a Grécia, com quem travou histórica contenda por conta do Chipre, foi substituída por um diálogo que se desenvolve desde 2009, inclusive com a criação de uma zona comercial específica e cooperação no campo energético. A iniciativa faz parte do jogo geopolítico turco e a gravíssima crise econômica grega jogou a favor de Ancara.

Neste cenário, a Turquia busca se consolidar como potência regional ao lado de Israel, Irã e Arábia Saudita, os grandes do Oriente Médio atual. Nesse sentido, envolveu-se fortemente na questão síria atuando ao lado da Arábia Saudita, França e Estados Unidos pela derrubada do regime de Assad; Erdogan e Assad, de velhos amigos se tornaram inimigos mortais.

Os atentados ocorrem em um momento de reparação diplomática turca, que vinha retomando diálogos com desafetos recentes: Rússia no caso do avião abatido; Israel quando o país atacou uma fragata turca ocupada por militantes dos direitos humanos a caminho da Faixa de Gaza quando essa levava supostamente alimento e medicamentos a zona isolada. Os atentados não interrompem os diálogos, ao contrário, reafirmam. O fator extremista pode atuar favoravelmente à retomada diplomática turca, pois os grandes rivais regionais têm um inimigo em comum: o terror islâmico.

Edilson Adão Cândido da Silva, professor de Relações Internacionais da Facamp e autor de 360o Geografia em Rede, FTD Educação.

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