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O dilema europeu: Unidade x identidade

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Em seu clássico Nação e nacionalismos desde 1780, Eric Hobsbawm afirma que a humanidade fosse extinta e um historiador intergalático chegasse à Terra para entender o que teria ocorrido, ele precisaria antes de mais nada entender o conceito de "nação".

Obviamente, a frase explica em parte o que está acontecendo agora na Europa, com a saída do Reino Unido da União Europeia, mas torna-se um ingrediente fundamental para sua compreensão.

Com a velocidade estonteante da globalização informacional dos "homens rápidos do planeta", que Milton Santos um dia definiu, a essa altura todos já sabem que o Reino Unido não esteve presente na construção inicial da Casa Europeia, mas sim entrou em um segundo momento no bloco de países em 1973, ao lado de Irlanda e Dinamarca.

Desdenhou e recusou o Tratado de Roma de 1957 para reparar o equívoco quinze anos mais tarde, mas não sem antes aguardar na sala de espera imposta pela França de De Gaulle, que dizia desconfiar da boa vontade britânica. De fato, como se percebeu, os britânicos nunca se empenharam em uma integração verdadeira. Essa tarefa coube mais aos seis signatários originais: Bélgica, Holanda, Luxemburgo, Alemanha, França e Itália.

Foi a partir de Maastricht, em 1992 que a integração se aprofundou rumo à uma unificação plena com medidas como a tarifa zero, vista como o "fim das fronteiras econômicas" europeias, a livre circulação e a criação da moeda única. Novamente, Londres foi reticente e integrou-se parcialmente.

O referendo de 2016 traz muitos significados, mas não pode causar estranheza ao histórico de reticências britânicas: Londres sempre preferiu olhar mais ao oceano que ao continente. Já quanto à pergunta "Qual o futuro da União Europeia?", ninguém tem a resposta, muito menos esse missivista. Mas é possível traçar cenários.

Desde o advento da chamada Nova ordem mundial nos anos 1990, assistimos ao recrudescimento dos nacionalismos cujo auge foi a traumática e sangrenta Guerra dos Bálcãs: tema muito vivo na Europa desde o século XVIII que apresentou uma alternância entre o acirramento e arrefecimento. Em tempos de estabilidade econômica nacionalismos adormecem; em crise, reacendem. E todos sabemos o que se passa no sistema internacional desde a crise de 2008 e que ainda não findou.

O cataclisma financeiro mundial aprofundou a a crise do welfare state em que a Europa sempre esteve na vanguarda e já vinha se desenhando; a dívida fiscal sufoca as economias europeias e o desemprego estacionado na casa dos dois dígitos há tempos impulsiona a extrema direita, que só faz crescer. Associado a isso, um terceiro ingrediente do caldeirão europeu, a imigração, é agravada pela onda de refugiados sírios, afegãos e eritreus, embora na África e no Oriente Médio o número de refugiados seja bem maior.

O consórcio franco-germânico, que lidera a Comunidade desde sempre, não pode hesitar na mensagem. Nesse tom, Jean-Claude Junker, presidente da Comissão Europeia foi claro: "então, saiam imediatamente." O objetivo é abortar ensaios de novos questionamentos.

Por outro lado, um paradoxo geopolítico que sempre jogou contra a Unidade Europeia pode agora ajudar: a questão nacional. Após o resultado do histórico dia 24 de junho, líderes escoceses imediatamente se manifestaram acenando para novo referendo sobre a saída do Reino Unido. Se em 2014 a Escócia disse "sim" à manutenção, a tendência em provável novo referendo é o "não": os escoceses optaram por permanecer no Reino Unido por causa da União Europeia, de quem agora foram tirados contra sua vontade.

Idem os católicos republicanos da Irlanda do Norte que ensaiam retomar o velho sonho da unidade irlandesa. Contudo, ali a situação poderá ser bem mais tensa. As feridas do sonho separatista irlandês tão intenso no século XX ainda não estão cicatrizadas. O Acordo de Belfast, que selou a paz entre católicos e protestantes, é extremamente tênue. Está claro que Escócia e Irlanda do Norte preferem pertencer à União Europeia ao invés do Reino Unido.

Outro país que namora um possível referendo é a Espanha. Certamente os separatistas catalães estão de olho no novo cenário, pois desejam sair da Espanha, mas não da União Europeia. Já a Bélgica, que detém a capital da União Europeia, Bruxelas, vive igualmente uma tensão separatista: Valônia e Flandres há muito tempo convivem a contragosto. O diapasão separatista igualmente dá o tom para a Ucrânia, visto que a população à oeste do rio Dnieper deseja adentrar ao bloco, enquanto a parte russa do leste resiste à ideia e olha com muito mais simpatia para Moscou.

O nome do jogo contemporâneo é unidade versus identidade que esconde um debate entre individualismo versus coletivismo. A integração europeia desde seu início ainda em 1944, com o Benelux, foi uma história de sucesso, porém, vive hoje seu pior momento.

O jogo está aberto. Se o eixo Berlim-Paris arregimentar forças o suficiente para frear a onda anti-integração que só faz crescer na Europa nos últimos anos poderá dar a volta por cima. Mas as perspectivas neste caso são sombrias. Caso a onda direitista siga crescendo no contexto da crise social e econômica, inclusive na França, e consiga turbinar o que por enquanto são ensaios a referendos, a Comunidade pode estar com os dias contados. Ao menos nessa proposta de integração plena.

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