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Quando gênero importa em uma eleição, controle sua misoginia

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HILLARY CLINTON
Reuters Photographer / Reuters
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Dou aulas de estudos de gênero, e nunca falta material. A vida é um curso de estudos de gênero e estamos todos juntos na mesma sala. Ainda mais ultimamente.

Considere a eleição presidencial americana.

Pela primeira vez na história, temos uma mulher como candidata de um dos principais partidos, Hillary Clinton. Seu adversário, Donald Trump, não consegue evitar o burlesco de técnicas de bullying contra mulheres. Por exemplo:

.Interrompendo e falando por cima de Hillary (51 vezes num dos debates, que tinham uma hora e meia de duração);

.Reclamando que ela não tem aparência física "presidencial";

.Dando notas para mulheres com base na aparência ("Não é nota 10", "Olha essa cara! Quem votaria nisso?") e humilhando-as por causa do peso ("Miss Piggy", "Nojenta!") - claramente usando dois pesos e duas medidas quando se trata dele mesmo;

.Recorrendo a estereótipos de mulheres velhas por causa da suposta falta de "resistência física" de Clinton (ela tem 68 anos; ele tem 70!);

.Culpando a mulher pelas infidelidades passadas do marido ("Se Hillary não consegue satisfazer o marido, o que a faz pensar que vai satisfazer os Estados Unidos", ele realmente tuitou isso) - conveniente para um adúltero confesso;

.Afirmando que mulheres que fazem aborto vão sofrer "algum tipo de punição";

.E assim por diante.

Infelizmente para ele, esse tipo de comportamento não vai fazer com que seus alvos corram chorando para casa; todo mundo reconhece essas declarações como tentativas de manipulação.

Mas, assim mesmo, muitos eleitores o apoiam. Alguns gostam de suas propostas e preferem ignorar as grosserias ou, pior ainda, realmente gostam delas.

E há os que ainda estão em cima do muro, muitas vezes por motivos que não têm muito a ver com propostas, mas sim porque não "gostam" de Hillary.

Se você é um dos eleitores que preferem as propostas de Hillary, mas têm reservas - antes de votar contra ela baseado em reputação, será que você poderia estar sendo influenciado por um tipo de misoginia à moda antiga? Considere essa lista:

.Você questiona a capacidade de liderança das mulheres? (Será que deveríamos dar uma chance a elas antes de decidir, como tantos outros países? Angela Merkel, Indira Gandhi e Golda Meir vêm à mente.)

.Você está disposto a livrar a barra do candidato por seu comportamento como pessoa e/ou empresário, mas exige uma reputação impecável da candidata?

.Você acha que mulheres de 68 anos são menos vitais ou menos interessantes que homens de 70 anos?

.Você acha que mulheres são emotivas demais? (Ao refletir sobre essa pergunta, considere também quais candidatos se mostraram mais sensíveis a críticas.)

.Você acha que "não gostar dela" está associado à ideia de que mulheres não deveriam ser assertivas?

Se respondeu sim a qualquer uma dessas perguntas, estamos falando de misoginia, definida no dicionário como "ódio ou aversão às mulheres" e entendida neste contexto como dúvidas sobre as capacidades das mulheres (e, por contraste, a ideia de que homens são melhores e mais merecedores).

Durante muito tempo, o mundo aceitou essas percepções. Mas as velhas regras de gênero não fazem sentido na economia moderna. Conforme as mulheres foram se educando, a base de talentos do país se expandiu. Agora procuramos a melhor pessoa para cada emprego - na maioria das vezes. Isso abre a porta para que milhões de jovens mulheres possam florescer em ocupações que antes lhe eram vedadas.

Mas antigos preconceitos ainda estão presentes em certas esferas, especialmente no que diz respeito à liderança. Empregos de gerência de nível médio são divididos igualmente, mas o abismo persiste entre os líderes de governo e empresas. As mulheres são 51% da população, mas apenas 4,6% dos presidentes de empresas, 19,4% do Congresso e 0% dos nossos presidentes.

Ouvimos muitas teorias sobre por que as mulheres não galgam postos mais altos de liderança, incluindo: assédio, clube do bolinha, dificuldades de equilibrar a vida familiar e profissional, falta de ambição e falta de exemplos.

Quaisquer que sejam as razões, a escassez de mulheres em posição de liderança é um gargalo para mudanças e para o desenvolvimento da nossa democracia. Sem mulheres líderes, nunca saberemos que insights e inovações positivas elas poderiam apresentar, tanto como indivíduos quanto como integrantes de um grupo, capazes de oferecer perspectivas diferentes. Jovens mulheres serão menos inclinadas a buscar posição de liderança ou a aprender a liderar ao ver mulheres capazes sendo constantemente rejeitadas.

Se a candidata perder essa eleição somente porque nós, como sociedade, decidirmos que não estamos à vontade com uma liderança feminina, nossas filhas, netas, filhos e netos vão sentir as consequências negativas durante anos a fio.

Quaisquer que sejam suas inclinações políticas, e a menos que seu objetivo seja manter as mulheres fora das posições de liderança, vote no candidato que você considere mais qualificado, com as melhores ideias para o país - sem viés de gênero. Quaisquer que sejam suas opiniões, e especialmente se estiver em cima do muro - deixe sua misoginia na porta da seção eleitoral.

Artigo publicado originalmente no Houston Chronicle.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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