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A minha história com Cocada, o roupeiro da Chapecoense

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Demorou um dia todo para organizar os pensamentos após os acontecimentos da última terça-feira. E, sejamos sinceros, ninguém conseguiu organizar os pensamentos.

Mas eu consegui organizar meu pensamento e pensar em um sujeito: o Cocada.

Cocada era o roupeiro da Chapecoense, além de ser praticamente um social media do time no Twitter. No @cocadaroupeiro (que ele apagou dias antes do acidente, acho), ele sempre postava vídeos do time, fotos das viagens, imagens do fardamento dos jogadores para os jogos.

Eu só fui conhecer o Cocada depois que estive em Chapecó pela última vez, em setembro. Graças aos novos amigos que fiz lá, comecei a seguir no Twitter e bater papo com ele, que sempre dava atenção a todo mundo que pedia camisa - o que não quer dizer que desse para arrumar camisa para todo mundo, né?

Numa dessas, combinei com o Cocada o seguinte: quando a Chape viesse a São Paulo enfrentar o Corinthians em outubro, ia entregar uma camiseta para ele. Ia pedir para ele pegar os autógrafos de todo mundo e ia pegar depois. Ele topou. Conversamos por WhatsApp e combinamos tudo.

Aconteceu que eu não consegui encontrar ele pessoalmente no hotel do time, na zona norte de São Paulo. Foi a Mayra no meu lugar. Eles conversaram pessoalmente e ela pegou a camisa de volta em 20 minutos, toda assinada. Inclusive pelo próprio Cocada, que eu fiz questão que assinasse.
No final de semana, a Chape voltou a São Paulo para enfrentar o Palmeiras. Desta vez, foi ele que me mandou uma mensagem no WhatsApp.

"Tudo bem? Estamos em São Paulo de novo. Será que vamos segurar o Verdão amanhã?"

"Fala, Cocada. Na torcida aqui. Dá pra ganhar?"

"Ah, vai ser jogo tenso. Mas acho que um empate para a gente está bom."

Comentei que a gente tentou comprar ingresso, mas que não conseguiu. Mas elogiei a temporada do time - que ele classificou como "temporada show".

Foi a última vez que a gente conseguiu conversar.

Quando cheguei em casa na madrugada de segunda para terça, decidi olhar o Twitter. E começaram a pipocar as notícias que ninguém queria ler.

Naquela hora, passou tudo pela cabeça. A viagem para ver Chape 2 x 2 Ponte Preta, com dois gols do Tiaguinho. O encontro com o Caio Júnior no hotel. A foto e o bate-papo com o técnico, que ficava hospedado no mesmo andar que a gente. As novas amizades. A camisa autografada. O Cocada.

Meu Deus, o Cocada. O Cocada está no voo.

Mandei uma mensagem no WhatsApp. Jamais chegou.

Passei a madrugada em claro atrás de informações. De um lado, conversava com o Mateus Prestes. Do outro, com o José Edgar, com o Jorge Corrêa e com o Guilherme Ceciliano.

Na internet, os amigos passavam informações de rádios colombianas, quase sempre desencontradas. Pouso forçado? Queda? Poucos feridos? Muitos mortos?

Foi assim até as 6h, quando eu arreguei. A mão tremia. O braço pesava. O corpo girava. O estômago doía. Pedi desculpas ao Matheus - e, a essa altura, a gente já não sabia quem informava quem - e precisei dormir.

Quer dizer, "dormir". Um cochilo intermitente de três horas. Até que a Mayra, que estava em um voo todo cagado voltando de São Luiz, chegou em casa.

Como é que eu iria contar para ela a respeito das más notícias sobre o time para o qual eu convenci ela a torcer? Depois de levá-la a Chapecó comigo nas férias e encarar uma arquibancada de cimento embaixo de chuva?

Quando ela abriu a porta, eu corri e a abracei. "Nosso time", disse ela. Eu chorei - e nem era o primeiro choro daquelas intermináveis horas.

Ela, cansada da viagem, conseguiu dormir. Eu não consegui mais. Lembrei de todo mundo e chorei mais: pelo encontro com o Caio Júnior no hotel, pelos dois gols do Tiaguinho contra a Ponte, pela defesa que o Danilo fez aos "quarenta e onze" minutos contra o San Lorenzo...

chapecoense

E pelo Cocada. A quem eu fiquei devendo um abraço pessoalmente, em São Paulo ou Chapecó. A quem eu queria entrevistar no final do ano, para contar a história dele e para retribuir a gentileza com a qual ele sempre tratou todo mundo.

Um dia, o nó na garganta vai se desfazer. A Chape vai se reerguer, vai dar a volta por cima. Eu voltarei à Arena Condá para ver mais gols, encontrar mais amigos, comemorar mais gols, tomar mais garrafas de Kilsen. Não vai ser o que aconteceu na Colômbia que vai atrapalhar o futuro brilhante ao qual a Chape está destinada.

Mas a resposta do Cocada no WhatsApp nunca vai chegar. E isso é o que mais me dói.

Vai com Deus, amigo. Você cumpriu seu papel.

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