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A primeira vez em que ouvi o Revolver, dos Beatles

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THE BEATLES
ASSOCIATED PRESS
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Sempre gosto de citar a nietzschiana frase do Gullar, que afirma que a arte existe porque a vida não basta. Num cenário de tamanha desesperança, recorrer ao sublime e ao belo is the new falar de Tekpix (ou seria o contrário?).

Lidamos com tanta notícia triste, tanta repressão, tanta censura, tanto sadismo que às vezes algumas pequenas belezas da vida ficam ali, esquecidas num cantinho, e resgatá-las é de uma alegria comparável a encontrar pingo de leite perdido em bolso de casaco.

Foi essa alegria que tive ao ler a lembrança do meu amigo Allan, sobre os 50 anos do Revolver, sétimo álbum dos Beatles, comemorados no último dia 5 de agosto. E não tem jeito: beatlemaníacos partilham emoções. O sentimento ebole numa crescente feito refrão de "Please Please Me", de maneira que, quando a gente vê, a gente já tá fazendo discurso.

Edmondo de Amicis disse certa vez que não existe uma primeira visita a Paris: trata-se sempre de um reencontro. Acredito no mesmo para os Beatles. A Tour Eiffel integra o imaginário social à mesma proporção que a "Twist And Shout" ou a "Yellow Submarine". Você pode não saber o nome do monumento, em que cidade ele se localiza; pode não saber o nome da canção ou da banda, mas aquilo já esteve em algum recôndito da sua mente. Enfim, mas da primeira vez em que escutei o Revolver inteiro e ciente do feito foi em 2001, e me lembro muito bem. Ganhei o vinil do meu pai, um original de 1966. Um disco grosso, pesado, com capinha de plástico.

A contagem "1, 2, 3, 4" com pausa pra tosse e a seguinte linha de contrabaixo de "Taxman" já anunciavam: os caras conseguiram fazer uma abertura tão impactante quanto a do Rubber Soul, até então imbatível pra mim (embora a "Drive My Car" ainda seja minha abertura preferida). A música termina, e você ainda está sem fôlego, quando a um dramático arranjo de violinos se segue: ah, look at all the lonely people. Na minha melancólica adolescência, a história da Eleanor Rigby rasgava fundo no peito. "I'm Only Sleeping" com seu solo invertido e sua pegada preguiçosa era um misto de identificação com a letra -- incansavelmente repetida pra justificar meus frequentes lapsos de atenção -- e com o fato de ser uma das poucas músicas que eu conseguia tocar no violão. Mi menor, lá menor, sol, dó, sol, si em sétima, que era mais fácil que o si maior, pois não precisava de pestana.

"Here, There and Everywhere" chegou como a prova de que o Macca seria o mestre das silly love songs, dali para todo o sempre. Já tinha "All My Loving", "Michelle", "Eight Days a Week", e agora vinha com essa coisa de dar significado ao movimentar das mãos, dos cabelos, aquela história de ninguém poder negar que existe alguma coisa ali. Era a descrição do que não se podia descrever. É aquilo que está aqui, ali e em qualquer lugar. O cara já manjava dos paranauê.

"Good Day Sunshine" e "And Your Bird Can Sing" abrem o lado B simplesmente de maneira sinestética e são até hoje as músicas que, antes de tudo, considero quentinhas. Você ouve, sorri (e se escutar a versão Anthology da "And Your Bird Can Sing" você vai sorrir e rir), se sente acalentado e pensa: que bom que tem Beatles no mundo.

"Got You Get You Into My Life", outra do Macca, aquela música feliz pra assobiar quando se está recém-apaixonado. E "For No One", apesar de vir antes, você assobia e chora após uma decepção amorosa. Na efemeridade sentimental dos 15 anos, assobiei as duas.

(Anos mais tarde, ainda fiel ao quarteto, continuo considerando quaisquer versões uma heresia. Não se mexe com o que é sagrado. Com uma exceção: Caetano, em Qualquer Coisa, oito anos mais tarde, canta "For No One" de maneira rouquinha, cheio de bossa, respeito e competência, e mostra que dá pra ver profano, sim. Mas Caetano pode tudo.)

"Tomorrow Never Knows", título oriundo de uma frase típica do Ringo, encerra o álbum, de maneira psicodélica e na ousadia de serem três minutos sobre uma mesma nota. Aquela música com sons de pássaros, cítaras, orquestra, solos invertidos, que é mais ou menos que nem Pollock: você acha confuso, não entende muito bem, mas dentro daquele caos encontra ordem, encontra calmaria. E gosta.

A impressão que eu tenho é a de que, any time at all, os Beatles estarão com um verso, com um acorde, pra alegrar ou pra confortar. É a arte dando sentido e alegria à vida. Se você chegou até aqui, não hesite: dê o play no Revolver, dê um up na sua manhã e, quando sentir que está difícil de acreditar na vida, leve consigo outra frase do mestre George: all things must pass away.

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