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Eleições: Por dentro da Fundação Casa

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YOUNG ARRESTED
Enois/Divulgação
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*Por Amanda Pina, moradora de Santana, zona norte de São Paulo e Gustavo Alencar, morador da Brasilândia, zona norte de São Paulo.

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Em ano de eleições municipais o Brasil atravessa uma difícil crise político-econômica. E se está difícil saber em quem votar, imagina para quem não tem acesso à internet, não pode pesquisar sobre os candidatos e nem assistir aos debates. Essa é a realidade de 1.080 eleitores do estado de São Paulo internados em unidades da Fundação Casa.

Os adolescentes sob medida socioeducativa também têm o direito de votar garantido legalmente. Seções eleitorais especiais serão instaladas nessas unidades de internação, como garante a resolução nº 23.461/2015 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Segundo o diretor da Fundação CASA Pirituba, Agnaldo Custódio, 32 dos 79 jovens tiraram o título de eleitor este ano. Na Fundação CASA Guayí, em Guarulhos, 46 dos 64 adolescentes em maio emitiram o documento neste período. Visitamos estas duas unidades para trocar ideias sobre política e entender a visão dos internos sobre essas eleições.

Fundação Casa Pirituba

Fazia muito sol no bairro Vila Clarice naquela segunda-feira. Fomos recebidos por uma porta de ferro, azul e imponente. O segurança estava escondido atrás do vidro fumê enquanto checava nossos documentos. Esperamos poucos minutos até sermos liberados. Passamos pelo detector de metais que sequer apitou, mesmo com todos equipamentos de reportagem que tínhamos nas mochilas.

Depois daquela porta, o ambiente lembrou bastante as escolas estaduais de São Paulo. Mas a burocracia logo apareceu, junto com as grades. Nos revistaram sem muito esforço, diante da sela amarela que dava acesso às salas de aula. A partir daí, tudo nos fez entender que não estávamos dentro de uma escola de fato.

Em uma das salas, a professora Celine dava aula de sociologia e explicava, coincidentemente ou não, como funcionava o Estado. Atrapalhamos a conversa, mas todos já sabiam da nossa visita. Os jovens da classe tinham entre 15 e 19 anos e se interessaram pelo nosso papo. Eles se abriram quando souberam que somos jovens da Brasilândia e do Jardim Antártica, dois bairros periféricos de São Paulo. "Eles também são da comunidade, ó que da hora", um deles falou, empolgado.

Na sala tinha cerca de 10 jovens. Perguntamos quem queria ser entrevistado e todos toparam. Em seguida, trocaram de roupa, com a coordenação das professoras, pois julgavam as camisetas azuis que usavam feias demais pra aparecer na câmera. Todos os moleques queriam ficar bonitos para a entrevista, então colocaram camisas pólo brancas.

Desconectados

A direção do centro Pirituba nos informou que os adolescentes receberam a Cartilha do Jovem Eleitor, disponibilizada pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE), dois dias antes da reportagem, na quinta-feira, 25/08. Como o material foi atualizado em setembro deste ano, os internos receberam a versão de 2015.

A cartilha explica como funcionam as eleições. Na segunda página do modelo, a abordagem é sobre as funções dos Três Poderes: legislativo, executivo, judiciário. Queríamos entender o que os adolescentes da Fundação sabiam sobre o tema. Nessas eleições municipais, por exemplo, o voto será destinado aos cargos de vereador (legislativo) e de prefeito (executivo). Apesar de terem recebido a cartilha, os adolescentes não souberam responder quais são as funções dos candidatos a estes cargos. Mas a conversa sobre política foi muito além disso.

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A entrevista rolou na quadra de futebol da Fundação com 15 adolescentes. Foram eles que escolheram o lugar para a nossa conversa. "Quero sentir o ar", disse um dos meninos. Além dos que estavam na sala de aula que visitamos, outros apareceram, ainda vestidos com as camisetas azuis. Eles também queriam ser entrevistados, mas tivemos que interromper o bate papo quando deu o horário de almoço. As regras e disciplinas dentro da CASA precisam ser cumpridas rigorosamente. Por isso, só conseguimos falar com seis jovens.

O primeiro a falar com a reportagem foi André*, (18). Desinibido na sala de aula, o jovem apareceu nervoso diante da câmera. Ele acredita que política é uma forma de organizar a sociedade. "Como é que ia ser nosso país [sem política]? Ia ser bagunçado, né?", afirmou.

O jovem é músico e nos mostrou som que escreveu dentro da Fundação, semanas antes da nossa visita. O funk "Pra que votar na política?" questiona o porquê de votar nos políticos que prometem e não cumprem suas propostas de campanha. Confira o vídeo completo ao final da reportagem.

André vai votar pela primeira vez, como outros quatro adolescentes entrevistados. Como são maiores de idade, o voto para eles é obrigatório. Questionados sobre a obrigatoriedade do voto, André acredita que esse compromisso "devia ser pra quem quisesse votar", enquanto para Rafael*, (19), "o voto obrigatório é bom, mas tem que ser bem pensado" para que não haja arrependimento pelo político eleito.

Todos acreditam que a melhor forma de analisar um candidato é pesquisando sobre ele, algo que não conseguem fazer. O artigo 124 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) garante o acesso aos meios de comunicação como um direito do jovem privado da liberdade, mas os internos de Pirituba disseram que televisão e internet são proibidos. Os jornais só são usados na sala de aula - e nem sempre isso acontece.

Com essa restrição a notícias e dados dentro da Fundação, como fiscalizar esse voto? Para Bruno, (18), as informações chegam por conversas com os familiares, funcionários e professores.

Política pra quem?

Os adolescentes destacaram problemas evidentes nas periferias e disseram que se fossem prefeitos de São Paulo iriam melhorar educação, moradia, saúde, cultura e emprego. Felipe, (17), focaria na educação de base "dos pequenos", como se refere, carinhosamente, às crianças. Já Thiago, (18), apontou problemas de saneamento básico nas periferias, como esgotos e córregos a céu aberto. Diego, (18), acredita que o investimento na saúde e na educação deveria ser prioridade e que um grande problema é a corrupção dos políticos. "Nois brasileiro tá cansado de escutar que eles vai ajudar, mas não cumpre, desvia dinheiro. Eu não gosto dessas coisas não", relatou, indignado.

A falta de cultura nas periferias foi reforçada no relato de Rafael. Para ele, sem conhecimento e estrutura o jovem acaba "se perdendo". "A distração da mente é outra", disse, em uma clara referência aos atos infracionais que levou os meninos para a Fundação Casa.

Melhorias na estrutura da própria instituição também foram pauta nas conversas sobre propostas políticas. Segundo Felipe, na Fundação Casa "tem bastante coisa pra gente que não tem nada lá fora: uma comida, um remédio, um esporte, um estudo. Tem que melhorar bastante, né? Porque não é fácil ficar aqui dentro não. Você tem que saber relevar, se adaptar ao lugar".

Para Bruno, o jovem em conflito com a lei tem dificuldade de conseguir emprego depois que é liberado da internação. "Muitas pessoas procuram sair de uma vida errada pra tá procurando um emprego, mas às vezes é discriminado por ter passado por uma detenção. Então, o político tem que esquecer o passado da pessoa e pensar mais no futuro da sociedade", opinou.

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Fundação Casa Guarulhos

*Por Clara Assunção, moradora do Jaraguá, zona noroeste de São Paulo e Juliana Ghizzi, moradora da Vila Iório, zona noroeste de São Paulo.

Dois dias depois das entrevistas na Fundação Casa em Pirituba, fomos visitar a unidade Guayí, no município de Guarulhos, selecionada pela assessoria da instituição. A rua íngreme que dá acesso ao centro de internação não tem calçada para pedestres e, durante o percurso, não há nada além de terrenos baldios e uma grande distribuidora de alimentos.

Os três edifícios amarelos, inaugurados em 2008, estão localizados em frente a uma plantação de alface. Os prédios são parte dos três centros guarulhenses de medidas socioeducativas, cada qual com sua especificidade, como explicou o diretor da Casa Guayí, Flávio Ribeiro. A unidade, nomeada Serra da Cantareira, é para internação provisória. Já as outras duas são para internação.

Depois de ser revistadas pela agente de segurança, fomos recepcionadas cordialmente pelo próprio diretor, Flávio Ribeiro, junto com o assessor da Fundação Casa, Eliel Nascimento. A dupla nos guiou, no significado mais literal do verbo, e nos apresentou alguns espaços do prédio. Como na Casa Pirituba, tudo lembrava a precariedade e desorganização de uma escola estadual.

Chegamos durante a tarde enquanto os adolescentes participavam das atividades de recreação, realizadas em seis pequenas salas da instituição. Os jovens nos foram apresentados, mas não chegaram a nos conhecer de fato. Ficamos observando eles da porta, o que foi bem desconfortante. A coordenação da Fundação optou por escolher previamente dois adolescentes para a entrevista, Charlie Brown* (17) - como o jovem preferiu ser chamado - e Luís*, (18). Os dois irão votar pela primeira vez este ano.

Acesso restrito

Brown define política da seguinte forma: "É um voto, né? Você vota para melhorar [a sociedade]". Sucinto em todas as suas respostas, ele observava, através das lentes do óculos de grau, o seu pai, que tinha ido visitá-lo naquele dia. Já para Luís, falar sobre política não foi um problema. "É um fato de grande importância. Querendo ou não é um ato ali que a gente pode estar escolhendo da melhor forma um bom candidato, para ajudar a gente, os municípios, atender as necessidades do município, que também não são poucas", afirmou.

As duas entrevistas foram supervisionadas por Ribeiro, Nascimento e outros dois funcionários da unidade, Paula Gimenez, psicóloga e Alan Roberto Duarte, coordenador pedagógico. Assim como os jovens da Fundação Pirituba, os dois entrevistados disseram que não têm acesso direto a qualquer tipo de jornal, a menos que seja material para uso nas aulas.

O coordenador pedagógico Allan Duarte garantiu que o centro Guayi estava gravando as propagandas eleitorais dos candidatos a vereador para mostrar todas de uma vez. "A gente tem uma televisão que dá para passar as gravações, então vamos juntar uma semana para poder passar para eles", afirmou.

Para a advogada Vivian Sampaio, essa é uma forma de repressão dos direitos básicos. "É a maneira que os governantes encontraram para puni-los de forma velada e deixá-los cada vez mais isolados. Sem fala, sem possibilidades de expressão, sem saber o que se passa por além daqueles muros. Empurrando-os cada vez mais ao grupo das minorias, dos marginalizados."

Sem acesso direto aos veículos de comunicação, a principal via de aproximação dos jovens internos de Guarulhos com a política é pela Escola Vinculadora. A proposta, regulamentada pelo currículo da Secretaria Estadual de Educação, estabelece que as campanhas, propostas e questões políticas sejam conteúdos abordados em aula. Mas os jovens não demonstraram para a reportagem que este regulamento tem sido cumprido.

O coordenador pedagógico da unidade de Guarulhos, Alan Roberto Duarte explica que os problemas encontrados na Fundação Casa são semelhantes aos das escolas formais. "É a formação dos educadores que a gente tem. A gente precisa repensar o sistema e como são feitas as escolhas dos conteúdos que vêm no currículo", pontua.

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Cadê a educação política?

O que percebemos ao entrar na Fundação CASA é que aqueles jovens em conflito com a lei são majoritariamente negros e periféricos descrentes na política institucional. A falta de educação política que se vê dentro dos centros socioeducativos não é tão distante da perspectiva do jovem das favelas paulistas.

Sem formação e informação sobre política, direito ao voto e cidadania, os jovens de fora e de dentro das unidades estão presos a discursos prontos das instituições, disseminados por profissionais descrentes, cansados e mal estruturados. Nossa sociedade também está enclausurada e nossos jovens estão lá dentro, atrás das grades amarelas que simulam escolas. É bom lembrarmos disso na hora de votar.

*Nomes fictícios para preservação da identidade dos jovens

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