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Quero viver em um País onde a polícia não trate manifestações de forma tão diferente

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PAULISTA IMPEACHMENT
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Eu estive na Paulista no dia 17 de março de 2016, às sete horas da manhã. O ônibus que me levava para o trabalho (sou professora, neste dia as aulas começavam às 8h) parou na esquina da Consolação com a Paulista. Fui caminhando desde lá até o número 900 da Av. Paulista, logo depois da Pamplona.

Na noite da véspera, uma quarta-feira, dia 16 de março, os áudios de Dilma e Lula conversando sobre a assinatura de um documento que tornaria Lula ministro haviam sido "vazados" e divulgados na grande imprensa. Trechos desses áudios foram reprisados à exaustão nos jornais de maior audiência da televisão e do rádio. Supostamente comprovariam os interesses escusos e imorais que levaram à nomeação de Lula como ministro.

Assim que os áudios foram divulgados, um movimento reativo e espontâneo - portanto sem prévio aviso à autoridade competente, como requer o art.5º, XVI da Constituição - levou milhares de pessoas para a frente da FIESP. Os manifestantes pediam a renúncia da então presidente Dilma.

No dia 16 de março à noite a manifestação aconteceu sem maiores incidentes. Alguns manifestantes permaneceram no local. A medida em que as horas passavam, o número diminuía. A Av. Paulista passou a noite inteira fechada pelos policiais, que colocaram cavaletes para impedir a passagem de carros. Os policiais tomaram as medidas necessárias para proteger os manifestantes do fluxo de carros.

Os cavaletes permaneceram desde as oito da noite da quarta-feira até às sete e meia da manhã, quando eu passei caminhando pela avenida. Interrompiam o fluxo de carros nos dois sentidos e por todo o trecho entre a Alameda Casa Branca e a Rua Pamplona. No momento em que eu passei em frente à FIESP, às sete e meia da manhã, havia menos de cem manifestantes.

***

Eu estive na Paulista no dia 31 de agosto de 2016, dia da votação e decisão do Senado que condenaram Dilma por crime de responsabilidade e encerraram o processo de impeachment. Neste ano, estive na Paulista para me manifestar muitas outras vezes também - 18 de março, 1º de abril, 18 de abril, 1º de junho e talvez mais um par de dias que não anotei por aqui.

Mas... quero falar sobre a manifestação do dia 31 de agosto. Cheguei um pouco atrasada e a grande multidão já estava caminhando na Avenida Paulista em direção à Consolação. Viramos a esquina. Descíamos a Avenida que leva à Praça Roosevelt gritando palavras de ordem. Também convidávamos pessoas que estavam nos ônibus da pista contrária e nas janelas dos prédios para virem se manifestar conosco contra o golpe. Para pedir o "Fora Temer".

Confesso que foi muito poder gritar junto com todo mundo o "Fora Temer" que já estava sem ser dito em alto e bom som - em público, em coro - havia um tempo. Gritar junto contra o processo injusto e ilegítimo pelo qual o País, as instituições e nós - que votamos acreditando que nosso voto valia - estávamos passando, tínhamos passado. Contra o processo de impeachment que finalmente acabou. Longa agonia finalizada.

(Acabou, condenaram Dilma, mas... não caçaram seus direitos políticos, afinal... mesmo tendo cometido crime de responsabilidade... bem, ela mesma, individualmente, não é tão responsável assim, não é? Os senadores deram essa decisão cindida ao meio, estranha e contraditória, afirmaram que ela não pode continuar presidente mas pode continuar exercendo outros cargos públicos).

Foi bom poder gritar junto contra a injustiça. Gritar junto, estar na rua junto para perceber que a indignação não é só minha, solitária. Que não precisa ser dividida só por meio de uma tela de computador. Que tem outros corpos gritando junto comigo e, se não estamos sozinhos, talvez não sejamos tão fracos. Talvez não possamos ser derrotados tão facilmente. Talvez haja esperança em uma nova organização política e mobilização que ainda virá. Que o futuro que nos aguarda não é tão ruim quanto parece pelas notícias dos jornais.

No meio da manifestação, eu liguei para algumas amigas e convidei-as para vir. Venham. Tragam as crianças se quiserem. Hoje está bem tranquilo, tem tanta gente que... não, o choque não está aqui, não. Hoje, não. Hoje é o dia da votação do impeachment. A manifestação está muito grande, tem muita gente. Eles não vão fazer isso.

E eu seguia avenida abaixo, gritando "Fora Temer". Triste mas feliz. Mas... esse momento coletivo catártico, que para mim estava sendo tão importante, com tanto significado político, subitamente foi interrompido.

Ouvi sons de bombas, vindos de perto da Praça Roosevelt. Ainda estavam longe. Olhei para o amigo que estava comigo e disse: "Hugo, tenho medo." Vou sair antes que piore. Estávamos no meio de um quarteirão grande. Achei a rua mais perto, que não estava tão perto assim. Eu teria que voltar para trás. Subir uns bons metros da Consolação. Subimos juntos, andando rápido. As pessoas que antes gritavam e andavam descontraídas já reagiam ao som das bombas que vinha de baixo.

Sem correr!, calma gente, tá longe, não tá acontecendo nada, não corre! Me despedi de meu amigo quando chegamos à rua Dona Antônia de Queiroz. Ele ia continuar na manifestação. Eu decidi entrar na rua e me separar da multidão. O clima estava tenso. Entrei, caminhei dez passos e fiquei assistindo a manifestação - assim como várias outras pessoas - por alguns minutos. Logo uma fileira de policiais da tropa de choque chegou e passou pela rua. Segundos depois comecei ouvir bombas, muitas bombas. Elas vinha do meu lado. As bombas agora vinham de baixo e de cima. E eu só pensava nos longos quarteirões da Consolação, sem ruas laterais por onde meus amigos, meus alunos, meus companheiros de indignação anônimos poderiam sair e fugir daquele gás lacrimogênio forte, que eu sentia mesmo já estando bem longe, na Augusta.


Eu quero viver em um País em que a polícia não trate de forma tão diferente duas manifestações de rua. Eu quero viver em um país em que a mesma Constituição que protege a manifestação política dos dias 16-17 de março seja capaz de proteger a manifestação do dia 31 de agosto. Eu quero que meus sentimentos de injustiça e de falta de democracia parem de crescer.

LEIA MAIS:

- A falácia do discurso de 'unidade nacional'

- É golpe ou não é? Uma análise jurídico-política do momento político atual no Brasil

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