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Só paixão já não segura mais

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SOCCER ENGLAND
Reuters Staff / Reuters
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Demorou mais até do que eu supunha. Mas finalmente já se nota de forma cada vez mais clara o crescimento do interesse do brasileiro pelo futebol jogado longe daqui.

Não é mais apenas uma impressão que se tem ao se frequentar bares e botequins e perceber que muitas das conversas mais quentes são sobre os times e campeonatos europeus, ou quando se pega um táxi e o taxista não sabe se dirige ou se fica de olho no jogo de Champions League a que ele assiste na tela do seu celular preso ao parabrisas.

Tal interesse agora também é comprovado por números. Números como os colhidos no último dia 2 de abril, quando Barcelona e Real jogaram pelo Espanhol, com transmissão no Brasil da ESPN, ao mesmo tempo em que Flamengo e Botafogo jogavam pelo Carioca, em Juiz de Fora. A emissora do grupo Disney simplesmente atropelou o clássico carioca, transmitido pelo SporTV/Premiere, e ainda quebrou seu recorde histórico de audiência.

Esse processo não é recente. Ele começou a se desenhar lá em 2008-2009 e se acentuou bastante de lá para cá, sendo que o grande salto, claro, se deu a partir da vergonha mundial passada na última Copa do Mundo, quando a verdade sobre o estado do nosso futebol enfim saltou aos olhos de quem ainda resistia em admiti-la e considerava "modinha" acompanhar o que acontece fora daqui.

Se levarmos em consideração o que hoje rola no futebol do Brasil e no país como um todo, é impossível imaginar que essa tendência possa ser revertida no curto, médio ou mesmo no longo prazo. O melhor que se pode fazer agora, é tentar estancar a sangria e botar abaixo tudo o que existe em termos de estrutura antes de criar um modelo completamente novo para o nosso futebol. Um modelo acima de tudo inteligente, coerente, ético, prático e que siga uma ordem bastante simples, que é: 1º) organização; 2º) calendário; 3º) conteúdo; 4º) capricho.

Organização é o mínimo que se pode ter para que as coisas funcionem. E não é só no futebol, não. Vale para a vida de qualquer pessoa, seja ela física ou jurídica. E é justamente nesse quesito primário que nós mais erramos. Consequentemente, todo o resto desanda.

O calendário é outro dos nossos calcanhares de aquiles e um entrave fortíssimo ao desenvolvimento do esporte. O calendário atual é criminoso, burro e trabalha contra o crescimento do futebol e dos clubes e a favor apenas dos interesses da CBF e das federações, que parecem se empenhar cada vez mais em sufocar, sugar e extorquir aqueles que deveriam ser os verdadeiros beneficiários desse negócio. Mas para isso é preciso que os clubes se imponham e assumam para si o protagonismo do qual jamais deveriam ter aberto mão. Quase nenhum deles o faz.

Conteúdo é outro item básico. Os demais itens podem funcionar perfeitamente, mas de pouco vai ajudar se o conteúdo não for bom. É preciso aproveitar a boa organização e o calendário adequado para montar times competitivos e capazes de oferecer espetáculos bons de se ver.

Atualmente, há muitos jogos e muitos jogos ruins. Tão ruins, que já não assusta mais quando a gente ouve aquele amigo fanaticão dizer que deixou de assistir a uma ou outra partida do time do coração porque não queria perder o Liverpool x Stoke no Campeonato Inglês, que estava passando no mesmo horário. Já chegamos ao ponto em que só paixão já não é mais suficiente para tirar o cara de casa e levá-lo para o estádio, ou mesmo para fazê-lo parar em frente à TV e dedicar suas próximas duas horas a ver aquilo.

O capricho fica por conta dos detalhes, do cuidado com os pormenores que envolvem o futebol. É a sintonia fina da parada. Seja na qualidade de transmissão de uma partida, na cobertura jornalística, que aqui, com exceções cada vez mais raras, virou um circo, uma ode à cafonice e ao mau gosto, ou mesmo nas ações marketeiras que têm o futebol como pano de fundo, é preciso pensar como torcedor antes de mais nada, pois é ele quem vai consumir aquele conteúdo, portanto é para ele que esse conteúdo deve ser planejado.

Nos últimos 10 anos ou mais, as pessoas responsáveis por isso passaram a fazer futebol para gente que, na melhor das hipóteses, não o compreende. O que é até natural, uma vez que grande parte de quem está por trás dessas ações - a maioria, na real - não tem qualquer relação sentimental com o jogo, não entende o que ele representa e - não raro - sequer gostam.

Um bom exemplo do que estamos falando aqui pode ser visto nos dois vídeos abaixo, que mostram como as pessoas a cargo de levar adiante o ~país do futebol~ não têm a menor idéia do que ele significa, nem do que estão fazendo.

Isso é futebol...

... e isso é Luan Santana

Porém o mais preocupante de tudo é perceber que não estamos nem perto de começar a fazer as mudanças que precisam ser feitas. Quanto mais tempo levar para isso acontecer, mais difícil vai ser reverter esse quadro. Muito embora eu, particularmente, já veja a questão como irreversível, ainda é possível evitar que os estragos sejam maiores. Ainda dá para extrair coisa boa do que temos por aqui. No mínimo, muito melhor do que isso aí que estão empurrando pra cima da gente.

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